A biografia de Júlio Fogaça, o rival de Álvaro Cunhal

Com fotografias, documentos, testemunhos e correspondência inédita, Adelino Cunha escreveu 300 páginas sobre um político comunista de que pouco se sabe: Júlio Fogaça. Que aderiu ao PCP na mesma época do que o mítico secretário-geral e teve um papel importante durante os anos 1950 em que Cunhal esteve preso. A biografia possível, confessa o autor, mas que vai muito além do que até agora se conhecia sobre uma figura polémica.

Porquê lançar uma biografia sobre um dirigente político apagado da história?

A pergunta é exatamente a resposta. Júlio Fogaça tem uma relevância bastante grande na história do PCP e cruzei-me com ele em duas investigações, ficando com a certeza de que havia uma história para contar. Na altura não tinha elementos suficientes para perceber a dimensão desta figura, mas, quando comecei a escavar a documentação, concluí que era uma história fantástica. Mesmo que ainda hoje não perceba como é que durante tanto tempo ficou esquecido não só pelo PCP mas também pela história das oposições. Por isso, era preciso trazê-lo para a superfície do mundo contemporâneo.

Pode-se dizer que o PCP deve algo a Fogaça?

Numas entrevistas que fiz com Edmundo Pedro, ele disse-me que seria "engraçado se o PCP se reconciliasse um pouco consigo próprio e trouxesse o Fogaça para dentro da sua própria história". Concordo com ele porque, não acreditando que tenha sido um ato deliberado de esquecimento durante estas últimas décadas, permitiu esse esquecimento. É, aliás, um caso entre vários que o PCP tem deixado para trás, e isso é preocupante, até porque não compreendo a falta de curiosidade interna.

Pode dizer-se que o PCP não queria que existisse um paralelo a Álvaro Cunhal?

Acho que o próprio Álvaro Cunhal lidava com certo incómodo com pessoas do mesmo nível intelectual do seu e tinha uma ambição idêntica à sua própria ambição, a de deixar o PCP um pouco à sua imagem. Fogaça era o único intelectual com craveira idêntica a Álvaro Cunhal que surge naquela década de 1930 com Bento Gonçalves e que foi apontado várias vezes como potencial rival. Isto terá causado esse incómodo a Cunhal.

Na sua introdução fala de uma biografia inconveniente. É esta a verdade?

Acho que um dia o PCP irá fazer um esforço para permitir que os investigadores possam consultar os seus arquivos e no dia em que isso acontecer será necessário rever a interpretação da história. Este livro é um contributo para que o PCP seja mais disponível e aberto a investigações porque tem de lidar com o facto de as pessoas quererem fazer história por muito que não queira. E o acesso às fontes do partido é fundamental.

As fontes foram suficientes para escrever este livro?

Vou confessar que tive alguma sorte. Tudo o que Fogaça deixou pode ser consultado nos arquivos da PIDE na Torre do Tombo ou ir à Academia de Ciências consultar parte de um espólio que nunca foi usado. No entanto, encontrei um fundo perdido deixado na sua quinta do Cadaval e que os filhos do proprietário que a tinha comprado preservaram o espólio inédito que me ajudou a identificar grande parte do seu percurso e de situações menos conhecidas. Além disso, recolhi alguns depoimentos novos. Mas ainda fica um longo caminho a percorrer.

No início também faz muitas perguntas que o preocupam. Foram respondidas?

São perguntas que resultam da honestidade da ignorância do investigador. Entre elas, considero que não é vulgar que a PIDE tenha enviado uma brigada com aquela dimensão para a Nazaré e que uma segunda brigada fizesse uma busca em casa do companheiro de Fogaça. Tudo aponta para uma denúncia, mas a investigação não permite dizer se foi um informador da PIDE que chamou a brigada ou se foi alguém do PCP que deu informações, até se foi alguma inconfidência do companheiro. É uma pergunta por responder, mas é evidente que houve alguém que traiu Júlio Fogaça e naquele contexto histórico foi conveniente que tenha sido afastado da vida partidária. É a altura da fuga de Peniche de Álvaro Cunhal, que logo a seguir escreve sobre o desvio de direita do PCP, sendo que todos os dirigente dessa época são reabilitados por Cunhal e o único que fica preso no passado é Júlio Fogaça.

Este é um livro que tem como um dos cenários principais a orientação sexual de Júlio Fogaça, mesmo que a dado momento um dirigente do PCP refira [p. 268] que "o partido nem sequer sabia que Júlio Fogaça era homossexual". Qual é a verdade?

Essa foi uma pergunta que me assaltou frequentemente. Como vou investigar, escrever e o que posso dizer sobre isto? É bom ter em conta que existem algumas fontes, como uma que está no livro, em que se refere que é um informador do PCP que diz à PIDE, claramente, que Júlio Fogaça é homossexual. Isso é incontestável, ou seja, alguns setores sabiam disso. Qual o grau de conhecimento não se sabe. Na minha opinião, não é expulso por ser homossexual, mas que contribuiu de forma significativa para o quadro mental da época acho que sim.

Publicado em 17 Abril 2019

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