Apreciação crítica ao livro O Tintureiro Francês por Teresa Cabral

Diz-se que o romance é a mais plástica e híbrida das formas literárias. Permite-nos contar histórias, cheias de intriga, de aventuras e desventuras; abeira-se do drama sempre que coloca personagens em diálogo; roça a lírica, explorando a vivência subjectiva da realidade; permite-se incursões pelo ensaio quando reflecte sobre política e história, física e metafísica, ciência e arte; toca a (auto)biografia e epistolografia quando inclui diários, cartas e memórias. O romance pode ser narrado por um narrador olímpico, que tudo sabe e tudo vê e nos permite aceder à consciência de todas as personagens, ou, pelo contrário, por um narrador que nos permite aceder apenas à consciência de uma ou outra personagem; pode ser contado por um narrador neutro ou opinativo, na primeira, segunda ou terceira pessoa, do singular ou, mais raramente, do plural; pode satisfazer a nossa curiosidade sobre como será viver as vidas de outros e ver a vida a partir de outra pele e outro olhar, ou pode confinar-nos à perspectiva de uma única personagem, um pouco à semelhança do que acontece na vida de cada um de nós fora das páginas romanescas – vivemos na nossa pele, confinados ao nosso olhar e acedendo apenas por aproximação a esse mistério do que é ser outro.

O romance, a mais popular forma de ficção literária, abre estas possibilidades a quem o escreve e a quem o lê.

Em O Tintureiro Francês, Paulo Larcher usa as possibilidades do romance para nos levar à Lisboa e ao Portugal após o terramoto de 1755, culminando no dia 6 de Junho de 1775. Este é um Portugal preso nos seus atavios, resistente à modernidade, à ciência e à técnica, e que Sebastião José de Carvalho e Melo quer reformar e industrializar. A intriga centra-se, pois, na necessidade de encontrar um mestre tintureiro que traga para Portugal ciência e arte suficientes para regenerar a Real Fábrica de Panos. O visado será Stéphane Larcher e grande parte da intriga centra-se nas dificuldades de até ele chegar e de o trazer para Portugal para aqui transmitir o seu saber, o que fará na pessoa do sobrinho, Joseph. Não irei adiantar pormenores sobre a intriga, sob pena de estragar o prazer da sua leitura, mas direi que a narrativa se estrutura em três partes: a primeira, e mais extensa, é narrada na terceira pessoa, por um narrador centrado nos seus protagonistas e de quando em vez opinativo, e abrange toda a intriga até se chegar a Stéphane Larcher; a segunda, mais breve, é narrada na primeira pessoa por Joseph Larcher e apresenta-nos a perspectiva do estrangeiro recém-chegado a Portugal; a terceira e última retoma a terceira pessoa narrativa, mas inclui também cartas da protagonista feminina, Teresa, para nos dar conta do desenlace dos vários fios desta história.

A escrita de Paulo Larcher dá prova do poder da palavra para convocar mundos na nossa mente: esta é uma palavra sensorial, ou não fosse a arte do tintureiro uma arte que apela aos sentidos. Ou seja, não só somos convidados a viajarmos imaginativamente até aos finais do séc. XVIII, mas somos convidados a ouvirmos e vermos esses outros tempos, numa palavra tão destra nas coisas da ciência e da técnica como nas da arte e dos sentidos. Ouçamos o primeiro parágrafo e sigamos as imagens e sons que ele em nós suscita:

 

A carruagem sacolejava e rangia no esforço de subir a calçada. As mulas, habituadas ao percurso, pisavam com cautela o chão húmido, mas resvalavam por vezes e os cascos matraqueavam as pedras irregulares com sons aflitos de castanholas. A progressão vagarosa era pontuada pelas imprecações e pelo silvar do chicote, quando o cocheiro tentava dissuadir a canzoada que lhe saltava ao rodado, latindo numa zanga nervosa e sempre renovada.

(O Tinteiro Francês, p. 17)

 

A intriga anuncia-se desde cedo ligada às eternas questões entre tradição e modernidade, atavismo e progresso de que parece padecer Portugal. Eis como se coloca o dilema do marquês, que se queixa de como é «realmente difícil governar um povo que não quer ser governado» (p. 32):

 

A impossibilidade de criar estabelecimentos de certa dimensão em Portugal sem a intervenção e o apoio da Coroa era uma das causas. Os nobres e o clero não se interessavam pela indústria e os burgueses temiam-na, sobretudo por via do desamor à ciência e à modernidade que grassava no pais como uma peste, alimentada pelas lembranças das perseguições inquisitórias, pelos regulamentos antiquíssimos das corporações, que manietavam e amordaçavam um pais exangue e dependente e, também, pela tacanhez, inveja e desconfiança que sempre agrilhoara a alma lusitana.

