A razão por que escrevo sobre Elfos - Por Terry Brooks

Muitas vezes, ao viajar de avião, passo o tempo a tomar notas para um novo manuscrito ou trabalho no próprio manuscrito. Acontece com frequência o passageiro a meu lado reparar nisso e perguntar-me o que estou a fazer. A conversa segue invariavelmente esta ordem:

– No que é que trabalha? – pergunta o passageiro.
– Sou escritor – respondo.
– A sério? Escreve o quê?
– Escrevo livros, romances.
– Que tipo de romance? – Ou o meu favorito: Escreveu alguma coisa que eu já tenha lido?

Eu tento dar vários tipos de resposta, todas com o objetivo de descrever de forma sucinta aquilo que faço. Mas por mais respostas diferentes que eu dê, nunca sou bem‑sucedido.

Digo “Escrevo fantasia”, “Escrevo fantasia e histórias de aventuras” ou então “Escrevo sobre elfos e magia”.

Por vezes, indico a obra O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, mesmo sabendo que apenas os livros da saga Shannara seguem o modelo dos livros de Tolkien. Também me ocorre  mencionar Harry Potter, embora nada do que eu escreva seja semelhante à obra de J. K. Rowling. Sempre tenho a esperança de que a referência a esses livros sirva de explicação, mas na verdade confunde ainda mais as pessoas.

Alguns perguntam se os meus livros são para crianças. Há algo nas palavras “elfo” e “magia” que sugere “infantil” para muitos leitores.

Também perguntam se posso citar alguns títulos. Detesto essa reação, porque a probabilidade de a pessoa desconhecer os livros que eu citar é muito elevada – a não ser que fale da adaptação de Star Wars: A Ameaça Fantasma, que não representa a minha escrita.

Todas as reações partilham uma característica em comum: os leitores que as expressam não sabem o que pensar sobre livros de fantasia ou sobre os seus escritores. Ninguém pensaria duas vezes se eu dissesse que escrevo ficção científica. Ou que escrevo literatura romântica, policial, thriller, terror, ficção literária, literatura juvenil ou até mesmo literatura contemporânea.

Por isso, quero aproveitar esta oportunidade para discutir sobre aquilo que acho que desperta essas reações estranhas que costumo presenciar. Se as pessoas entenderem melhor o que é fantasia, talvez sejam capazes de apreciar a sua leitura.

Deixem‑me começar por observar que existem diferentes tipos de histórias de fantasia, toda uma variedade de subgéneros que os fãs já reconhecem: fantasia heroica ou épica, dark fantasy, fantasia urbana, fantasia histórica, fantasia humorística, só para nomear alguns. O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, é a mais conhecida obra da fantasia moderna, o livro que todos conhecem e que inspirou muitos escritores. A obra incorpora todos os elementos clássicos do género e serve de modelo para qualquer discussão sobre fantasia épica.

Vale a pena discutir alguns desses elementos, uma vez que muitos deles aparecem inúmeras vezes em todos os tipos de fantasia. A épica inclui três elementos básicos: uma jornada, um pequeno grupo de heróis que se compromete com ela – num confronto tradicional entre o bem e o mal – e um componente de magia ou sobrenatural, sem o qual a história não pode ser resolvida. Há outros elementos, mas esses três estão presentes em quase todas as histórias de fantasia.

A série Shannara é de fantasia épica, mas os meus outros livros são diferentes. No entanto, um ou mais desses elementos básicos surgem sempre, como uma parte essencial do ofício de contar histórias. Claro que também os observo noutros tipos de ficção. O uso da magia ou do sobrenatural, em particular, tornou‑se parte do enredo de quase todas as formas de ficção. Basta repararmos nos livros de Isabel Allende, Alice Hoffman, James Lee Burke, Toni Morrison ou Cormac McCarthy para identificar escritores mainstream de sucesso que empregam a magia ou o sobrenatural.

Apesar disso, não basta compreender os elementos básicos da fantasia para que saibamos em que é que ela se distingue dos outros tipos de ficção, sobretudo se reconhecermos que eles estão presentes em todos os tipos de narrativas.

