Depois de ler este livro, vai olhar para vacas com outros olhos.

Não se vai lembrar nem de queijo da serra nem de chocolate suíçonem de leite açoriano, mas da vaca Elsie. Esta vaca é muito especial, pois decide ir para a Índia, onde a sua espécie é venerada, como único reduto de salvação da sanguinária crueldade dos homens. Pensa ela que irá sozinha, mas rapidamente se lhe juntam mais dois amigos, o porco Jerry e o peru Tom, que desejam, pelos mesmos motivos, fugir para Israel e para o Peru (respetivamente). Podia ser literatura de viagens, em que os viajantes readquirem maturidade e um novo sentimento de paz e de equilíbrio depois das desventuras da viagem. Podia ser fábula, em que os animais simbolizam virtudes e códigos de ética a seguir. Podia ser literatura política e de humor, dadas as mensagens mordazes que se mostram nas palavras e ações de uma simples vaca. Até podia ser um livro de autoajuda, de espiritualidades esquisitas ou um guia alternativo de viagem. Mas não só é tudo isto, como ainda é muito mais: a Vaca Sagrada é uma proeza literária que celebra a comunhão com a natureza e a felicidade de se estar vivo, mas contada por uma vaca. Só por aí já merece todos os leitores da humanidade e bovanidade!

Galeria de personagens
A lista das personagens que se segue pode causar entusiástica ansiedade aos leitores perante a extraordinária e magnífica visão destes adoráveis bichos. Prepare-se!

Elsie Bovary – É filósofa, viajante e adepta da tolerância interreligiosa e intercultural. Personagem de grande densidade dramática, que constantemente se questiona sobre o que vê, possui a lucidez de uma visão empírica sobre a vida, mesmo depois de descobrir as agruras do destino de se ser uma vaca num mundo em que o homem se encontra no topo da cadeia alimentar. Apesar disso, aprecia a vida e valoriza a amizade. É divertidíssima e uma embaixadora das causas que são defendidas pela bovinidade, e que se estendem, claro está, a todos aqueles que são vítimas dos apetites humanos, do desperdício alimentar e da sobre-exploração ambiental. A sua coragem é suficiente para derrotar lobos – é admirável que o consiga através da sua capacidade diplomática de negociação.

Porco Jerry – Deslocado do mundo em que vive, anseia conhecer a cultura judaica depois de descobrir a vantagem das leis kosher: o porco é considerado um animal impuro e, como tal, não é ingerido. Embarca numa transformação gradual, operando mudanças linguísticas e físicas radicais em si mesmo, enquanto lê a Tora para se inteirar dos meandros e preciosismos da cultura hebraica. Passa por isso a designar-se por Shalom. A viagem que faz junto dos seus companheiros mostra-lhe as capacidades ilimitadas que cada um detém para mudar o mundo em seu redor.

Peru Tom – De grande sapiência sobre a psique de todos os seres, o peru Tom tem uma postura psicanalítica perante o mundo numa vertente freudiana pós-modernista. Deseja operar mudanças de paradigma nos comportamentos dos outros que possam ser considerados nocivos para si mesmos, daí o seu constante apoio ao porco Shalom e a sua solidariedade para com a causa de Elsie. Apesar da grande complexidade que demonstra enquanto personagem, Tom tem um desejo simples: gostaria de povoar o céu como todas as aves. É adepto dos gadgets tecnológicos, utilizando com agilidade um iPhone com o bico, e aprende rapidamente a pilotar um avião.

Camelo Joe – Apesar de ter sido protagonista dos anúncios da companhia de tabaco e vestuário, é um camelo solidário e bondoso. Calcorreia o deserto sob pena de não o reconhecerem na cidade como o afamado camelo que já foi, ostentando alguns comportamentos de «diva» que só conseguirá abandonar depois de conhecer o trio mencionado acima. É um pouco louco, mas amigo dos seus amigos.

Publicado em 7 Outubro 2015

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