Carol Rossetti em entrevista para a Rádio Renascença

"O mundo exige mais das mulheres". Carol Rossetti fez um livro sobre elas para todos

“Brenda é sempre assediada com piropos de rua no caminho para o trabalho”. É um dos casos abordados no livro da ilustradora Carol Rossetti, sensação do Facebook.

A brasileira Carol Rossetti tem 27 anos e assume-se como feminista. Não numa “luta contra o machismo”, mas a favor da inclusão. Quer tornar o mundo mais seguro para as mulheres. São elas as protagonistas do seu livro, “Mulheres”, agora editado em Portugal pela Saída de Emergência.

O livro reúne ilustrações de várias mulheres (a maior parte criada pela autora), de idades e etnias diferentes, cada uma a viver uma situação específica de discriminação. “Mulheres” são retratos de respeito, amor próprio, direitos e dignidade.

Como surgiu a ideia deste livro?
O livro propriamente dito veio do projecto que já estava na internet há algum tempo. Não foi ideia minha, na verdade, foi da editora do Brasil e foi uma ideia muito inesperada para mim, não fazia parte dos planos, mas foi uma surpresa muito boa.

Que projecto é que estava a ser desenvolvido?
O projecto começou em Abril de 2014, quando eu estava a querer praticar uma técnica com lápis de cor – que não usava muito, porque não gostava de colorir os meus desenhos – e pensei: 'Vamos vencer este medo!'. E comecei a mexer com lápis de cor no papel kraft, o que é bom porque podia usar o branco. Entretanto, já vinha lendo sobre feminismo e resolvi fazer mensagens positivas para os meus amigos, que já viam a minha página no Facebook.

Fiz a primeira ilustração, as pessoas gostaram e partilharam. Fiz a segunda, as pessoas também gostaram, fiz a terceira e continuei a fazer. Quando vi, tinha um projecto nas minhas mãos.

E estas imagens do livro foram baseadas em mulheres fictícias ou não?
Digo que são histórias reais com personagens fictícias. São experiências verdadeiras, coisas que várias mulheres já vivenciaram. Pode ser uma experiência minha, das minhas amigas ou de familiares. E depois pessoas do mundo inteiro começaram a entrar em contacto comigo para me dar sugestões e contar as suas experiências.

Então não conhece estas pessoas. São pessoas de quem ouviu falar

Sim, quase sempre pegava num tema e lia vários relatos diferentes sobre ele e fazia uma única ilustração que representasse a maior parte das pessoas abrangidas por ele, de uma forma mais neutra, sem uma peculiaridade de cada um. Mas existem cinco personagens no livro que são reais, são pessoas reais, de quem mantive o nome e o rosto.

Também procurava conversar com pessoas que já tinham vivido aquela situação.

A imagem é aleatória. Cada desenho, nome e imagem são aleatórios. Queria fazer cada imagem bem diferente fisicamente da personagem anterior, para sempre deixar bem diverso: o tom de pelo, o peso, o tipo de cabelo, se tem alguma deficiência física ou não... Tentava sempre fazer bem diversificado.

A maior parte das mulheres são redondinhas. Alguma razão?
Não sei... Acho que nem tanto assim. O meu traço é redondo. Gosto de desenhar curvas. Não sou boa com quinas, não sou boa com traços rectos, gosto de curvas.

O que diz é que estas situações não afectam só mulheres. E tem esta frase: "Mesmo que não se identifique com esta pessoa, não acha que ela merece respeito e dignidade?" Este livro é, portanto, para toda a gente?
Sim, eu convido os homens a identificarem-se também com o projecto. Uma coisa que eu digo sempre que acho muito interessante é que, desde pequenas, somos acostumadas a identificar-nos com personagens, tanto homens como mulheres. Nenhuma mulher que eu conheça deixou de ler Harry Potter porque o Harry era um homem. Mas muitos garotos não viram os contos de fadas da Disney, porque os personagens eram a Cinderela ou a Bela Adormecida. Eles não se interessavam necessariamente quanto a personagem central era mulher. E isso nunca foi um problema para nós [mulheres].
Eu sempre disse isso a todos os homens: o meu trabalho tem mulheres como protagonistas, mas não significa que os homens não se possam identificar também. E vários homens se identificaram e me enviaram várias mensagens a dizer: 'também venci isso, de alguma forma'. Às vezes, é um cabelo colorido, um estar acima do peso, coisas que podem influenciar homens também e nada impede que também eles se identifiquem.



No fundo, a discriminação é transversal na sociedade…
Sim, acho que afecta homens e mulheres de uma forma diferente. Acho que, no caso da mulher, é mais cruel, porque as mulheres estão constantemente a ser avaliadas pela beleza e os homens não necessariamente.