Uma fantasia de sucesso deve ter os mesmos elementos básicos que toda a boa ficção exige: um enredo sólido, personagens interessantes, um elemento de conflito, um bom ritmo e diálogos que adiantem a história ou revelem mais sobre as personagens. Mas, na verdade, o processo de escrever fantasia é diferente do de outros tipos de ficção, num aspecto básico que é intrínseco ao processo criativo e sem o qual todos os esforços são em vão: todas as outras narrativas noutros géneros literários baseiam-se no nosso mundo e nos seres humanos, seja no passado, presente ou futuro, para contar uma história.

Isto não se passa com a fantasia, que quase sempre ocorre num mundo imaginário. Esta baseia-se em criaturas imaginárias e no elemento vital da magia. Para o livro ser bem‑sucedido, tem que haver uma aceitação tanto das personagens quanto do enredo e, assim, por mais estranha que seja a experiência para o leitor, deve ser permitida uma suspensão voluntária da descrença. Dentro dos parâmetros do mundo criado pelo autor, tudo tem que estar construído de forma coerente e coesa. Aprendi essa lição há muitos anos com o meu editor, Lester del Rey, quando ele me obrigou a deitar fora um livro inteiro cujo mundo imaginário não tinha consistência. A verossimilhança é essencial na fantasia – e começa com a consistência. 

Esta exige, ao contrário de outras formas de ficção, a construção de um mundo a partir do zero – não só de pessoas e lugares, mas também de fauna e flora, animais e pássaros, comidas e bebidas, desde pequenas a grandes ações. Qualquer detalhe que possa ter influência deve ser considerado antes de a história ser escrita. O autor deve mergulhar no mundo de forma completa a ponto de este se tornar real para ele – tão real quanto o mundo em que ele vive – para que os seus leitores possam sentir que é real.

Nenhuma outra forma de ficção envolve a criação de um mundo de modo tão extenso e elaborado. No entanto, estamos mais inclinados a aceitar uma história sobre o Egito Antigo ou a colonização em Marte, mas quão preparados estamos para aceitar histórias sobre elfos?

Elfos não existem, afinal de contas. Nunca ninguém viu um. A magia não faz parte da nossa vida, não no sentido fantasioso. Dragões, grifos e cavalos voadores não são reais. A fantasia exige a suspensão voluntária da descrença. Requer um exercício da imaginação que aceita a possibilidade do impossível.

Até que ponto estamos dispostos a permitir isso? Pondo as experiências religiosas de lado, suspeito que não estamos muito inclinados. Não fico surpreendido quando digo às pessoas que escrevo sobre magia e elfos e recebo em troca um ar cético. Que resposta deveria esperar delas? “Que bom! Elfos e magia são muito importantes hoje em dia!”

Eu acredito que eles são importantes. Se não acreditasse, não escreveria tanto sobre eles. A boa fantasia reflete a realidade, mas não uma imagem precisa. Isso é o que a torna tão valiosa. Mostra-nos a realidade disfarçada, ao mesmo tempo que nos permite desmascará‑la. Permite‑nos reconsiderar as nossas atitudes e crenças. É por isso que eu prefiro escrever fantasia. Posso fazer abordagens sobre o nosso mundo e os seus problemas sem parecer que o estou a fazer.

Quando lemos fantasia, tudo o que sabemos é deixado para trás. O leitor sabe que terá que suspender a descrença e estar aberto a ler e considerar ideias com as quais não teria contato de outro modo. Tudo o que o leitor deseja é uma história que entretenha. Mas se o autor for bom no seu trabalho, acabamos por obter uma história que nos transforma e inspira de maneiras que poderemos não reconhecer de início, mas que, se pensarmos bem, abre novas perspetivas.

Nada disso me ajuda para explicar a razão por que escrevo sobre elfos. Não espero que isso mude. Já não acredito que a reação das pessoas seja diferente quando me perguntarem o que faço. Talvez seja natural assim.

Eu podia-lhes oferecer uma cópia deste artigo para que, depois de o lerem, decidissem se histórias sobre elfos fazem algum sentido. Mas o mais provável é que já tenham uma opinião formada.

Publicado em 26 Junho 2015

Arquivo

2019

2018

2017

Visite-nos em:

Revista Bang Instagram Nora Roberts facebook youtube
Amplitude Net - e-Business