António Breda Carvalho entrevista para o Ardinas 24

António de Oliveira Salazar foi, durante décadas, o pai de todos os portugueses – dos que o veneravam e dos que o odiavam. É sobre os filhos do ditador, não os de sangue, mas os de espírito, que se centra o novo romance de António Breda Carvalho, que o ARDINAS 24 entrevistou.

Ao lado das personagens históricas do regime, como o próprio chefe de governo ou o Cardeal Cerejeira, saltam à vista as personagens Mariana e Mariano, completamente diferentes entre si mas filhos do mesmo projeto social e político. Todas elas vão compondo Os Filhos de Salazar, uma obra que apresenta um olhar transversal sobre um dos períodos mais marcantes da História de Portugal.

O ARDINAS 24 conversou com o autor desta obra, recentemente editada pela Saída de Emergência, para perceber a ideia que esteve na base do romance.

ARDINAS 24 – De onde vem o seu gosto pela leitura e pela escrita?
António Breda Carvalho – São sortilégios cuja génese ainda não desvendei. Falta-me tempo para isso e receio apanhar uma grande desilusão. Gosto de ler, gosto de escrever e gosto de tantas outras coisas. Assim se ilumine cada dia meu até ao fim da minha condição humana.

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O seu novo romance centra-se no Estado Novo. Sente particular curiosidade por este período histórico? Porque é que o escolheu?
Sinto curiosidade histórica por todos os períodos, alargados ou restritos, que sustentem um romance com ideias válidas. Aconteceu com O Fotógrafo da Madeira (prémio literário João Gaspar Simões em 2010), cuja ação se passa em meados do século XIX, e com o romance Os Azares de Valdemar Sorte Grande, que se centra na passagem da monarquia para a república. Os Filhos de Salazar, abarcando o período entre o 28 de maio de 1926 e o 25 de abril de 1974, completa a trilogia histórica.

Há uma forte componente histórica neste livro. Como se processou a pesquisa e o recolher de documentação para conferir veracidade à história?
Pesquisa bibliográfica na Internet e nas bibliotecas públicas combinada com os conhecimentos que a minha memória foi armazenando ao longo dos anos, fruto de múltiplas leituras e de outros meios de aquisição cultural.

A narração aborda um período histórico ainda muito recente e que ainda tem feridas por sarar… Foi fácil escrever sobre o Estado Novo? Que dificuldades encontrou?
Depois de ter selecionado os factos históricos que considerei relevantes para representar o Estado Novo e os seus opositores, e depois de ter conseguido ajustar, através de um plano, os elementos ficcionais a essa moldura histórica, ficou apenas a aliciante tarefa de construir o romance ao sabor da imaginação, não perdendo o horizonte da ideia nuclear da obra.

Sentiu maior responsabilidade por escrever sobre um período que tanta gente viveu e do qual há tantas memórias?
Não. Apenas a responsabilidade de escrever um romance que merecesse ser publicado. O espectro ideológico do romance permite que cada leitor que viveu com consciência política no regime salazarista se reveja na obra à imagem de si próprio, quer como um filho que amou o pai da pátria, quer como um filho que o odiou.

Muitas personagens históricas estão presentes nesta obra e surgem de uma forma mais informal, como é o caso de Salazar ou do Cardeal Cerejeira. Como se sentiu por estar a desconstruir estas personalidades e a reconstruí-las de uma forma alternativa?
O escritor é um deus omnipotente. Manipula as personagens a seu bel-prazer, brinca com elas, sabendo conservar a identidade ideológica das personagens históricas.

As duas personagens principais, Mariana e Mariano, partiram de pessoas reais ou foram totalmente concebidas por si?
Criei estas duas personagens para as fazer atuar no poder político instituído e na oposição, embora Mariana seja também o símbolo da mulher que pautava a sua vida à luz de valores que transgrediam a moralidade conservadora.

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Existe uma clara diferença entre as duas personagens, que se posicionam em extremos opostos no que diz respeito à forma como encaram a vida. Pessoalmente, com qual delas o António se identifica mais?
Estou no meio, de mãos dadas a ambas, com simpatia pelo Mariano humanista e admiração pela Mariana corajosa.

Está a escrever sobre um regime autoritário num momento em que a Europa parece estar a caminho de regressar a esse modelo político… Como vê o panorama político atual?
Diz-se que a História gira em espiral. Não admira, portanto, que, ciclicamente, se assista ao renascimento de movimentos fascistas gerados no turbilhão de acontecimentos de variada índole que desequilibram política e socialmente um país ou mesmo um continente. Creio que só um descalabro colossal a nível económico geraria as condições favoráveis à emergência de um ciclo político como o que marcou a Europa no século XX. Contudo, parece-me grave também que, sob o manto diáfano da democracia, impere, cada vez com mais evidência, a neoditadura.

Deixa-se influenciar também pela atualidade no momento em que olha para o passado?
Deixo-me influenciar, com a devida filtragem crítica, por tudo o que possa contribuir para me melhorar enquanto pessoa e cidadão. O passado tem coisas boas e más, tudo serve de exemplo para que o presente tenha consciência do melhor rumo a seguir.

Acha possível existir, no futuro, um novo Estado Novo, em Portugal ou na Europa?
Teoricamente tudo é possível.

Qual é a principal mensagem que quer passar com este livro?
Assim como um país muda de regime político (Portugal: monarquia – república democrática – república fascista), também as pessoas mudam ao longo da vida, nada é definitivo. É um romance sobre revoluções. Começa e acaba com uma revolução, e as duas personagens principais também se revolucionam, ficando a incerteza quanto ao seu futuro no fim do romance. Acontecerá outra revolução?

É fácil conciliar o seu trabalho de professor com a escrita?
Com a classe docente cada vez mais sobrecarregada com trabalho letivo e burocrático, só a paixão pela escrita e a boa gestão do tempo disponível, com sacrifício de outros momentos de lazer, permitem a concretização dos projetos literários.

Os seus alunos são conhecedores das suas obras?
Sabem que escrevo e conhecem os títulos publicados. Dado serem alunos do 3.º ciclo (do 7.º ao 9.º ano), ainda não se sentem preparados para ler os meus romances.

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Que feedback o público lhe tem dado?
Dos leitores que se relacionam comigo e de alguns blogues literários tenho recebido boas apreciações.

Tem novas ideias em mente, histórias que quer partilhar com o público?
Tenho romances inéditos na gaveta e ideias para novos romances. O tempo fará, sem urgência, o meu percurso literário. Se não o fizer, morrerei com a mesma felicidade que sinto neste momento.

Onde vai buscar inspiração para as narrativas que constrói?
Por vezes um romance nasce de uma ideia ou tese, outras vezes de factos históricos, outras do quotidiano, que rivaliza com a literatura em imaginação.

Tem algum escritor que seja uma referência para si?
Vergílio Ferreira foi, durante décadas, o meu escritor preferido. Hoje aprecio sobretudo boas obras literárias, dos clássicos à atualidade, independentemente do autor. É a obra de arte literária que me interessa.

Publicado em 28 Julho 2016

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