Da Direita à Esquerda - No Observador

Onde está a direita?

“Direita” é um nome que a Esquerda chama a tudo o que sai das convenções revolucionárias ou “progressistas”. Para ter direito a ser “de direita” (ou pior, em casos ou momentos de maior exaltação “patriótica e de esquerda”) basta não ser de esquerda. Daí que, paradoxalmente, os panegiristas da mais transformadora “revolução” dos tempos modernos – a revolução capitalista, em cujo caldo de cultura, aliás, viceja confortavelmente a cultura de esquerda – sejam hoje para a esquerda o alfa e ómega do “conservadorismo” – e a Esquerda se aferre à conservação de “conquistas” que quase ninguém se atreve a discutir em termos fundamentais e lute epicamente por objetivos “fracturantes” que a marcha da sociedade está pronta a conceder-lhe sem combate.

O livro de António Araújo, Da direita à esquerda, faz parte de um díptico cujo segundo painel se anuncia como um “ensaio sobre a cultura de esquerda” (Da esquerda à direita, de João Pedro George). Nessa suposta simetria, estaríamos aqui perante um “ensaio sobre a cultura de direita”. O autor “deveria tão só” – confessa – “ampliar e actualizar o texto que em 2012 fora a base de uma intervenção no colóquio ‘O estado das direitas na democracia portuguesa’”. Não é isso, é certo, o que anuncia o subtítulo honestamente escolhido para Da direita à esquerda: “Cultura e sociedade em Portugal dos anos 80 à actualidade”. Nós conhecemos o bom gosto intelectual, a clareza, a perspicácia e a suave ironia de António Araújo. Este livro não desmente nada disso, mas é ao mesmo tempo mais e menos do que inicialmente se propunha. É, na realidade, uma mais vasta exploração do nosso Portugal Contemporâneo. Vai muito além do que seria uma reflexão sobre as direitas ou, mais restritamente, a “que saiu do armário” (Paulo Moura, “Os intelectuais de direita estão a sair do armário”, Público, 15/6/2014, em que António Araújo é muito citado).

A vida é curta e arte de fazer justiça a todas as questões levantadas por António Araújo seria longa. Peço licença para uma enumeração elucidativa. Eis o índice de Da direita à esquerda, fora uma Nota introdutória e um Epílogo: Primeira parte – A cultura de direita em Portugal, percursos contemporâneos. 1. O Semanário e a revista Olá!, 2. O neoconservadorismo do gosto, 3. MEC, o fenómeno, 4. O Independente e a revista Kapa. 5. Direita tradicional vs. direita pós-moderna, 6. Internet, a fractura digital, 7. A blogosfera, campo de batalha, 8. A revisitação do imaginário salazarista, 9. Memórias ultramarinas, 10. A revista Atlântico, O jornal Observador, 12. O empreendedorismo: doença infantil do capitalismo? 13. O bricolage religioso, 14. Os lugares selectos: clubes de elite e o Chiado elegante, 15. O “centro”, entre Lisboa e Bruxelas; Segunda parte – Esquerda e Direita, as clivagens possíveis. 1. Crise e austeridade: sequelas culturais, 2. Dos manifestos às microcausas, 3. Cultura de consenso vs. cultura de conflito, 4. Migrações e diversidade cultural, 5. O debate sobre a gentrificação, 6. A Educação: contra o “facilitismo”, 7. Apoio social e voluntariado, 8. Luta de classes ou conflito geracional? Terceira Parte – Direita e Esquerda, as convergências “invisíveis”. 1. A rejeição dos extremos, 2. Esquerda/direita: afinidades ocultas, 3. O circo mediático: jornais, blogues, televisões, 4. Livros, livros, livros, 5. O estado das artes, 6. O intelectual público, 7. A frivolidade, tudo menos frívola, 8. Lifestyle: uma democratização aparente, 9. Uma nova “sensibilidade”, 10. O apogeu do twee, 11. A democratização da excepcionalidade, 12. O eterno revivalismo, 13. A fábrica da nostalgia, 14. Culto do passado e teatralização da memória, 15. Comemoracionismo e liturgias patrióticas, a “história fácil”, 16. Transformações da intimidade, 17. A idelogia como expressão do eu, 18. O risco de novas tribalizações, 19. À procura do povo, 20. Elites vs. povo, a grande clivagem, Pastoral portuguesa: através dos campos.

