Entrevista a Edith Eger autora de A Bailarina de Auschwitz no Observador

Sobreviveu a Auschwitz e à Marcha da Morte, mas perdeu os pais nas câmaras de gás. Aos 91 anos, ainda trabalha como psicóloga — para ajudar outros a encontrarem a paz que demorou anos a descobrir.

“Isto não depende de mim, mas tenho de ser eu a dizer-te que o teu lugar na equipa olímpica vai ficar para outra pessoa.” Foi assim, com esta simples frase, que uma treinadora de ginástica desferiu o golpe mais profundo na vida, até então, da adolescente Edith, com 16 anos. “A simples verdade é que, por causa das tuas origens, já não estás qualificada”, disse, acrescentando que teria de ajudar a treinar a sua substituta. Edith podia ser nova, mas compreendeu de imediato o que a treinadora lhe estava a dizer. Os campos de batalha da Segunda Guerra Mundial estavam longe daquela pequena cidade húngara — longe o suficiente para a equipa treinar à mesma para uns Jogos Olímpicos adiados —, mas Edith não podia escapar ao peso das suas origens. Era judia e, portanto, seria afastada.

“Foi provavelmente a experiência mais dolorosa da minha vida”, resume a própria ao Observador, numa conversa telefónica a propósito do seu livro de memórias A Bailarina de Auschwitz (ed. Desassossego). Poucas semanas depois deste incidente, Edith seria levada para o infame campo de concentração e exposta a dores que nem sabia serem possíveis até então. Sobreviveu à fome, à humilhação, à exaustão e foi transformada para sempre. Mas, mais de 70 anos depois, não tem dúvidas: aquela expulsão da equipa de ginástica foi a ferida mais profunda. Porque foi a primeira — e porque foi um presságio do horror que se seguiria.

A adolescente Edith (ao centro) e amigos, ainda antes de ser enviada para Auschwitz (D.R.)

 

Edith nasceu em 1927, numa cidade na fronteira entre a Hungria e a, à altura, Checoslováquia, Kassa (atual Košice), que foi sendo disputada pelos dois países ao longo dos tempos. Filha de judeus, sentiu o primeiro impacto da Guerra quando o pai foi levado para um campo de trabalhos forçados. O seu regresso, contudo, fez com que Edith, a mãe e as irmãs não levassem demasiado a sério a ameaça nazi que rugia em vários pontos do continente. Tudo se alteraria em 1944, quando um grupo de soldados entrou à noite na sua casa e levou toda a família à força. Começaram por ficar durante algum tempo a trabalhar numa fábrica de tijolos, mas acabariam por ser levados para Auschwitz, quando menos esperavam. No campo, são separados. Primeiro o pai é levado para longe da mulher e das filhas; depois a mãe é enviada para as câmaras de gás. Edith e a irmã mais velha, Magda, conseguem ficar juntas. Por serem jovens, são consideradas “aptas a trabalhar”.

“A Bailarina de Auschwitz” foi publicado pela Desassossego em setembro deste ano

 

A companhia da irmã foi uma migalha de consolação no vazio que foi toda aquela experiência, conta Edith: “As pessoas perguntam-me o que é que eu senti em Auschwitz e eu estava vazia de sentimentos. Não me lembro de chorar. Não me lembro de sentir. Estava anestesiada”, revela. “Acho que é muito importante reconhecer que é preciso sentirmos para nos curarmos. É nessa viagem que levo os meus pacientes: respirar, sentir, para curar. Não se pode medicar o luto.” Foram precisos anos para Edith encontrar paz relativamente a tudo o que lhe aconteceu — mas não só o conseguiu como hoje tenta ajudar outros a conseguirem o mesmo no seu trabalho como psicóloga, especializada em stress pós-traumático.

