As Primeiras Quinze Vidas de Harry August - Opinião no blogue Estante de Livros

O tempo é uma das variáveis da condição humana que mais fascínio exerce sobre nós, comuns dos mortais. Acho que isto acontece porque, depois de tantos avanços tecnológicos e científicos, permanece como condição inalterável, prosseguindo o seu decorrer sem que possamos fazer absolutamente nada em relação a isso. E, portanto, pela sua impossibilidade, a manipulação do tempo continua a constituir um manancial de hipóteses para os escritores de ficção – tendo adquirido popularidade com A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, publicado em 1895. Desde então, inúmeros livros têm explorado esta componente, tornando-se um tema relativamente comum dentro da ficção científica.

Em As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, Claire North explora a possibilidade de um homem regressar à vida depois da morte, nascendo precisamente no mesmo dia e vivendo a mesma vida que tinha experienciado anteriormente, mas com todo o conhecimento previamente adquirido. Harry August nasce sempre em 1919, em Inglaterra, filho bastardo de um nobre, e é criado por pais adotivos de origem humilde. Ao longo das suas vidas, que vai partilhando connosco na primeira pessoa, Harry faz muitas coisas e tem variadas profissões, aprendendo sempre mais sobre a humanidade e a estrondosa evolução da ciência e tecnologia no século XX.

Mas Harry não compreende porque motivo morre e volta a viver a mesma vida, e se haverá mais como ele nesta espécie de multiverso. E é então que descobre o ultra-secreto Clube Cronus, composto por pessoas com as mesmas “capacidades” que Harry – os kalachakras ou ouroborianos – , e as suas rígidas regras de não interferência com os eventos importantes da História. Só que, logo no início do livro, Harry é visitado no seu leito de morte, numa das suas primeiras vidas, por uma menina que traz uma mensagem do futuro – a de que o mundo está a acabar – e Harry percebe que alguém da sua espécie não está a cumprir os regras do Clube.

Adorei desde logo a premissa deste livro, pelo leque de possibilidades que abre: o poder voltar a aproveitar oportunidades perdidas, o dizer coisas que ficaram por dizer ou o rever pessoas que perdemos são hipóteses exploradas neste livro e que ressoaram em particular com a minha experiência pessoal. A forma como Claire North conta a história e aborda este temas, dentro de uma lógica de narrativa não linear, adequam-se particularmente ao relato na primeira pessoa confessional (cedo percebemos que Harry está a contar aquela história a alguém, cuja identidade só é revelada no final).

Na minha opinião, Claire North foi particularmente bem sucedida na verosimilhança do mundo ficcional que criou, cujo funcionamento é amiúde explicado de forma percetível para leigos na matéria; a forma desenvolta como a autora cria as bases para esta realidade sem recorrer a linguagem demasiado científica é um grande bónus.

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, nas livrarias a partir de hoje, é um livro desafiante, inteligente e bem escrito, que cativa pelas possibilidades que levanta e pela forma como são exploradas. Recomendo!

Publicado em 10 Outubro 2016

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