Anúncio dos autores selecionados para antologia LISBOA ELECTROPUNK

Ainda há pouco, por mera nostalgia, visitei a ala secreta da Editora SdE, onde ficaram guardados a sete chaves os autores sobreviventes do Seminário de Escrita Radical. O recinto, situado numa catacumba a cem metros de profundidade, encontrava-se selado por duas comportas estanques cujo código de acesso só eu e o Editor conhecemos. Ali permaneceram os nossos autores, durante quase dois anos, a dieta reduzida, uma canja de galinha de vez em quando, um ou outro brioche com manteiga em especiais dias de festa ,  de modo a inspirar, não o sono, mas a criatividade que a fome habitualmente proporciona. As ordens que recebi vindas do topo foram muito precisas nesse sentido. Nada de comunicar com o exterior. Nada de receber informações de um mundo que doravante deixou de ser o deles. Total info-exclusão. O sonho de um passado eléctrico deveria sobrepor-se, acima de todas as coisas, à contaminação aural de um Portugal contemporâneo. De forma alguma poderíamos correr o risco de que houvesse mais participantes a desistir, ou a serem sugados pela electrosfera, como aconteceu durante a experiência traumática do Ginjal. De modo a protegê-los dos demónios de uma outra época, a câmara dos reclusos estava defendida por uma grelha Faraday. Aprende-se com a experiência, é um facto: tudo o que aconteceu nos armazéns em ruínas, não poderia voltar a repetir-se. Como explicar ao mundo as roupas abandonadas no meio do cimento? Como explicar os bancos vazios onde ainda há pouco havia alguém a ocupá-los? A Editora SdE teve valorosamente de enfrentar, acalmar, seduzir, subornar, os protestos dos familiares que exigiam a devolução dos entes queridos que tinham desaparecido para sempre. E, como se isso não bastasse, mesmo entre os sobreviventes, havia ainda estados de agnosia profunda. Os olhos não viam esta nossa Lisboa, mas uma outra, aquela que foi sonhada no século XIX por uma cabala de autores ignotos. As mãos estendiam-se para abrir portas que não estavam lá. Os ouvidos escutavam a canção da electricidade estática libertada pelas Torres Tesla. De noite, erguiam os olhos ao céu e não viam as estrelas, mas sim o verde viçoso da atmosfera ionizada. Os pés tropeçavam em obstáculos invisíveis. Por fim, para bem deles e da Editora que os patrocinou, tivemos de guardá-los num bunker, meter-lhes uma caneta de tinta permanente nas mãos, um par de chinelos nos pés, e forçá-los a escrever, página após página, até que as Musas cruéis os deixassem em paz.
Quinze tarimbas. Catorze sobreviventes. Vários boiões de tinta. Uma sala de duches comum. Com água fria, para pensarem como proletários. Um uniforme simples, de papel reciclável, que servisse a todos de protecção e recato. Refeições apenas duas vezes por dia, para que não houvesse mais distracções. Erguer às seis da manhã. Luzes fechadas às oito da noite. E as minhas visitas, claro. Escrevam, ordenava eu, escrevam ou vai haver chatice. Só vão poder sair daqui quando os contos estiverem terminados, reescritos, revistos, corrigidos. Só vão parar quando deixarem de ouvir vozes. Só quando o espectro dos autores mortos vos deixar em paz.
Dois anos de interrogatórios. Dois anos de necessária crueldade. Até que tudo estivesse pronto, até que as remas dos manuscritos começassem a acumular-se junto aos catres. Só agora a verdade pode ser revelada, só agora quanto terminou o combate, podem os nomes vir à superfície e ser impressos pela Editora que tanto se dedicou a este projecto. Mas as histórias já foram escritas. Enfim.
Vim abrir-lhes a porta, conduzi-los à superfície e à liberdade. Subiram as escadas, trémulos e de olhos piscos sem quererem acreditar que o sonho consensual terminou. Catorze participantes, entre eles duas mulheres. Dois anos de cativeiro. E uma antologia pronta para ser publicada. Uma antologia sobre Lisboa no ano 2000, vista pelos olhos assombrados dos autores do século XIX.
No jardim em volta, cantavam os pássaros a anunciar o fim da tarde e o massacre de minhocas e demais insectos. Indiquei-lhes que podiam descartar os uniformes de papel, lavar as mãos manchadas pela tinta das canetas, vestirem-se com roupas dos nossos dias, e voltarem às respectivas famílias que nada souberam deles durante estes dois anos de exclusão criativa. Abraçaram-me, trémulos e agradecidos. “Ainda oiço vozes”, balbuciou um deles, logo calado por um valente sopapo vindo do companheiro mais próximo.
Expliquei-lhes que talvez houvesse uma próxima vez. Que, se a Editora aprovasse, haveríamos de chamá-los para uma nova tentativa. A maior parte empalideceu de susto. Outros apressaram-se a pegar nos objectos pessoais e sair a correr dali para fora.
Fiquei sozinho. Com maços de papel pendurados debaixo dos braços. Ainda lhes gritei, “Glória a Tesla, que descansa na Electrosfera”!
Mas acho que já ninguém me escutou.
Para que conste, seguem-se os nomes dos felizes sobreviventes:

AMP Rodriguez
Ana C. Nunes
Carlos Eduardo Silva
Guilherme Trindade
João Ventura
Joel Puga
Jorge Palinhos
Michael Silva
Pedro Afonso
Pedro Martins
Pedro Vicente Pedroso
Ricardo Correia
Ricardo Cruz Ortigão
Telmo Marçal

A antologia Lisboa Electropunk (ainda sem título definitivo) será apresentada ao público pela primeira vez, e vendida, no Fórum Fantástico 2012, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, de 23 a 25 de Novembro.

João Barreiros, organizador da antologia

Publicado em 17 Julho 2012

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