“Dança para mim”, ordenou-lhe o ‘Anjo da Morte’, Josef Mengele

Nos meses que passou naquele campo de concentração — bem como na Marcha da Morte de Auschwitz para Loslau, em que foi forçada a participar juntamente com outros 60 mil prisioneiros —, Edith viu de tudo, como recorda no livro: “Já vi a carne a ser profanada de forma cruel e imperdoável: um rapaz amarrado a uma árvore, enquanto os oficiais das SS lhe davam tiros no pé, na mão, nos braços, numa orelha — uma criança inocente usada para tiro ao alvo. Ou a mulher grávida que de alguma forma chegou a Auschwitz sem ser imediatamente assassinada. Quando entrou em trabalho de parto, os guardas ataram-lhe as pernas juntas. Nunca vi agonia como a dela. Mas é ao ver uma pessoa faminta a comer a carne de um morto que sinto a bílis subir-me à garganta, vejo tudo negro.”

Edith assistiu a tudo. E atravessou, de forma quase apática, as sucessivas degradações a que foi sujeita. Teve o cabelo rapado e ouviu os insultos dos guardas. Não chegou a ser tatuada com os números com que os prisioneiros eram marcados, como gado, porque o tatuador achou que não valia a pena: estava tão magra que o mais certo era ser enviada para as câmaras de gás em breve.

Mulheres consideradas "aptas para trabalhar" em Auschwitz, grupo do qual Edith fez parte. Também ela teve a cabeça rapada e usou esta mesma farda (AFP/Getty Images)

 

A fome, essa, estava sempre presente — e sobrepunha-se a tudo. “Na psicologia, nós estudamos Abraham Maslow, que fala da hierarquia das necessidades. Não se pode falar de amor enquanto temos a barriga vazia”, diz Edith, com uma ligeira gargalhada. “Por isso, falávamos muito da comida. Salivávamos, trocávamos impressões sobre como fazer o goulash… Era a única coisa que fazíamos: falar sobre comida e comida e comida.” O strudel, o challah, todos os pratos que a mãe de Edith fazia com tanta destreza estavam-lhe agora no corpo como um maná imaginário, que dava forças para continuar. “Aquilo que fazíamos na nossa mente dava-nos a sua própria forma de sustento”, resume a própria no seu livro.

As trocas de receitas eram apenas uma das várias estratégias usadas pelos prisioneiros, como forma de conseguir lidar com a desumanização a que eram sujeitos. As raparigas organizavam concursos de beleza improvisados nas camaratas e recordavam episódios da vida passada. “A negação era um dos mecanismos de defesa que mais usávamos”, reconhece a sobrevivente ao Observador. E, quem sabe, poderá ter sustentado alguns, a par da esperança inabalável. Talvez tenha sido esse o caso da rapariga que Edith recorda como estando permanentemente agarrada à ideia de que o campo iria ser libertado no Natal. No dia a seguir, após compreender que os salvadores não tinham chegado, morreu.

Josef Mengele, médico de Auschwitz responsável por várias experiências cirúrgicas com prisioneiros dos campos. Ficou conhecido por “Anjo da Morte”, mas nunca foi julgado pelos seus crimes (Keystone/Getty Images)

 

Edith não sabe ao certo qual foi o mecanismo que a susteve e que a agarrou à vida, mas sabe que, mais cedo ou mais tarde, compreendeu que a prisioneira não era ela — mas sim os homens que ali a sustinham à força e a que a sujeitavam a todos os maus-tratos possíveis. Da mesma forma, não sabe dizer exatamente qual foi o instrumento que a fez conseguir aceder ao desejo do infame Dr. Josef Mengele, a não ser o de um instinto de sobrevivência latente. “Dança para mim”, ordenou-lhe o médico, oficial das SS que ficou conhecido para a História como tendo conduzido cirurgias experimentais com os prisioneiros do campo, que provocaram a morte ou desfiguraram permanentemente muitos dos que foram usados como cobaias.

À ordem “dança para mim”, emitida depois de Mengele saber que Edith tinha formação como bailarina e ginasta, a jovem de 16 anos fechou bem os olhos — e dançou. Edith imaginou que estava a dançar, primeiro o “Danúbio Azul” e depois “Romeu e Julieta”, de Tchaikosvky. A performance valeu-lhe um pedaço de pão. Mengele tentou que Edith, a quem chamava “a minha pequena bailarina” voltasse a dançar para ele uma vez mais, desta vez sem audiência. Um dia, chama-a e leva-a para uma sala, onde ficam a sós. O médico começa por desapertar o casaco, lentamente, mas um telefone toca noutra sala e o “Anjo da Morte” sai por momentos. Edith, com uma força redobrada que não sabe de onde lhe surge, foge a correr e regressa para o campo.

