A Chegada das Trevas - Entrevista a Catherine Nixey no Expresso

Foto cortesia Catherine Nixey

O livro “A Chegada das Trevas”, agora publicado, começa com um relato da bárbara destruição de Palmira, em tudo semelhante à que foi feita pelos fundamentalistas do Daesh em 2015. Só que o livro da investigadora e jornalista Catherine Nixey descreve a conquista da cidade síria por guerreiros cristãos há 1700 anos. Essa página negra dos primeiros séculos do cristianismo inclui a queima de livros, perseguição de filósofos e destruição de templos. Um livro polémico em defesa da cultura grega e romana

Entrevista Manuela Goucha Soares

É jornalista de profissão mas a sua formação universitária é na área de Clássicas. Há quantos anos começou a reunir material para este livro?
Sou filha de um ex-monge e de uma ex-freira, o que faz com que em certo sentido esteja a preparar-me para escrever este livro desde que nasci. Cresci numa família católica, e a minha mãe ensinou-me que as obras [património] do mundo grego e romano chegaram até nós porque foram preservadas por monges católicos. Quando fui para a Universidade, escolhi a área de Estudos Clássicos; ao ler uma cópia de [um livro] Aristóteles na biblioteca da universidade, comecei a pensar que a mescla entre esses dois mundos não poderia ter sido tão perfeita [e pacífica], como aquela que minha mãe me transmitira. No fundo estou a trabalhar nesta pesquisa desde os tempos da universidade − e tenho 37 anos.

Ficou desapontada com essa descoberta?
Comecei a ler [mais], e descobri que os cristãos tinham destruído obras da filosofia [que chamaram] “pagã”, proibindo assim a leitura de muitas obras e atacando a aprendizagem sobre esse mundo “pagão”, que passou a ser considerado maligno e pecaminoso.

Também aprendi que, longe de proteger o mundo clássico, muitos cristãos desprezaram o ensino clássico. Nos séculos que se seguiram à cristianização, assistiu-se à destruição de cerca de 90% das obras da chamada literatura “pagã”.

“A Chegada das Trevas” questiona a destruição do mundo Clássico pelos cristãos dos primeiros séculos. Edições Saída de Emergência

“A Chegada das Trevas” questiona a destruição do mundo Clássico pelos cristãos dos primeiros séculos. Edições Saída de Emergência

Quanto tempo demorou a fase de escrita do livro?
Um ano e meio.

O seu projeto inicial era recriar a viagem do filósofo grego Damáscio, que foi perseguido pelo imperador Justiniano I no início do século VI?
Esperava poder seguir os passos desse carismático e fantástico filósofo que foi o último mentor da Academia de Atenas. Damáscio detestava os cristãos, que tinham morto um dos seus heróis, perseguido os seus amigos e açoitado o seu irmão. Queria seguir o trilho das muitas viagens feitas por Damáscio pelo Mediterrâneo oriental; [ele] atravessou a Europa para aprofundar a sua aprendizagem filosófica; quando a Academia [Atenas] foi forçada a fechar [portas], fugiu para a Pérsia [com um grupo de companheiros e discípulos].

A guerra na Síria alterou-lhe os planos de viagem?
Quando estava a recolher elementos sobre [a antiguidade] síria ficou claro que não seria possível visitar Palmira e o sul da Turquia.

Podemos traçar um paralelo entre a destruição dos guerreiros cristãos [séculos III a VI] e a recente destruição do Daesh, ou é abusivo fazê-lo?
Por volta do ano 385 DC, os cristãos chegaram a Palmira e destruíram a estátua da [deusa] Atena; o ataque foi tão violento que decapitaram a estátua . Isto foi feito pelos cristãos desse período, que acreditavam que os falsos ídolos deviam ser destruídos. Em 2015, foram divulgadas imagens que mostravam a destruição de Palmira pelo Daesh; entre as imagens divulgadas, uma mostrava a destruição da deusa Atena [que fora restaurada entretanto]; à semelhança dos cristãos desses séculos remotos, o Daesh também acredita que os ídolos devem ser destruídos.

Catherine Nixey tem 37 anos e é filha de um ex-monge e de uma ex-freira. A educação católica despertou-lhe a vontade de estudar o mundo Clássico

Catherine Nixey tem 37 anos e é filha de um ex-monge e de uma ex-freira. A educação católica despertou-lhe a vontade de estudar o mundo Clássico

Acha que o sistema educativo devia dar mais espaço ao ensino da cultura clássica?
Sim; para nos compreendermos, temos que entender os clássicos. O mundo clássico sustenta o nosso. Muitas das ideias que consideramos fundamentais − democracia, filosofia, arte, biologia, drama − já as encontramos nos pensadores clássicos.

