A Esposa Minúscula - Crítica em As Histórias de Elphaba

Contrariando-me, não há muito tempo afirmei algures não ser grande adepta de contos mas agora, que a minha lista de leituras neste género aumentou consideravelmente e com uma qualidade gritante, tenho de admitir ter descoberto nestes pequenos tesouros o contento das muitas possibilidades contidas no que eu considerava uma ínfima parte do potencial de uma história – estava redondamente enganada.
Justificações à parte, a escolha de A Esposa Minúscula – porque as reticências ainda estão presentes e a escolha de cada nova viagem é ponderada – veio de páginas que percorri anteriormente de autores que são para mim referências e, sinceramente, ainda bem que o fiz, adorei esta história.
 
Intrigante, profunda e com a dose certa de suspense, esta fábula oferece uma atractiva análise do ser humano tendo por base o fantástico, tendo por base as escolhas de toda uma vida ou um simples sopro que poderá mudar realidades para sempre.
Por oposição ao conto A Menor Mulher do Mundo de Clarice Lispector, em que os humanos se vão afastando das qualidades da sua humanidade quando confrontados com o peculiar, Andrew Kaufman procura na diferença despertar a empatia sobre dos seus intervenientes, outrora escravos de rotinas e distanciados do valor da sua individualidade.
O leitor, inicialmente hesitante do que simboliza para o autor a palavra significado, é então atraído pelo acaso e circunstância, um raro assalto a um banco, os primeiros sinais de viragem neste texto rumo ao extraordinário, à mudança que destruirá as amarras e seguranças garantidas e que irá mostrar o quão efémero é o conceito de tempo e de memória.
 
Ultrapassado este primeiro momento a escrita liberta-se, o finito e o infinito confrontam-se neste conto pleno de hipóteses, com tatuagens a ganhar vida e corações a pulsarem sem sangue nem veias. Tudo é possível e eu, previsivelmente, deixei-me fascinar pelo cliché das múltiplas metamorfoses evidentes em várias das figuras que foram vítimas do assalto. Gostei de um doce e de como gula venceu o amor, gostei de alguém que viu dividida a sua origem até permitir que esta se desvanecesse, gostei do peso literal das histórias e das heranças e gostei, particularmente, das personagens que são o motivo desta obra – uma mulher que calcula o quanto mingua e quando desaparecerá, enquanto encontra sem procurar afectos incalculáveis.
 
O ritmo, a cadência das palavras é encantatória e não raras vezes procura iludir quem lê. O autor conseguiu, desta feita, elaborar algo simples que tanto pode levar à reflexão como oferecer um pouco de entretenimento ou, efectivamente, ambas. A imaginação funciona ao longo deste pequeno livro em vários sentidos, com as descrições incompletas, personagens que podem despertar diferentes reacções ou com um simples chapéu que marca a mudança ou o princípio ou a repetição.
 
Enfim, sei que não vos contei muito sobre a história mas receio que, por se tratar de um conto, poderia estragar o mimo que qualquer um irá receber desta leitura, de uma hora perfeita entre a complexidade e a assertividade do poder de encantar, com a leveza do comum enleada no sombrio e na janela aberta, sempre ilimitada, que concilia a realidade com a fantasia.
 

Esta é uma aposta típica da colecção Bang!, da editora Saída de Emergência, que mais uma vez desafia os seus leitores com ficções desiguais.

Publicado em 6 Agosto 2014

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