A Verdade e a Mentira das Vacinas artigo no DN

Mário Cordeiro lança esta semana o livro "A verdade e a mentira das vacinas", onde aborda a recente onda antivacinas

A vacinação é o mais recente tema abordado pelo pediatra Mário Cordeiro em livro. Com a obra, o autor espera repor a verdade em relação aos benefícios desta prática, que alguns pais começam a pôr em causa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a vacinação evite a morte de dois a três milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Falta de memória de doenças erradicadas por causa da vacinação é uma das causas para a recente vaga antivacinas, diz o médico.

Passadas todas estas décadas em que já foi possível avaliar os efeitos (individuais e coletivos) das vacinas, pensou que ainda seria necessário estar a convencer os pais para a vacinação?

Infelizmente sim. Aliás, vimos o que aconteceu há escassos meses com o surto de sarampo. A sociedade da opulência e da abundância (sim, abundância, sobretudo comparando com mais de metade do planeta) é inculta relativamente à ciência e acredita no que o "grande guru" Facebook lhe diz. Muitos profissionais têm, de igual modo, contribuído para uma falsa segurança e como a memória nem sequer é curta, é curtíssima, já poucos se lembram do que é o sarampo, a poliomielite, a varíola, a difteria, as meningites. Assim, muitas pessoas consideram que estamos "imunes" a doenças apenas porque somos "civilizados"... nada de mais errado. Com este livro pretendo desfazer equívocos, revelar mentiras e afirmar verdades, e também relembrar que a luta contra os microrganismos não está ganha: qualquer distração levará a que eles vençam. Não desejo isso para os meus filhos, para os meus netos e para as gerações futuras. Faço uso dos dados científicos, e não de "diz-que-diz".

Tem pais que argumentam consigo que não querem vacinar os filhos? Tenta convencê-los?

Alguns. A decisão última é deles, claro, mas debato as vantagens de vacinar, tentando desfazer os equívocos, e chamo a atenção para o facto de, se não vacinarem e a criança adoecer, como é que eles se vão sentir... para lá de que a criança não é propriedade dos pais. Eles são apenas gestores do seu percurso de vida, e devem ser bons gestores, no melhor interesse dos filhos. Cada um tem o direito de escolher o que quer fazer, mas convém não esquecer que essa autonomia e esse direito implicam responsabilidade. O que acontecer à criança deverá ser, pelo menos moralmente, atribuível aos pais. Para os que são "contra" as vacinas, pois tenham a coragem de ir a África, por exemplo, e de perguntar às pessoas se não desejariam ter uma vacina que salvasse os filhos de morrer por sarampo. Choca-me a ignorância da sociedade da abundância em que se pensa que o que vem nas redes sociais é mais importante do que os dados e a realidade científica.

Existem casos em que é justificável não vacinar?

Como em todos os procedimentos médicos, poderão existir meia dúzia de casos em que vacinar não é recomendável, mas não são duas ou três exceções que não fazem lei. O que pretendo, com este livro, é trazer a ciência para o debate, e descartar as mentiras, falsidades, inverdades e ideias feitas que estão erradas. Infelizmente, a moda de "não vacinar" é própria de uma sociedade afluente e rica, sobranceira e jactante, que se esqueceu dos tempos em que se morria de meningite, de poliomielite, de tosse convulsa, de difteria ou sarampo, entre tantas outras doenças, e nada tem que ver com as escassas reais contraindicações à vacinação. O que mata são as doenças. As vacinas salvam vidas!

Porque é que é tão fácil criar a ideia de que as vacinas provocam, por exemplo, autismo, mas depois é tão difícil desmistificar essa ideia?