Não significa que um homem que seja gordo não vá ter problemas e seja fácil, mas uma mulher que é gorda vai ter mais problemas por causa disso. Por exemplo, a tenista Sharapova, joga muito bem, mas quantas vezes não vemos matérias a dizer que está com celulite. É muito comum, mesmo não sendo isso parte da função dela. Ela não é modelo, ser bonita não é o que ela está a fazer ali.

Isso geralmente não acontece com homens. Não olham para um homem a jogar ténis e dizem: 'acho que ele está com celulite'; 'acho que está um pouco acima do peso'; 'acho que não fez a barba hoje'. Por isso é que eu sinto que com a mulher é mais cruel.

E acha que hoje se pede mais das mulheres? Uma super-mulher sem defeitos?
Sim. Acho que o mundo exige mais das mulheres em alguns aspectos, de uma forma bem mais complicada.

A todas? Novas, velhas...
Sim, todas, mas de formas diferentes. A mulher, à medida que vai envelhecendo, vai enfrentando novos desafios exactamente por não se parecer mais nova. Há pouco tempo ouvi uma afirmação muito interessante sobre o novo filme d’ “A Guerra das Estrelas”: disseram que o Harrison Ford tinha envelhecido muito melhor do que Carrie Fisher (que faz de Leya). E ouvi depois uma rapariga a responder: “Ele não envelheceu melhor do que ela. Permitiram que ele envelhecesse e ela teve de fazer muitas plásticas para parecer jovem”, porque as mulheres param de conseguir papéis em Hollywood quando envelhecem. Então, como a vamos criticar por isso?

Então este livro, no fundo, é um apelo ao respeito
Sim, basicamente é isso. É sobre respeito e aceitação.

Dentro da diversidade.
Claro!

E os textos por baixo da ilustração, de quem são?
Essa estrutura é como se fosse uma conversa entre amigas. É a forma como eu converso com as minhas amigas e como os meus amigos conversam comigo. Uma diz: “Isto aconteceu comigo”. E nós respondemos: “Não, não ligues. Não tem nada a ver. Não desanimes por causa disso”. Mantive este tom bem amigável e carinhoso de amigos a conversar entre si.

Como se fosse a própria Carol a falar com a pessoa.
E, de certa forma, é.

E onde está a Carol, no meio destas mulheres?
Eu costumo dizer que sou um pouco de todas porque coloquei um pouco de mim em cada mensagem. E claro que me identifico com algumas e outras não, mas são muitos casos.
Por exemplo, identifico-me com o casal que se resolveu casar muito jovem. Eu lembro-me que, quando eu estava namorando com o meu marido, decidimos juntar-nos e comprar um apartamento. As pessoas falavam: “Não, é muito jovem, vai viver a vida antes”. E aquilo marcou-me. Mas porque é que não estou a viver a vida? Estou vivendo. Estou bem, é uma escolha pessoal e não estou a ser coagida. Este foi um dos casos com os quais me identifiquei.

Há lá outras situações de relações: em que a mulher é mais alta do que o homem, entre pessoas de cores diferentes...
São histórias reais, pessoas que ouvi. É muito louco como até no amor as pessoas são muito críticas.

A Carol tem respondido a entrevistas para meios de comunicação social dos vários cantos do mundo e o seu livro já foi traduzido em várias línguas. Como se sente? Que reacções de mulheres do mundo inteiro tem recebido?
Fico muito feliz e estou a achar incrível porque nada disto foi esperado ou planeado, o que não significa que não seja querido quando chega. É muito interessante como estas questões parecem ser comuns no mundo inteiro. Elas são diferentes. Cada país recebe as ilustrações de modo diferente, mas há muitos países interessados nesta mensagem. Acho que este pedido de respeito ainda é comum no mundo inteiro.

Por exemplo, a imagem da Amanda, que é a mulher que escolhe não se depilar, teve um impacto no Brasil que deixou as pessoas um pouco revoltadas. Levaram para o pessoal: “Isso é grave!”

Nos países do Norte da Europa não.
Ficaram: “Não estou a entender, do que é que estão a falar? Qual a lógica disso?”

Alguma mensagem que gostaria de deixar para o Dia Internacional da Mulher?
Não sou boa a mandar mensagens... Diria que é: devemos fortalecermo-nos todos, respeitar-nos uns aos outros e respeitar a si mesmo. Acho que é o principal.

Sejam mulheres ou homens
Mulheres ou homens.

Publicado em 21 Março 2016

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