Arrepie-se, emocione-se e viva este livro intensamente: não ficará indiferente

Um livro que dói na alma por ser demasiado real. Assustadoramente.

Não é todos os dias que somos abalados pela força das palavras. Todos os dias se leem palavras bonitas e poéticas em publicações de redes sociais e em postais virtuais, mas é raro conseguir tónicas emocionais diferentes no vocabulário quotidiano e no usual, e cargas de intensidade infinitas em cada uma delas. O Que Ela Deixou Para Trás é intenso, doloroso e redentor, e é uma história feita de palavras: das palavras que deixamos para trás, num passado doloroso para sempre oculto num baú; das palavras que não são ouvidas, por mais que as ecoemos dentro de nós; e das palavras que, finalmente, são reencontradas, depois de rumos perdidos nos labirínticos caminhos da vida.

A via dolorosa da sanidade mental

Ellen Marie Wiseman esculpe vagarosamente a vida de duas adolescentes de dois períodos diferentes — uma do início do século XX, Clara, e outra do final do século XX, Izzy — em cujas vidas se atravessa o estigma, o paternalismo, a separação, a perda, a incerteza e a loucura. Clara é uma rapariga desperta para o ritmo do seu tempo: vemo-la a dançar charleston e a beber gin com os amigos, tentando esquivar-se do controlo ininterrupto e opressivo dos pais. Ambiciona seguir a formação de enfermagem para se tornar autónoma e liberta das convenções do seu tempo. Viaja, lê, dança, adora vestidos brilhantes e a vida apaixona-a. Um dia conhece Bruno, cruzando o seu olhar com o dele na pista de dança, e, desde a primeira música que dançam juntos que os seus destinos se enlaçam ao poder do amor e à sua trágica consequência. Os pais não toleram que Clara decida por si mesma (essa coisa louca que há de as mulheres pensarem por si próprias), forçando-a, em vão, a casar com outro pretendente. Para sempre renegada da família, Clara é enviada para uma opulenta casa de repouso, primeiro; e depois do crash da Bolsa de 1929, para um asilo público, Willard. Inicialmente, Clara não concebe a ideia de que o pai a tenha colocado lá por muito tempo, pensa que é um castigo mais severo imposto pelo pai e que em breve seria libertada. Mas as semanas tornam-se meses, as estações sucedem-se, e Clara está entregue a si própria. A injustiça da resolução do pai e indiferença da mãe de Clara acompanham-nos ao longo de todo o livro, por não nos ser permitido compreender, em circunstância alguma, o porquê de ser institucionalizada uma filha que ousou recusar um futuro fabricado pelos pais e ambicionou estudar numa faculdade e casar-se por amor. Esta incompreensão por parte do leitor é tanto mais agravada quanto os tratamentos que são impostos a Clara se somam no decorrer dos dias: desde os banhos de água gelada aos tratamentos de choques elétricos, desde largas temporadas no isolamento ao longuíssimo castigo no «solário», além da total falta de higiene, obrigando as pacientes (sim, são sobretudo mulheres, muitas delas presas num hospício quando se encontram perfeitamente sãs) a vestir roupa conspurcada e a passar frio e fome. Ninguém as contacta nem ninguém as visita. Clara foi, como muitas outras mulheres, aprisionada pela família por ter ousado objetar-se ao autoritarismo do pai. E ela bem tenta que a oiçam, bem tenta fazer compreender que é uma mulher saudável, mas é rotulada como louca e paranoica assim que pisa o chão do hospício.  

As cenas que se seguem podem ferir a sensibilidade dos leitores

É uma personagem ficcional, mas podia bem ter acontecido. A verdade é que Ellen Marie Wiseman fez uma exaustiva investigação sobre os loucos e doentes mentais institucionalizados em «instituições para pessoas nervosas e doentes mentais» privadas e públicas em finais do século XIX e inícios do século XX. A bibliografia está devidamente anotada no final, e nos agradecimentos a autora exprime a sua gratidão para com os especialistas dessas áreas. Além de toda a plasticidade criativa da obra, puro deleite da ficção, há aqui, portanto, uma função cívica inerente à escrita do livro que perpassa para a leitura e que agita a consciência humana de cada um de nós. Sobretudo porque a personagem do final do século XX, Izzy, batalha com um passado enublado e doloroso e com uma mãe que foi presa por ter assassinado o marido. Izzy vive a sua infância ainda com a avó, e na sua adolescência salta de casa de acolhimento em casa de acolhimento, cortando cerce qualquer contacto com a mãe, visto estar convencida que ela é louca. Habituada a coabitar dentro da sua própria solidão e pelo medo devorador de vir a tornar-se louca como a mãe, Izzy entra em casa de Peg e de Harry convencida que será apenas mais uma família de acolhimento. Felizmente, engana-se. Harry é diretor de um museu, e Peg é a curadora, e têm um projeto em curso relacionado com os doentes mentais e os loucos nos asilos públicos, os seus legados e espólios, e tudo aquilo que poderia ser analisado do ponto de vista da antropologia humana e do estudo do comportamento. Coincidentemente, o asilo público do qual ela vai retirar todos os espólios é Willard, onde Clara esteve. Peg inscreve Izzy como voluntária do museu e dá-se assim início ao desenrolar de uma trama sobre uma história do século XX que poucos conhecem e muitos evitam: a história dos sãos, loucos e doentes mentais nos hospícios. Não havia nem psiquiatras nem psicólogos, os médicos eram indiferentes e as enfermeiras mais pareciam carrascos. Dos diários e cartas perdidos nos baús e malas, das fotografias com rostos sem nome, e dos relatórios e documentos que atestavam a loucura de cada paciente, este livro é um memorial em honra dos que não são nomeados para coisa alguma, esquecidos para sempre pelas famílias e pela sociedade.

Arrepie-se, emocione-se e viva este livro intensamente: não ficará indiferente

Simultaneamente um romance histórico e um intenso thriller psicológico (a autora é mestre a brincar com as emoções do leitor, findando os capítulos com uma revelação impactante), O Que Ela Deixou Para Trás já foi eleito como um dos melhores livros deste ano, revelando que a beleza e exuberância da arte literária estão também ao serviço da consciencialização humana. Emoções poderosas aliam-se a dois destinos trágicos de duas mulheres de tempos diferentes, puxando o leitor para a imersão total num enredo feito de palavras essenciais e valiosíssimas: aquelas que recuperam passados omissos. Não se admire se chorar (muito) no final, pois é tudo demasiado real.
Publicado em 12 Agosto 2015

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