Quem sabe o que teria acontecido se tivesse ficado naquele escritório?, pergunta-se ainda hoje. Certo é apenas o terror que acompanhou Edith todos os dias desde então: “Nunca me abandona, o medo de que ele me encontre novamente e me castigue, que ele termine o que começou, que me mande para a morte. Esse medo nunca desaparece”, escreveu nas suas memórias.

O legado do trauma: “Quando vejo arame farpado, estou automaticamente de novo em Auschwitz”

“Ainda hoje não sei como consegui perceber que os verdadeiros prisioneiros eram eles. Não era eu.” Edith explica assim ao Observador o lugar de paz aonde chegou, muito embora não saiba ao certo como conseguiu. “Acho que Deus me guiou para uma mudança que tornou o ódio em pena. Rezei muito. Acho que, se tivesse morrido, tinha morrido a amar o inimigo. Não sei como o fiz e não sei como percebi isso, mas digo-te: percebi.”

O que não significa, contudo, que o caminho não tenha estado cheio de pedras. Edith demorou anos a compreender o stress pós-traumático que a afligia, bem como à irmã, Magda, e a descobrir que os seus sintomas poderiam ser aliviados. O “pânico” de tocar no sabonete, por ser símbolo da entrada para os duches da morte. Os gritos de um homem que se assemelham aos de um oficial das SS. O arame farpado que automaticamente a coloca de novo em Auschwitz.

O cartão de autorização de residência de Edith nos Estados Unidos, para onde emigrou em 1949 (D.R.)

 

Esse medo acompanhou Edith em todos os lugares para onde foi. Casada entretanto com outro judeu sobrevivente, Béla Eger, o casal teve uma filha pouco depois. Mas o clima opressivo do novo regime que se construía na Checoslováquia do pós-guerra assustou-os. A família decidiu sair: preparou tudo para seguir para Israel, mas Edith acabou por preferir, à última hora, seguir para os Estados Unidos — e arrastou o marido consigo. Lá, o oceano que a separava da Europa não chegava para deixar as memórias à distância. Uma vez, ao entrar no autocarro, Edith esqueceu-se de mostrar a senha que servia como bilhete ao motorista. Os gritos dele, dizendo-lhe “pague ou saia!”, foram tão aterrorizantes que Edith entrou em pânico, transportada de novo para Auschwitz, incapaz de lidar com uma simples situação de conflito banal do dia-a-dia.

“Lembro-me todos os dias”, garante, olhando agora para trás. “Quando vejo arame farpado, estou automaticamente em Auschwitz de novo. Só que agora é um momento passageiro, não fico presa naquilo. Não ultrapassei, não esqueci, mas estou em paz.”

A chegada aos Estados Unidos foi tão difícil para Edith como para milhares de outros emigrantes judeus. “Chegámos à América em 1949. A minha filha tinha dois anos e eu não tinha um tostão no bolso. Comecei a trabalhar numa fábrica e a minha filha foi para a escola. Foi ela que me ensinou a falar inglês, como costuma acontecer com os imigrantes. Foi ela quem me deu a conhecer manteiga de amendoim e tantas outras coisas de que eu nunca tinha ouvido falar”, recorda.

Edith e o marido, Béla, com a filha mais velha enquanto bebé (D.R.)

