Cidadão Orson Welles - Crítica no Leituras do Corvo

Yasmina viu-o por acaso e não pôde resistir a segui-lo. Trazia consigo uma história cheia de sofrimento e a esperança de conseguir uma nova vida, sem saber bem como. E tudo mudou, de facto, com o gesto de coragem que a levou à bater à porta do grande Orson Welles. Com ele, viria a viver uma história de amor atribulada, feita de segredos, de momentos e de saúde. Feita corajosa pelo próprio passado, aprenderia a confortar com carinho as desilusões do seu grande amor. E amor - e um grande tesouro - guardaria para sempre consigo.
Narrado na primeira pessoa pela voz da protagonista, este é um livro que se, define, essencialmente como uma história de amor. Bastante breve, tem nas suas figuras centrais a base de toda a narrativa e, partindo daí, é natural que seja o romance o que mais marca nesta história. Mas é precisamente a forma como este romance é contado o que primeiro cativa nesta leitura. É que o afecto e o desejo transparecem mais das palavras e dos pequenos gestos, que propriamente de acções. Fica, então, uma certa ambiguidade, algo que é deixado à imaginação do leitor, e que, curiosamente, acaba por tornar a história mais interessante.
Também interessante é a escrita, com laivos de poesia e, ao mesmo tempo, sem grandes elaborações descritivas, adapta-se ao registo de recordação saudosa que parece transparecer de toda a narrativa. É fácil imaginar a voz que conta a história como a da mulher que recorda um amor, com todos os belos momentos e as situações complicadas a ele associados. Junte-se a isto uma bem conseguida caracterização das personalidades, com os retratos que a autora traça para Orson e Yasmina a completarem-se da melhor forma, e o resultado é uma leitura sempre envolvente.
Fica, de alguns momentos, a sensação de que algo se perde pela brevidade. Ainda que centrada no romance entre os protagonistas, esta é também uma história em que o passado de Yasmina é particularmente relevante. É neste aspecto que fica a impressão de que mais haveria a dizer, quer na contextualização desse mesmo passado, quer até em situações que, surgindo ao longo da narrativa, são tratadas de forma muito breve. Não são, ainda assim, aspectos essenciais, ainda que fosse interessante saber mais sobre o assunto, e a brevidade com que são referidos nada retira ao que é, afinal, o foco do enredo: a história da relação entre Yasmina Salouadji e Orson Welles.
Envolvente, com uma base factual muito interessante e uma escrita que apresenta ao leitor o melhor da história e dos seus protagonistas, este é, pois, um livro que, apesar da sua brevidade, cativa, surpreende e, nalguns pequenos momentos, chega a comover. Uma boa leitura, em suma.
Publicado em 13 Dezembro 2013

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