Este livro pode conduzir mais jovens ao estudo da cultura clássica?
Espero que sim! Se eu conseguir convencer um único jovem que vale a pena estudar o mundo clássico, fico muito feliz.

O livro foi bem recebido pelos leitores ou criou alguma rejeição na comunidade cristã? O jornal “The Guardian” fez uma boa crítica, mas o site christiancentury.org acusa-a de dar uma visão deturpada dos factos, apesar de elogiar a forma narrativa.
Os classicistas receberam bem o livro, e as resenhas foram excelentes. Mas houve alguns cristãos que reagiram e que se sentiram ofendidos; o meu livro questiona muitos mitos que estão no centro da crença cristã. Escrevo sobre os terríveis mártires cristãos suicidas, que cometeram suicídio − ou assassinaram terceiros − porque esperavam recompensas maiores do que os outros homens, no céu, por serem mártires. O meu livro mostra como, em Palmira − e noutros pontos do Império Romano − os cristãos destruíram estátuas e templos e queimaram livros porque acreditavam que eram [objetos] “demoníacos” que deviam ser purificados.

Normalmente, os textos cristãos apresentam a chegada do cristianismo a Roma como o alvorecer de uma era mais iluminada. Eu defendo que a opressão começou neste período.

Portugal é um país maioritariamente católico, embora os portugueses não sejam muito praticantes. Teme que a edição portuguesa seja mal recebida pela hierarquia da Igreja?
Quando Edward Gibbon (século XVIII) escreveu um livro a criticar a Igreja no período [que analiso], a obra foi colocada no Índice de Livros Proibidos. Hoje, acho que a Igreja já está muito longe dessa [realidade]! Gosto de pensar que os bispos portugueses vão interessar-se pela obra, mesmo que não gostem de tudo.

Qual é o seu autor favorito sobre o período que investiga?
Gibbon é um autor maravilhoso, apesar de muitas das suas conclusões estarem desatualizadas. E é difícil não estar impressionada com o historiador Peter Brown, que praticamente criou a área de estudo que agora se conhece como Antiguidade tardia.

E qual é a sua personagem favorita do período que analisa neste livro: Damáscio, Hipácia, outra?
Hipácia [Alexandria, século V], pela sua coragem e equanimidade. O que quer que ela tenha sentido em relação ao crescente fervor religioso que estava a dominar o Império Romano, tratou todos − cristãos e não cristãos − com o mesmo respeito. E ela que era uma matemática brilhante, continuou a trabalhar até ser assassinada, em 415, por uma multidão cristã que a esfolou viva.

Quem é o filósofo da Antiguidade mais relevante na sua formação?
Celso [século II], sem dúvida. Celso foi um filósofo que escreveu críticas surpreendentemente vigorosas ao cristianismo. Perguntou por que razão Deus esperou tanto tempo para enviar a Cristo? “Se todos os que não creem são condenados, por que se esperou tanto tempo para permitir que sejam salvos? ... É só agora, depois de tanto tempo, que Deus se lembra de julgar a vida dos homens?”

Celso também disse que Maria não era suficientemente bonita para tentar uma divindade, e descreveu o Antigo Testamento como “lixo total”.

Os seus pais foram monges antes de decidirem casar-se. Isso fez com que a Catherine tivesse uma educação católica diferente da das outras crianças da sua escola e comunidade?
Tive uma educação muito mais [católica] do que a maioria, embora houvesse outros católicos nas cidades [por onde passei] mais religiosos do que eu.

Nasceu e cresceu em Gales. Onde?
Eu cresci em Monmouth, uma pequena cidade no sul do País de Gales.

É católica ou agnóstica?
Comecei a vida como católica; na minha adolescência e na casa dos vinte fui agnóstica, mas sempre tive esperanças de que voltaria a ser capaz de acreditar. Quando terminei a pesquisa para este livro era uma ateia convicta.

Os seus pais gostaram do livro? Ou ficaram chocados com o relato que faz sobre os cristãos dos séculos III a V?
A minha mãe morreu há muitos anos. O meu pai ficou muito chocado; não tinha qualquer ideia do que tinha [efetivamente] acontecido − apesar de ser o mais erudito dos monges [da sua época]. Mas gostou do livro.

Publicado em 4 Junho 2018

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