A Conspiração dos Antepassados - Crítica no blogue Ler y Criticar

Uma vez mais volto aos livros de David Soares, desta vez par ler  A Conspiração dos Antepassados. As expectativas foram altas desde o momento em que peguei no livro, graças a O Evangelho do Enforcado que gostei bastante, mas principalmente porque continuo a admirar a inquestionável qualidade do livro Batalha.

Neste livro Soares mostra desde o início um excelente trabalho de investigação e conhecimento profundo dos temas que são “usados” neste livro. A forma como consegue encaixar fantasia e factos num mesmo enredo está, na minha opinião, muito bem conseguida tanto no seu desenvolvimento como no timing usado.
A sua escrita é forte, tal como em todos os livros anteriores, talvez mais forte, mais visual (por vezes achei-a demasiado explícita, mas que é bem usada como forma de tornar as personagens mais humanas). 

Em termos de ritmo esta leitura começou algo lenta, talvez porque não consegui aproximar-me tanto das personagens como nos outros livros do autor, onde senti uma ligação quase imediata com a personagem principal. No entanto devo confessar que tanto Pessoa quanto Crowley estão muito bem caracterizados, de forma muito mais humana e menos mistificada, deixando para trás algumas noções que criámos sobre estes dois homens singulares. Soares foge a essas imagens e molda as personagens de forma a encaixá-las na história, ajudando a que o ritmo inicial seja mais lento.
Senti ainda que na primeira metade do livro o ritmo era sempre o mesmo, tão melancólico quanto a personagem de Pessoa (aproveito para dizer que adorei a melancolia da personagem), faltando momentos de aceleração que caracterizam um thriller, e só na segunda metade da obra é que começamos a sentir a adrenalina.

Todos os homens têm falhas, ninguém é perfeito, sabemos isso. No entanto tanto as falhas quanto as virtudes são por vezes “apagadas” quando se trata de personalidades que se tornam ícones, e no caso de Fernando Pessoa, qualquer pessoa conhece, por muito pouco que seja, um pouco da sua obra; mas um cidadão comum nada sabe do “homem” em si, e neste livro Soares dá a sua própria visão, onde se aproxima certamente da realidade. Tal facto agradou-me em Pessoa tal como em Crowley. Confesso ainda que no início estava curioso sobre como iria Soares definir Pessoa e a sua ligação com os heterónimos. Estaríamos perante um génio? Um louco? Uma mistura dos dois? Ou teríamos um homem perseguido e atormentado pela sua própria imaginação?
David Soares não levou a personagem de Pessoa pelo caminho que eu esperava, muito provavelmente porque não encaixaria na história, mas este desencontro com as minhas expectativas não piorou em nada a leitura.

Mesmo lento ao início a qualidade esteve sempre presente e para isso contribuíram tanto o lado humano das personagens como a própria cidade de Lisboa. Neste aspecto o trabalho do autor está mesmo muito bom, pois a cidade quase respira como um ser vivo, com pormenores que nos fazem imaginar cada momento e até compará-la com a cidade actual.

Para mim este livro não foi tão interessante quanto O Evangelho do Enforcado apenas por dois motivos: primeiro o universo de Evangelho é muito mais vasto, o que gostei imenso, e segundo porque me liguei mais às personagens da obra que fala dos Painéis de São Vicente. Também confesso que para mim não consegue alcançar a qualidade de Batalha (poucos conseguem), mas A Conspiração dos Antepassados continua a ser um livro muito bom, com uma excelente mistura de fantasia e factos, uma história que me prendeu bastante na segunda metade e que tem ainda o mérito de mostrar, como personagem principal, uma personalidade que apesar de idolatrada pela sociedade actual, está longe do estereótipo de um ídolo.

'Muito bem, mas não se esqueça: o seu talento só será tolerado enquanto aquilo que alcançar não fizer sombra à mediania daqueles que o rodeiam.' (Crowley a falar)
'E o senhor?' (Pessoa a falar)
'Eu? Meu caro, eu sou a excepção. Não invejo ninguém. Como podia? O melhor sou eu!'

Outro ponto muito interessante do livro é o texto de Soares após acabar a história. Tal como no Evangelho do Enforcado, o autor fala um pouco sobre a sua investigação, o seu ponto de vista sobre as personalidades presentes na obra e ainda o porquê e onde misturou fantasia e realidade. Este texto torna esta obra ainda melhor, principalmente porque nos ajuda a situar e diferenciar a realidade da ficção. Um pequeno toque que muitos outros livros deveriam ter pois ajuda o leitor a pensar sobre o livro e sobre a visão do autor. Mesmo muito bom.

Para quem não conheça o trabalho literário de David Soares, as caracterizações das personagens poderão chocar e até afastar-nos da leitura. Comigo tal não aconteceu, mas fica o aviso para aqueles que não gostem de descrições fortes.

David Soares tem ainda o mérito de não escrever com base nos clichés actuais e que vendem muito. Tem o mérito de fugir ao que está socialmente estipulado para a leitura, tanto obra quanto autor, e quando foge a esse conceito fá-lo com qualidade e sem medo de demonstrar a sua visão, e por isso recomendo-o.
Em quatro livros, David Soares ainda não me desiludiu, o que só demonstra a sua qualidade enquanto autor.

Publicado em 21 Março 2012

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