É esse o método sinistro do mundo das fake news, associado à amplificação pelas redes sociais, acríticas e acéfalas. Neste caso concreto, foi um médico que publicou um estudo, que veio a revelar-se falso, em que sugeria essa associação. Foi mais do que demonstrado que não era verdade, mas a ideia ficou e pouco se falou que o referido médico foi irradiado e expulso, o mesmo acontecendo com um outro médico nos EUA que se suicidou. Nesse aspeto, acho que os meios de comunicação alinham, muitas vezes, nesse "erro histórico", com consequências gravíssimas para a saúde das pessoas. Repito: as vacinas salvam, as doenças matam!

Que desafios enfrenta o Plano Nacional de Vacinação (PNV)?

Os desafios que, neste momento, se deparam ao PNV são vários, mas os mais importantes são: 1. Aumentar as taxas de vacinação até atingir o ideal de 100% (pelo menos 95%), o que requer abordagens e estratégias inovadoras, empenhamento redobrado em ação concertada com as comunidades, para lá de evitar que desçam por razões absurdas - assim conseguiremos uma imunidade de grupo que protege os que, por alguma razão, não se podem vacinar; 2. Vencer as argumentações - falsas e sem fundamento científico, moral ou até financeiro - dos chamados "movimentos antivacinas"; 3. Diminuir os casos em que as crianças não são vacinadas por falsas contraindicações, como por estarem constipadas, a tomar antibióticos ou não terem comido ovo, entre outras. 4. Diminuir as "oportunidades perdidas de vacinação", ou seja, momentos em que as crianças poderiam ser vacinadas e não o são porque há desfasamentos de serviços ou em que não se aproveita o contacto criança/serviços de saúde, especialmente em populações mais carenciadas e arredias dos serviços; 5. Desfazer os mitos de que as vacinas causam doenças e que não passam de boatos e mentiras propaladas na internet através, principalmente, das redes sociais; 6. Desenvolver novas vacinas e novas associações vacinais, e pensar como as integrar no PNV. 7. Colocar as vacinas antirrotavírus, antivaricela e antimeningite B no PNV. Portugal é um caso de sucesso, desde que a então diretora-geral da Saúde, Maria Luísa van Zeller, iniciou o PNV. Somos um exemplo para o mundo. Perder isto, seria como ter Cristiano Ronaldo e nunca o deixar jogar, com a "pequena" diferença de que, se não vacinarmos, milhares de pessoas morrerão. Sim, milhares. Não é força de expressão.

Muitas pessoas que são contra a vacinação falam sempre de uma indústria mal-intencionada.

Se é verdade que as multinacionais e firmas farmacêuticas querem ter lucros (mas isso acontece com qualquer negócio numa economia de mercado) e se também é verdade que os Estados e a UE têm de ter uma palavra a dizer sobre os preços (e já têm, quando de um concurso público internacional, em que os preços caem para cerca de um terço do preço de venda ao público), a ideia de que há uma conspiração e que as vacinas são desnecessárias é absurda, obscurantista e totalmente idiota... Com efeitos muito graves na vida das pessoas. Quando morreu um terço da população da Europa por peste negra ou sífilis, no Renascimento, não creio terem sido as multinacionais as culpadas... aliás, quem morreu muito agradeceria ter tido uma vacina que lhes salvasse a vida!

Corremos o risco de ver regressar alguma das doenças que já quase não existem?

As taxas de vacinação em Portugal continuam elevadas, porque felizmente a maioria dos pais não vai em cantos de sereia e não acredita em balelas. Todavia, se não defendermos as vacinas, como o bem precioso e a maior conquista civilizacional em termos de saúde, poderemos correr sérios riscos, sim, porque a memória das doenças ficará esfumada. Há razões para ter essa preocupação. Está nas nossas mãos defendermos as vacinas e a sua utilidade e bom nome. As vacinas salvam vidas, as doenças matam essas vidas. Para mim, como pai, cidadão, cientista e humanista, faz toda a diferença!

Publicado em 9 Novembro 2017

Arquivo

2017

2016

Visite-nos em:

Revista Bang Instagram Nora Roberts facebook youtube
Amplitude Net - e-Business