Entrevista a Carol Rossetti no Diário Digital

«Mulheres», da brasileira Carol Rossetti, é muitas vezes visto pelo público e parte da media como um álbum ilustrativo feminista. No entanto, a obra editada pela Chá das Cinco, é antes de tudo um álbum ilustrativo inclusivo, que não pede mais do que respeito, amor-próprio, direitos e dignidade entre todos, como refere o seu subtítulo.

A obra de Carol Rossetti apresenta mais de uma centena de ilustrações onde a mulher ocupa o lugar central. Em todos os desenhos, um pequeno texto, de uma acutilância extrema, que sustenta a mensagem da sua autora.


«Procurei transmitir um discurso limpo, brando, direto, acolhedor, afetivo e simples. O objetivo era ser acolhido e entendido por todos, em qualquer lugar do Mundo», refere a brasileira, que nunca imaginou que os seus desenhos ganhassem a repercussão que obtiveram e ainda obtêm um pouco por todo o lado.

«Tudo aconteceu de forma natural, em abril de 2014. Como gostava de desenhar, publiquei a primeira ilustração na minha conta do Facebook, que era acompanhada por amigos e familiares. Mas depois ela foi partilhada por milhares de pessoas e resolvi continuar com esta via. O boom aconteceu quando resolvi traduzir os textos para inglês. Por exemplo, uma pessoa em Israel pediu-me autorização para traduzir os desenhos para hebraico… De repente estava com um projeto em mãos que nunca imaginei que teria tanto relevo. No início a adaptação foi complicada, mas felizmente consegui o enquadrar na minha vida. Por exemplo, um dia, recebi um telefonema a dizer que a CNN queria fazer um trabalho comigo. Pensei de imediato que era uma “pegadinha”…»

Adaptação que a levou a diversos países, a ser alvo de várias matérias de jornais e revistas, no Brasil e no Mundo, a participar em conferências TED...

«Acredito que este projeto não se resume ao movimento feminista, que, frequentemente, acaba por afastar outros movimentos devido a sua agressividade, renegando e afugentando por vezes a própria mulher. Este livro visa principalmente a inclusão, o diálogo, a diversidade.»

Ao olhar para o êxito do seu trabalho, Carol Rossetti não compreende como, ainda hoje, em pleno século XXI, o respeito e a igualdade de género não seja o bem comum da Humanidade, mas, ao mesmo tempo, fica satisfeita por o tema ser alvo de debate, «o que significa que a Humanidade procura melhorar, procura evoluir».


Do seu trabalho, a brasileira, também designer gráfica, acha curioso como uma ilustração tem várias leituras, dependendo de onde ela é vista.

«No Brasil, por exemplo, a Amanda, que não se depila, causou alguma discussão, enquanto nos países nórdicos não o entenderam.»

Carol Rossetti afirma que, nas suas ilustrações, embora não tenha vivido todos os preconceitos que apresenta, há um pouco dela nas protagonistas, «principalmente ao nível do discurso».

«Considero-me uma privilegiada. Não vivi a grande parte do que desenhei, mas identifico-me com grande parte das ilustrações. Em termos percentuais, talvez tenha “sofrido” 10% do que desenhei. Mas há um trabalho de pesquisa muito grande no livro, de horas e horas de conversas e leituras sobre os mais variados temas. De certo modo, os meus traços são um grito de socorro de milhares de pessoas, senão de milhões.»

A ilustradora brasileira acredita que é «ingénuo» acreditar que o Mundo vai mudar com um discurso feminista que não inclui o sexo masculino. «É muito importante que os homens sejam incluídos neste debate», defende.

«Na realidade, eles não vão perder benefícios, mas somos nós, mulheres, que ganhamos. No entanto, é essencial existir essa igualdade! É hora de os homens perceberem que, basicamente, defendem a exclusividade. Essa posição já não se coaduna com os tempos que vivemos... Mas este discurso e alteração de hábitos tem de ser feito e vivido com a participação masculina, é necessário incluir o homem nesta equação, haver o diálogo. Abdicar do homem é um erro que muitos movimentos feministas cometem. É ingénuo acreditar que poderemos alterar algo sem a participação de 50% da população.»

«Mulheres» alterou por completo a vida da sua autora. «Por exemplo, antes não comia pastéis de belém…», sorri. «A verdade é que era um agente passivo da sociedade, hoje sou um agente ativo. Dou palestras, crio conceitos, de certo modo sou um exemplo. Evidentemente que isso também traz mais responsabilidades.»

Responsabilidades que não teme em assumir, já que, desde abril de 2014, o seu intuito foi sempre provocar um diálogo entre todos. Primeiro no seu pequeno mundo, entre familiares e amigos; agora um pouco por todo o Mundo. Carol Roossetti tem a plena consciência do seu papel na sociedade e por isso não é de estranhar o seu novo projeto, «Cores», tiras de BD (lançadas duas vezes por semana na sua página do Facebook) onde as crianças são as protagonistas e principal destinatárias, embora os adultos não sejam excluídos, pelo contrário.

Publicado em 5 Abril 2016

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