Bem-vindo à Área X

Foi com algum receio que pegámos em “Aniquilação”, de Jeff Vandermeer (224 páginas, 16,90€, ed. Saída de Emergência, 2016): não só o autor já não era traduzido em Portugal há uma década, como as constantes comparações do ambiente da sua escrita com o universo criado por Howard Phillips Lovecraft nos deixou de pé atrás. Afinal, quantas vezes tal comparação não nos deixou já com um amargo de boca? Felizmente, após a sua leitura, compreendemos o porquê de Vandermeer ter sido já galardoado com um Nébula e sido finalista dos prémios Hugo, as principais referências da ficção científica e da fantasia.

Ora bem, logo nas primeiras páginas compreendemos estar perante um possível clássico instantâneo do género, tanto que devorámos o livro de um só fôlego (ou seja, em menos de 24 horas). O que complica um pouco a resenha é o facto de a obra, como um todo, se sustentar de uma corrente de pequenos mistérios e de um ‘suspense’ constante; o crítico que tenha a ousadia de revelar que adorou mais “a parte em que…” pode arruinar por completo a experiência do potencial leitor. Surpreendentemente, o autor consegue manter o ritmo e as revelações que vão surgindo, pouco a pouco, vão simultaneamente contribuindo para saciar a nossa curiosidade quanto às realidades da Área X e das personagens que a exploram, respondendo apenas pela sua função e não pelo seu nome – a antropóloga, a topógrafa, a bióloga e a psicóloga – revelando novos enigmas e mistérios que fazem com que leiamos sofregamente, página após página, à procura de novas respostas que trarão novas questões, sempre num ritmo que não se torna nem monótono nem enjoativo.
E o ambiente? Merece toda a descrição de ‘lovecraftiano’. Sem qualquer risco de plágio, conseguimos sentir na descrição do meio circundante e no desenvolvimento da personalidade das várias personagens – tanto na Área X como nos ‘flashback’ da personagem principal – toda a carga mítica e opressiva que reside no imaginário de todos os ‘lovecraftianos’. Ao longo de cinco capítulos acompanhamos os progressos e retrocessos das quatro personagens que tentam desvendar ao certo o que terá acontecido na Área X, uma zona devastada do planeta, isolada do resto do mundo por uma fronteira de natureza invulgar e cuja existência é mantida em segredo pelas autoridades. Ali não é permitida qualquer tecnologia moderna nem a utilização de quaisquer nomes, com receio de que o mal que ali habita possa de algum modo penetrar no mundo exterior ou, pior ainda, nas mentes daqueles que tentam desvendar a sua origem e reais efeitos numa paisagem devastada onde todos os vestígios de civilização se reduzem a ruínas e a escombros há muito corroídos pelo tempo. Bem-vindos à Área X, o quer, e onde quer, que seja. ■
Livro *****
 
Publicado em 11 Novembro 2016

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