(O Tinteiro Francês, p. 25)

 

Mas, ao contrário da História, que tradicionalmente se ocupou dos detentores do poder, o romance moderno, surgido no séc. XVIII e associado à ascensão da burguesia, tende a ocupar-se das vidas dos cidadãos e da intersecção entre o público e o privado. Não é pois de espantar que também n’ O Tintureiro Francês os destinos e amarras de uma nação se entrelacem com os dos seus cidadãos e cidadãs – que, na altura, seriam súbditos e súbditas de El-Rei D. José. Consideremos o «vórtice maligno» a que Sua Majestade tentaria arrancar Portugal:

 

– Vou então ser-lhe franco – proferiu Carvalho e Melo. – Durante todo o seu reinado, Sua Majestade tem aplicado os seus reais esforços no sentido de conduzir Portugal para fora do vórtice maligno que a não ser assim nos teria arrastado de modo inelutável para a destruição.

(O Tinteiro Francês, p. 63)

 

Se o país dificilmente escapa, ou quer ser resgatado, a este vórtice maligno, poderão os seus habitantes a ele escapar? Esta é talvez a questão que o desenlace desta história nos deixa: como viver depois da violência, como conviver com a violência não só nos outros mas em nós? Se «é só canhões e sinos... e disparar e rezar tem sido desde sempre a vocação do reino» (p. 89), como saberão os súbditos de tal reino viver que não seja entre rezas e disparos?

Pois se esta é uma história depois do terramoto, de si uma manifestação da violência da natureza que assustou a Europa das Luzes, esta história em busca de civilização é também uma história de encontro com a barbárie, nos outros e em nós; é uma história na qual a demanda pela imensa paleta de cores do tintureiro leva também à descoberta da paleta emocional que vai da morte ao amor e ao nascimento e de novo à morte, não sabendo bem como demorar-se pela vida.

Ainda que o título sugira que a personagem principal do romance é o tintureiro francês – no fundo, aquele cuja vinda para Portugal motiva toda a intriga – talvez a personagem mais intrigante seja aquela que misteriosamente figura na capa do livro, ainda que não na letra do título, D. Teresa. Teresa surge numa fase já adiantada da narrativa e é-nos assim apresentada:

 

Teresa fora o fruto dos amores furtivos do filho varão do marquês, então um belo e azougado mancebo, com uma encantadora escrava filha de uma preta e de um estribeiro, que seria depois despedido, naquele período um pouco louco e um pouco mágico que sobreviera ao imenso terramoto que destruíra Lisboa quando, por uns tempos, tudo parecera possível.

A pobre mulata, porém, não sobrevivera ao parto e o pai, naturalmente, rejeitara a criança.

(O Tinteiro Francês, p. 95-96)

 

D. Pedro acolhe então a órfã sob sua protecção. Homem «atento ao espírito do seu tempo», acreditava «na possibilidade fazer nascer uma nova espécie de mulher» (p. 96). Resta saber se bastará dar a uma donzela uma educação «um tudo-nada varonil» para assim fazer nascer essa nova espécie de mulher. Se, como pensa a própria Teresa, «em Portugal uma mulher tem duas invariáveis opções: envelhecer tristemente num convento ou estiolar na escravidão de um lar» (p. 209), como poderá ela tornar-se uma nova mulher? Como explicar a um estrangeiro, interroga-se ela, que «uma expedição como aquela constituía uma rara, preciosa e irrepetível oportunidade de viver uma aventura que iluminaria a sua vida?» (p. 209). Os modelos de Teresa são a Virgem de Orleães e Pórcia, a heroína do Mercador de Veneza, de Shakespeare, que se disfarça de homem para fazer de advogado em tribunal – em boa verdade, uma das heroínas de Shakespeare que se disfarçam de homem para poderem ter vidas mais aventureiras.

Algures entre Joana d’Arc e Mariana Alcoforado, Teresa exercita o estudo, dá largas à sua curiosidade científica, experimenta a técnica e abalança-se em aventuras masculinas, que exigem valentia e bravura, dando conta do recado e procurando manter a recato o alvoroço dos sentidos que a acomete no convívio com os companheiros de viagem. Mas Teresa incorre também nas desventuras femininas, em que o corpo de mulher é simultaneamente o lugar do seu poder de sedução e da sua vulnerabilidade à violação. Teresa, nascida da morte da sua mãe, experimenta assim a violência sofrida e a violência perpetrada, a violação e a volúpia, a violência do nascimento, do sexo e da morte, a fina linha entre civilidade e barbárie, e, presa entre culpa e castigo, regressa quem sabe ao seu modelo primeiro, o da Pucelle d’Orléans, que buscara na glória das armas e na morte pelo fogo forma de resgatar «o seu nascimento falhado e o seu futuro penhorado» (p. 209).

Teria Teresa outra hipótese, outro modelo, outra forma de sobreviver à violência sofrida e infligida? Poderia ela ser «uma nova espécie de mulher» no velho Portugal de rezas e disparos? Seria Stéphane não só o tintureiro capaz de criar esplêndidas cores, mas também a nova espécie de homem para a nova espécie de mulher, uns novos Adão e Eva capazes de regenerar tão atávico reino?

Fica a questão e o repto para lerem o Tintureiro Francês e antepassado do autor nosso contemporâneo, a quem felicito e desejo muitas e boas escritas.

Teresa Casal (Universidade de Lisboa)

Lisboa, Hospital de São José, 22 de Maio de 2014.

Publicado em 5 Agosto 2014

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