Conheces Sancho? Opinião no Cyberjornal

"Conheces Sancho” pergunta logo no início do livro uma Mécia alquebrada e endoudecida pela dor de ter perdido o marido, um dos primeiros monarcas portugueses, ainda hoje pouco conhecido pela maior parte das pessoas, e que a autora se propôs redimir do esquecimento e da incompreensão.

Fruto de uma longa pesquisa nos poucos documentos e estudos existentes sobre o bisneto de D. Afonso Henriques, Maria Helena Ventura reconstituiu o seu reinado de mais de 20 anos, dando a conhecer neste romance, um D. Sancho II que ficando órfão na adolescência – quase menino - herdou um reino pobre e dividido. Um reino onde, desde o tempo de seu pai, Afonso II, o conflito entre o rei, a nobreza e o clero era permanente.

Traído pelos parentes mais próximos – o irmão com o apoio das tias cobiçava-lhe o trono – D. Sancho viu a sua situação piorar quando escolheu para esposa a castelhana Mécia López de Haro, um enlace que o papa condenou, destituindo-o de rei em 1245 e designando o irmão, D. Afonso, como curador.

Mau grado as conquistas e vitórias sobre os mouros alcançadas por D. Sancho no seu reinado, o povo ficou dividido entre o seu rei e o curador imposto pelos seguidores das diretivas papais.

Citamos um extrato revelador do ambiente da corte, quando sob o pronúncio desta guerra fratricida, o rei aconselhava a esposa Mécia, a refugiar-se em Castela, junto dos familiares:

«Tendes de partir, a situação é embaraçosa, senhora. De agora em diante só pode piorar. Eu não estou disposto a ceder, o dito curador do reino parece que já recolhe muitas loas do meu povo...

Não são loas de respeito, nem do vosso povo todo, Sancho, são fórmulas de temor e de interesse: temor pelas ameaças do papa; interesse na colheita de vantagens. Sabeis quão poucos filhos de algo são herdeiros de fortuna. Se aos outros acenam com títulos e cabedal, eles correm a fazer o que lhes pedem.

Bem sei... qual o desafortunado que não aproveitaria para se tornar nobre? Quem sabe corromper leva sempre a dianteira...»

Utilizando uma linguagem que evoca a época, mas com uma escrita fluída, que prende o leitor desde a primeira página, a autora revela-nos um monarca muito humano, soçobrando sob pesadas responsabilidades e intrigas, ora tolerante e justo, ora deixando-se levar pela ira e desespero, mas sempre pronto a colocar-se à frente dos seus homens, nas duras batalhas que travou.

De realçar ainda as descrições quase poéticas das belas paisagens do Norte do país e o apurado rigor histórico que caracterizam a escritora

Maria Helena Ventura é natural de Coimbra, residindo no concelho de Cascais há mais de três décadas. É licenciada em Comunicação Social, vertente de Jornalismo, e mestre em Sociologia da Cultura. Escreve desde muito jovem, tendo colaborado em diversos jornais e revistas. Em 1983 publica o seu primeiro livro de poesia, género literário da sua preferência, tornando-se então membro da APE. Em 1999 apresenta o seu primeiro romance. Do seu currículo constam sete livros de poesia e dez romances, entre os quais, “A Musa de Camões”; “Afonso, o Conquistador”; “Onde vais, Isabel?”; “Um Homem Só”; “Cidadão Orson Welles” e “Desculpe Sr. Nóbel”.

Publicado em 31 Maio 2016

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