António Araújo observa em Portugal – detectamos na sua serenidade um certo desencanto? – uma “tremenda e imperceptível vitalidade do centro e da lógica do espectáculo para onde, afinal, todos convergem”, de uma “direita”, cada vez menos envergonhada e mais conformada com os mitos de “Abril”, a uma “esquerda” cada vez mais domesticada e mais puramente retórica. “Sem defender a tese do ‘fim da história’ ou do ‘declínio das ideologias’ – diz a ‘Nota introdutória’ – este livro sustenta que que as práticas, os hábitos e os consumos socioculturais da esquerda e da direita se encontram cada vez mais próximos, obedecendo a uma lógica de espectáculo que tudo absorve e corrompe.” Mas vê mais:

A grande clivagem que subsiste, isso sim, é a que divide elites e não elites, já que a maioria das controvérsias que emergem na esfera pública se situa, hoje como ontem, no âmbito elitista, urbano e sofisticado. O povo mantém-se sensatamente afastado destas quezílias”. (“Sensatamente” ou obediente “ordeiramente, à lei geral do aparvalhamento televisivo”, como escreve muito mais adiante?)

Estamos aqui, portanto, no terreno das elites, em especial a dos que dominam a opinião que se publica e os que a seguem. É delas que se ocupa principalmente o inventário exaustivo, e às vezes extenuante, que o autor faz de costumes, hábitos, tiques e “discursos”. Mas o facto é que há no “país real” desde as eleições de 1975 até hoje uma sólida maioria centrista – maioritariamente “social-democrata” (PSD, PS) e, umas vezes mais, umas vezes menos, “democrata-cristã” (CDS-PP). A Presidência da República tem sido repartida entre os candidatos provenientes ou próximos do PS e do PSD. O “centrão” tem sido um inapelável facto político. À esquerda, o Partido Comunista e a chamada “extrema-esquerda” mantêm desde os primeiros balbuceios da nossa democracia eternamente “jovem” cerca de 20% dos votos lançados nas urnas e aproximadamente o mesmo número total de votantes, com tendência a diminuir no caso do PCP.

O número de eleitores tem crescido – mas o número de votantes não tem variado assim tanto, a abstenção cresceu brutalmente. À direita, não há nada, politicamente. Somos desde 1975 uma República maneta. Mas, bem vistas as coisas, neste capítulo não temos sido os únicos portadores desta deficiência na Europa, onde, com a curiosa excepção da Itália onde foi inventado o fascismo, a Direita que não se diz do “centro” não teve durante muitas décadas por circunstâncias diversas mas parecidas entre si, representação política que se visse – e a chamada extrema-esquerda, se dela excluirmos os Partidos Comunistas (enquanto existiram), sempre foi eleitoralmente marginal. Não somos – ou não fomos até recentemente – os únicos praticantes da ‘rejeição dos extremos’ que António Araújo regista no seu livro com satisfação algo melancólica.

“Do que foi possível apurar – conclui o autor na sua ‘Nota introdutória’ – o grande dissídio continua a situar-se no facto de, em traços largos, a cultura de esquerda permanecer apegada a uma noção de conflito, ao passo que a sua congénere de direita prefere uma abordagem mais consensual e compromissória da realidade. Observa-se, em todo o caso, que talvez este padrão esteja em vias de mudança, sendo ainda cedo para avançar prognósticos, sobretudo num tempo tão incerto e volátil.” É prudente. Num livro relativamente obscuro intitulado Beautiful Losers (“Essays on the Failure of American Conservatism”), o polemista americano Samuel Francis escreveu: “Abandonando a ilusão de que representa um establishment a ser ‘conservado’, uma nova Direita Americana tem de reconhecer que os seus valores e objetivos estão à margem dele e contra ele e que os seus aliados naturais não estão em Manhattan, Yale e Washington mas nos estratos crescentemente alienados e ameaçados da Middle America. A estratégia da Direita deveria ser a de promover a polarização dos americanos médios em relação ao regime vigente e não a de construir coligações com os defensores e beneficiários do regime.” Foi escrito em 1993. À falta de melhor, Trump ganhou as eleições em 2015.

Publicado em 24 Janeiro 2017

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