A Voz - Crítica no blogue D311nh4

Esta foi a minha estreia com Anne Bishop. Tenho na minha estante alguns dos livros da autora por ler, mas ainda não me tinha sentido preparada para embarcar noutra série, ainda com tantas por terminar. Porém, quando me chegou este livrinho a casa, dei-lhe prioridade pelo seu tamanho e pela curiosidade em entender o fascínio pela escrita da autora, que tanto é falada pelos amantes da fantasia.

Confesso que fiquei agradada em alguns aspetos, outros nem tanto.
Há autores de fantasia que, a meu ver, merecem uma vénia, pela maravilhosa criação de mundos fantásticos, normalmente medievais, cruéis, com uma linguagem rica e direta. Em suma, fantasia para adultos com tantos simbolismos e momentos reflexivos, como momentos mórbidos, doentios e violentos.

Neste pequeno livro deu para perceber a veia feminista da autora. Bishop criou personagens femininas sofridas, condenadas, à partida, a destinos certos e nada luminosos. 
Normalmente, não sou nada amante de personagens femininas, elas têm o dom de me irritar e são raras as que me cativam. Contudo, neste livro, criei alguma empatia com as jovens da aldeia, sobretudo, com a Voz.
Uma vez que o livro tem apenas 98 páginas, não se consegue conhecer a fundo as personagens secundárias, mas, curiosamente, perto do fim, fiquei agarrada à história de um casamento, da manipulação, da bestialidade de um marido em particular. Esse foi, sem dúvida, um dos momentos altos do enredo.

Um senão é a tendência destes livros, que têm personagens femininas tão fortes, em animalizar os homens, transformá-los em seres sedentos de sexo e sangue, em autênticas bestas. Uns mais, outros menos, mas todos dotados de pouca inteligência e sempre intransigentes quanto aos costumes.

A história é muitíssimo interessante, no entanto, pareceu-me que deixou pontas soltas. Há um reboliço em torno d'a Voz. Percebe-se que se trata de uma superstição, mas há um toque qualquer de magia na mulher coberta que fica sem efeito no final. A força dela perde-se de forma abrupta, deixando o leitor confuso quanto à natureza dela. 
É por estes motivos que costumo fugir às short stories, pois tendem a ser mais objetivas, deixando escapar histórias de vida, que seriam importantes para o enredo. Aqui, senti a falta de um laço que explicasse a origem da mulher misteriosa, que ajudasse a entender se, de facto, ela é, ou não, "mais velha do que a própria aldeia".

A história apela à liberdade e à vontade de abrir as mentes tacanhas do medo e da tradição. 
Mais uma vez, encontramos uma protagonista pensante, que, detentora de uma coragem e determinação fora do contexto onde habita, resolve mudar o ciclo de uma aldeia, que vive sob um manto de hipocrisia, onde a dor alheia pouco importa se a nossa for curada, ou, neste caso, evitada.

Anne bishop é uma autora a ter em consideração para todos os amantes de fantasia.

Publicado em 6 Junho 2013

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