Eleanor & Park - Dois contra o mundo por John Green



Quando comecei a ler ficção contemporânea na escola secundária, lembro-me do sentimento que tinha de que cada livro era uma revelação absoluta. Estivesse eu a ler Michael Crichton ou Amy Tan ou Tim Robbins, nunca havia nada semelhante que eu tivesse lido anteriormente. Este sentimento de novidade por cada romance passa, claro. Tenho agora 35 anos. Já li uma série de livros do estilo “trouxemos os dinossauros de volta e eles estão furiosos.” Já li convenções e as interrogações a essas convenções.

 

Amar no meio dos monstros

Mas eu nunca vi nada como Eleanor e Park. O primeiro romance de Rainbow Rowell para o público juvenil é uma belíssima e comovedora história de amor – mas dessas eu conheço. Decorre em 1986, realidade que também conheço. Há bullying, rivalidade entre irmãos, a salvação através da banda desenhada, a redenção através da música e um padrasto monstruoso – e bem sei, todas estas realidades nos são conhecidas. Mas nunca leram Eleanor e Park – cuja precisão, perspicácia e riqueza humana tornam a leitura muito especial.

Eleanor é uma rapariga gorda com cabelo ruivo vivo (os miúdos dos autocarros chamam-lhe Big Red, ou Ruiva Gorda, e ela descreve-se a si mesma como sendo parecida com uma empregada de mesa) que havia regressado a casa em Omaha depois de ter sido expulsa durante um ano e forçada a viver com conhecidos. Todos os momentos que Eleanor vive em casa são assustadores e claustrofóbicos – ela partilha o quarto com uma catrefada de irmãos e irmãs e vive constantemente com medo de ofender de alguma maneira Richie, o seu padrasto alcoólico abusador e violento. É também pobre – não tem meios para adquirir uma escova de dentes ou pilhas para o seu Walkman (o que alguns leitores acharão irreal, mas através do romance consegue-se captar melhor e mais exaustivamente o modo como a pobreza interage com o abuso para a marginalização social e opressão familiar).

Park é um rapaz com ascendência coreana (por parte da mãe) que é relativamente popular dentro do contexto social da escola devido à sua etnia e à sua paixão por banda desenhada e boa música. No primeiro dia de escola, Eleanor senta-se ao lado dele no autocarro. Mais tarde, começa a ler a banda desenhada de Park por cima do ombro dele. Depois Park começa a emprestar-lhe os livros, e iniciam uma ligação mais próxima e mais profunda através da música. Finalmente dão as mãos durante as viagens de ida e volta da escola.

 

Uma sensualidade insuportável

A propósito, dar as mãos para ambos é algo intenso. “Estar de mão dada com Eleanor era como segurar numa borboleta. Ou num coração a bater. Como segurar algo completo, e completamente vivo.” As descrições evocativas de uma sensualidade inocente são omnipresentes, mas sempre genuínas em relação a cada uma das personagens.

Eleanor descreve o casaco trench de Park como cheirando a “Irish Spring e um pouco a pot-pourri e algo mais que ela não sabia descrever melhor do que sendo rapaz.”

Park aproxima-se e observa tão de perto a boca de Eleanor que “ele viu que ela também tinha sardas nos lábios.”

Depois de Eleanor o repreender por ele dizer que ela tem bom aspeto, Park pensa: “Eleanor tinha razão: ela nunca tinha bom aspeto. Ela tinha aspeto de arte, e a arte não tinha de ter bom aspeto; a arte tinha de nos fazer sentir algo.” E sentem-se, além disso, deliciosamente fascinados com a sensação do toque do outro. A dois terços já lidos do livro, quando Park se apercebe que apenas se haviam tocado abaixo do queixo ou acima dos cotovelos, senti-me tão impressionado quanto Park.

 

O amor contra o mundo

Todos os romances e histórias de amor têm o seu obstáculo: tenho outro namorado, os meus pais dizem que não posso, és um vampiro e eu não, etc.. Mas o obstáculo em Eleanor e Park é o mundo. O mundo não consegue digerir uma relação de amor entre um miúdo coreano atraente e a Ruiva Gorda. O mundo não pode permitir que Eleanor tenha um namorado de qualquer tipo, porque ela é pobre, gorda e veste-se de forma esquisita. O mundo não pode permitir que Park tenha uma namorada porque ele gosta de usar eyeliner, e todos sabem que isso é gay. O mundo é um obstáculo, como sempre é quando temos 16 anos e estamos realmente apaixonados. Os pais de Park – duas das melhores personagens adultas concebidas num romance juvenil – comprovam que por vezes o amor conquista o mundo, porém a família de Eleanor é a evidência que por vezes o amor nada conquista. E para Eleanor e Park… bem, não irei revelar mais.

Anteriormente, o professor de inglês de Park pergunta-lhe por que motivo Romeu e Julieta sobrevive 400 anos, ainda com o mesmo poder sobre nós. Com Eleanor a olhar para ele, Park diz:

— Porque…— começou ele baixinho, a olhar para a carteira — porque as pessoas querem lembrar-se de como é ser jovem? E apaixonado?(…) É assim? — Perguntou Park.

É mesmo. Eleanor e Park relembrou-me o que é ser jovem e apaixonado por uma rapariga, mas também o que é ser jovem e apaixonado por um livro.


John Green é o autor de A Culpa É das Estrelas, Cidades de Papel, À Procura de Alaska, O Teorema de Katherine, Will e Will e Quando a Neve Cai

Publicado em 2 Dezembro 2014

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