A grande clivagem na sociedade portuguesa é entre elites e não elites

Da rutura da direita nos anos 80 aos fenómenos de cultura popular que atravessam o Portugal contemporâneo: Da Direita à Esquerda, livro do historiador e jurista António Araújo é hoje lançado, com apresentação de Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira

Da Direita à Esquerda parte de um ensaio sobre a direita em Portugal. Os anos 80 são determinantes na redefinição da direita. O que é que muda?

Do ponto de vista cultural - não faço uma análise política, embora comece com uma frase de Cesare Pavese que diz que a vida é política - surgiu o Independente, com toda a estética e ideologia que lhe estava ligada. Se vir o estatuto editorial do Independente fala em patriotismo. Isso seria impensável a seguir ao 25 de Abril, seria imediatamente associado a salazarismo. A forma como Miguel Esteves Cardoso - terá sido sobretudo ele - tem uma abordagem iconoclasta... Essa iconoclastia permitiu a uma certa direita sair do armário, uma direita muito diferente da tradicional, católica, tida por ultramontana.

Há uma rutura na direita?

Era quase impossível uma direita destas afirmar-se sem fazer uma forte rutura com a direita tradicional. Teve de se afirmar com os valores do hedonismo, da satisfação pessoal, e não com os valores identitários do patriotismo... Isso também era usado, mas o que interessava sobretudo era o sentido lúdico e de festa. Isso é que permitia uma certa transversalidade à esquerda e à direita. É indiscutível que, depois, também as maiorias absolutas de Cavaco Silva acabaram por conformar a vivência do que está convencionado por direita. Parecem antagónicos, mas num certo sentido, aquilo que foi feito do ponto de vista político por Cavaco Silva é aquilo que foi feito por Miguel Esteves Cardoso no Independente.

É uma comparação improvável...

Ambos transcenderam as fronteiras tradicionais de uma direita que estava muito acantonada à memória do salazarismo.

De Cavaco traça o retrato de um homem mal-amado pela direita.

Cavaco Silva foi subestimado - e bastante atacado - por essa direita urbana. O discurso contra Cavaco Silva baseia-se numa ideia classista, de que era um arrivista, que não tinha mundo. É um discurso transversal à esquerda e à direita.

Precisamente a partir dessa fase identifica um encontro cultural entre esquerda e direita. Diria que se mantém até hoje?

Eu rejeito completamente a tese do fim das ideologias, de que não há esquerda e direita. Acho que a distinção se mantém, quer do ponto de vista cultural quer do ponto de vista político. O que digo é que há afinidades ocultas. Há divergências, claro. Mas, por exemplo, o facto de a sociedade portuguesa ser relativamente adversa a um discurso xenófobo, a relativa impossibilidade (pelo menos até agora) de surgir um líder populista com um discurso xenófobo acaba por ser um fator de aproximação. A direita em Portugal não tem e não terá hipótese de ter um discurso contra minorias étnicas, por exemplo. Não há ninguém que tenha esse discurso.

Mas defende que há um primado do eu sobre estes conceitos.

O que digo é que se mantém a diferença entre esquerda e direita, mas o papel e a função das ideologias não são os mesmos. Hoje a ideologia desempenha muito mais um fator de afirmação do eu. Há uma tirania da opinião, e como as pessoas têm de ter opinião sobre tudo, a ideologia é um facilitador da emissão de opinião. Acaba por ser muito importante na autoexpressão individual, muito mais do que na transformação ou conservação do mundo.

Isso não resulta numa padronização das opiniões?

Essa é uma das funções da ideologia hoje em dia. Uma pessoa identifica-se com um determinado setor e a partir daí tem um catálogo de respostas-chave e um grupo de apoio. A era digital acabou por aprofundar um confronto que é meramente epidérmico.

O grande elemento diferenciador que identifica na sociedade portuguesa não é o de esquerda/direita...

Numa sociedade como a portuguesa a grande clivagem é entre elites e não elites. O tipo de hábitos, de consumos culturais, de visões do mundo. Os livros de autoajuda, os programas televisivos, isso não tem conteúdo ideológico, não são para a esquerda nem para a direita. Mas são consumidos numa tal dimensão que, obviamente, transcendem essa divisão. 80% da realidade vivida pelas pessoas não é norteada pelos padrões esquerda/direita. A não ser pessoas mais politizadas... Nas "não elites" o tipo de consumos culturais que fazem não é pautado por esta divisão.

O livro aborda a cultura popular, questões mais quotidianas, habitualmente alvo de pouca atenção.

O livro não tem pretensões... Os intelectuais portugueses falam muito entre si, não falam dos livros sobre intestinos, não falam sobre essas questões. Mas isso é estar fechado numa torre de marfim. Quando se fala numa história cultural, numa abordagem cultural, pensa-se sempre em alta cultura - que é consumida por uma minoria. E há uma espécie de desdém... Uma vez fiz uma crítica ao José Rodrigues dos Santos e diziam-me "mas estás a perder tempo com isso?". Não se pode desdenhar um fenómeno que vende 100 mil exemplares. Tem uma importância cultural que não pode ser colocada debaixo do tapete.

Já foi qualificado como um autor impiedoso, muito pelo que escreve no blogue Malomil. Revê-se nesta definição?

Não, de modo nenhum. Não tenho nenhum propósito de ser piedoso ou impiedoso. Acho é que há determinados fenómenos culturais que, na minha opinião, são passíveis de crítica. E há alguma crítica que, quando é feita, tem de ser um bocadinho extrema. Por exemplo, a crítica que fiz ao José Rodrigues dos Santos tem de ser extrema porque, utilizando uma frase do próprio, "estão a passar-se factos de grande gravidade". O que é que quero dizer com isto? Uma coisa é literatura de aeroporto. Agora, ser tido como um autor... aí a contestação tem de ser bastante contundente. Mas isso não tem um propósito de ser impiedoso com as pessoas.

Não é um tom muito habitual no nosso espaço público.

Quem está no espaço público está sujeito a críticas. E por vezes os autores colocam-se numa situação que suscita a impiedade.

Uma curiosidade. O que quer dizer Malomil?

Ia a passar a pensar num nome para o blogue e vi-o numa loja. Foi assim que surgiu.

O livro faz uma abordagem cultural. Mas em termos políticos não estamos a assistir a um extremar de posições, um bloco esquerda/direita, como não se via há muito tempo?

Sobre a atualidade política portuguesa não me pronuncio. O que acho que se verifica em todo o mundo, em Portugal talvez menos, é aquilo a que na América já chamam polarização afetiva. A polarização já não é pura e simplesmente ideológica, mas é de convivialidade. Na América um democrata já não frequenta a casa de republicanos. Este extremar é muito notório com Trump e Hillary Clinton. O populismo, seja de esquerda ou de direita, provoca sempre um extremar... E, voltando à questão de ser impiedoso na crítica literária: com o Donald Trump não se pode ser de meias-tintas.

Publicado em 11 Novembro 2016

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