Duna - Crítica no Folhas do Mundo


Pelos comentários que li, pelo que ouvi e pela sinopse do próprio livro, quase que posso dizer que me apaixonei por aquele planeta árido, sem água, e sem vegetação, excepção feita à especiaria., claro. Este meu gosto provém da paixão que tenho pelos grandes espaços, aqueles em que o nosso olhar se perde num horizonte sempre igual, o deserto fascina-me e leva-me a questionar imensas coisas interiormente. Há um ditado Tuareg que diz "Deus criou o mar para que os homens pudessem alimentar-se e o deserto para que descobrissem a alma." e não há dúvida nenhuma que podemos concluir que Paul Atreides também encontrou a sua alma.

Mas sem querer divagar, “Duna” conta-nos a história do duque Leto Atreides e sua família que deixam o seu planeta de origem Caladan, para habitarem o planeta Arrakis, para o qual o duque foi designado governante. Assim que os seus pés pousam neste árido planeta, percebe que se encontra no centro de muitos interesses e conflitos.

Através de pequenos excertos dos diários da princesa Irulan, vamos conhecendo, capítulo a capítulo, os fios invisíveis que movem este mundo de intrigas, mistérios, poder e sobretudo da construção de um líder, profeta ou quem sabe muito mais do que isso.

Arrakis constitui o único local onde existe a valiosa especiaria Melange que move interesses imperiais. Para além disto apenas possui areia, dunas, temperaturas elevadíssimas, escassez de água e um povo muito agreste, os Fremen. Poucos querem habitar este planeta, mas muitos são os interessados em obter lucro através da comercialização da especiaria.

A sorte não bate à porta dos Atreides e após uma traição amarga, Paul (filho do Duque) e a sua mãe, conhecida como a Dama Jessica e concubina do duque, acabam por procurar refugio no deserto, junto daquele povo que os acolhe com uma reverência, fruto de uma antiga profecia.

Treinado por sua mãe nos ensinamentos mentais das Bene Gesserit e pelos melhores mestres de armas do seu pai, Paul insere-se sem qualquer problema, na vida deste povo que defende o seu planeta contra os seus opressores. Com o desejo de se vingar do seu inimigo, o Barão Harkonnen, que é o mesmo inimigo dos fremen, Paul vê-se na encruzilhada de uma antiga profecia que lhe confere o título de líder e profeta de uma jihad cujo propósito é muito superior ao da simples vingança.

A escrita é fluente e cativa-nos. As personagens estão muito bem construídas e todas elas acabam por nos cativar. Paul, sendo o centro da história e da acção, acaba por reunir à sua volta todo um conjunto de pessoas que lhe irão incutir os valores, sentidos de honra e de responsabilidade que irão formando a sua personalidade.

Tudo se constrói em volta de um conjunto de valores, crenças, formas de vida e de sobrevivência num mundo hostil, mas que é amado e sobre o qual são construídos ideais e onde a esperança de um mundo melhor, de um oásis, prevalece. Todos são importantes, todos são peças fundamentais de um mundo muito bem construído por Frank Herbert.

Na minha opinião, esperava um pouco mais relativamente ao próprio planeta. Esperava saber mais sobre as suas areias, sobre os vermes, sobre as tentativas de plantar outra vegetação e de armazenar água. Gostava de ter conhecido melhor Kynes e o seu sonho. Penso que é uma personagem importante neste contexto, e que foi pouco explorada.

Sendo um livro de FC esperava que desenvolvessem mais estes aspectos cientificamente, que não se ficassem somente pelos aspectos morais, humanos, religiosos e sobretudo pela vingança. No final pergunto a mim mesma : Quem é Paul Atreides? Um líder? Um profeta? Ou um fanático?

Há quem considere este livro como um dos melhores de ficção científica. Apesar de já ter lido alguma coisa nesta área, ainda tenho muito para ler e muitos universos e situações para conhecer, mas do que li, não o considero como tal. Mas esta é a minha opinião, claro e cada um tem os seus próprios gostos e opiniões e somos livres de as expressar.

No entanto há que ter em atenção que foi escrito na década de 60, (década bastante prolifera no desenvolvimento da literatura de FC) e que se encontra ao nível, ou superior, de muitos livros que se publicam hoje em dia nestas matérias.


Recomendo, sem dúvida.

 
"Há em todas as coisas um padrão que faz parte do nosso universo. Tem simetria, elegância e graça - as qualidades que se encontram sempre naquilo que o verdadeiro artista captura. O padrão encontra-se na mudança das estações, no modo como a areia transpõe um cume, nos aglomerados de ramos do arbusto creosote ou no padrão das suas folhas. Tentamos copiar esses padrões nas nossas vidas e sociedade, procurando os ritmos, as danças, as formas que reconfortam. No entanto, é possível ver perigo na descoberta da derradeira perfeição. É claro que o derradeiro padrão contém a sua própria fixidez. Numa tal perfeição, todas as coisas avançam na direcção da morte."

de "Ditos Coligidos do Muad'Dib" pela Princesa Irulan

Publicado em 7 Abril 2014

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