Anel Oculto - Crítica em Eu e o Bam

Duas palavras: Anne. Bishop. Anne-Bishop. A simples menção deste nome faz-me ansiar pelo livro, sedenta da sua fantasia negra e complexa, com personagens ardentes e assustadoramente reais. Anne Bishop. Sim.

Anel Oculto! Óptima estratégia meter o eterno Daemon Sadi na sinopse, mas por favor, tirem-no. O livro é igualmente fantástico, mas assim não ficamos com um sabor amargo na boca por esperar mais seu do que meia dúzia de páginas. E sim, a sua participação é fundamental, mas... tirem-no da sinopse! 

Neste livro ligado ao universo das Jóias Negras encontramos Jared, um Senhor da Guerra tornado escravo e comprado pela Senhora Cinzenta, a última rainha poderosa o suficiente para fazer frente à maquiavélica Dorothea. Mas o que esconde afinal o estranho lote de escravos comprados em que Jared se encontra? Quem é de facto a Senhora Cinzenta? E, acima de tudo, conseguirá - ou quererá - Jared ver-se livre do anel oculto? 

Como já vem sendo habitual, Anne Bishop traz-nos uma história inteligente e bem concebida. Cheia de conspirações, foge um pouco às intrigas da corte e do poder (apesar das várias tentativas de assassinato da Senhora Cinzenta) e torna-se em algo mais rico e perigoso. 

Jared é um homem atormentado e em sofrimento, o que se traduz numa personagem bastante interessante; já a Senhora Cinzenta deixa muito a desejar, bem desenvolvida mas difícil de gostar (coloca constantemente em perigo os outros, sempre que os tenta proteger, e é extremamente teimosa). A nível de personagens secundárias, é brutal. Tornam-se quase tão principais como as principais. Imprescindíveis e magistralmente construídas, com poderosas revelações que determinam o rumo da história.  

Não há momentos mortos durante a narrativa - há sim o contrário, um crescendo de paixões que culminam de um modo violento e trágico. Bishop não se coíbe de matar personagens. 

E depois há a parte em que entra Daemon Sadi, breve mal fulcral. Mais do que o seu envolvimento com Jared e a Senhora Cinzenta, é a cena que protagoniza com o guarda de Dorothea SaDiablo. Para mim, um dos momentos altos do livro. 

É inegável a mestria da autora na escrita. Conseguimos ser transportado para as dimensões por si criadas num piscar de olhos. Tudo parece tão real e palpável que ao fecharmos o livro a sensação que fica é estranha, de deslocamento. Um livro que nos deixe com um sentimento tão pesado e tão profundo é certamente um livro a não perder. 

Ligado às Jóias Negras mas passível de ser lido sozinho (embora eu não o recomende, pois a trilogia é uma leitura obrigatória), este livro é anterior à trilogia a nível cronológico, acontecendo antes do nascimento de Jaenelle. 

Anel Oculto podia ser a típica história de amor e perda, vingança e dor, poder e esperança, mas não é tão linear quanto isso. Basta saber que foi Anne Bishop quem o escreveu.

Publicado em 19 Janeiro 2015

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