 

Com o marido a sofrer de tuberculose, recaiu sobre os ombros de Edith o sustento mais regular da família, trabalhando numa fábrica de têxteis. Todos os dias, repetia os gestos mecânicos da linha de montagem, cortando fios em boxers de rapazes. A experiência levá-la-ia a aperceber-se de uma outra realidade: a de que, na fábrica onde trabalhava, havia duas casas de banho diferentes para mulheres brancas e negras. “Foi aí que entendi que, na América, os negros não tinham os mesmos privilégios”, resume. E Edith, apesar de ser apenas uma imigrante pobre, com um inglês limitado, decidiu que não podia aceitar aquilo: “Quis descobrir a História deles e juntei-me à NAACP [National Association for the Advancement of Colored People, associação de defesa dos direitos civis dos afro-americanos] e marchei com Martin Luther King. Quis fazer algo, mesmo com as minhas capacidades limitadas, para os ajudar a descobrir que podemos, no futuro, vir a ter o fim do ódio e do preconceito.”

A bisavó “GG Baby”, que dança e trabalha todas as semanas, deixou de fugir do passado

Era uma primeira centelha do desejo de Edith de fazer parte de algo maior, de poder contribuir para ajudar os outros. À beira dos 40, decidiu que iria voltar a estudar e, 20 anos depois de ter chegado aos Estados Unidos, licenciou-se em Psicologia. Desde então, tem ajudado centenas de pacientes — muitos deles soldados, vítimas de stress pós-traumático como ela — bem como participado em vários projetos com crianças e jovens. “O meu objetivo é que eles entendam que podem trabalhar juntos num projeto e não acharem que uns são melhores do que outros”, afirma. “Tento muito trabalhar com os meus pacientes para que as vítimas de ontem não se tornem nos opressores de hoje, que é algo que pode acontecer muito. Podemos impedir que isto aconteça, podemos conseguir que haja mudanças de geração para geração.”

Edith Eger tem atualmente 91 anos e continua a trabalhar com regularidade como psicóloga. Trabalha frequentemente com vítimas de stress pós-traumático, muitas vezes soldados (Paul Barnett)

 

Para isso, Edith teve, ela própria, de confrontar os seus fantasmas, como conta na sua obra, que funciona em parte como manual de ajuda para outros. Durante anos, fugiu do que a atormentava, escondeu dos seus filhos que era uma sobrevivente dos campos da morte e tentou enterrar o passado lá atrás. Mas ele espreitava sempre. Na reação ao arame farpado ou aos gritos, por exemplo. Mas também no facto de Edith e o marido comprarem sempre comida a mais para ter na dispensa, ao mesmo tempo que não conseguiam desperdiçar comida e deixar uma migalha que fosse no prato.

“Guardei segredo, mas o segredo acabou por engolir-me. Costumo dizer às pessoas que aquilo que sai do nosso corpo não nos faz adoecer, mas o que fica lá dentro pode fazê-lo. O oposto de depressão é expressão, é deitar as coisas cá para fora. Mas não quero que tenham pena de mim”, sentencia. “Infelizmente, andei a fugir do passado, à espera que ele desaparecesse, mas não desaparece. Podemos fugir, mas não nos podemos esconder.”

É isso que tenta transmitir aos seus pacientes, que atende quase diariamente. Aos 91 anos, pretende continuar a trabalhar até que o corpo ou a mente não permitam mais. “Acho que Deus me deu um dom e seria um pecado não o utilizar”, começa por dizer. “Mas eu sinto-me tão jovem, não quero saber da idade, é um número. Sinto-me mais jovem do que me sentia há alguns anos”, revela, partilhando entre risos a alcunha de “GG Baby” que lhe foi dada pelo seu bisneto — “GG” é abreviatura de “Great-Grandmother”, bisavó em inglês. Um nome apropriado para uma bisavó que, para descontrair, ainda vai a aulas de danças de salão.

Edith (à direita) com a irmã Magda, com quem esteve em Auschwitz (JORDAN ENGLE)

 

Essa leveza só surgiu porque Edith, quando tinha 53 anos, tomou a decisão de regressar a Auschwitz para um encontro com o passado. O acontecimento revelar-se-ia fulcral para que a psicóloga conseguisse sarar as feridas dos traumas deixados. “Até regressar a Auschwitz, tive sempre um sentimento de culpa por ter sobrevivido”, explica. Em parte, esse sentimento de culpa esteve também associado à morte da mãe, levada por Mengele para a fila das câmaras de gás assim que chegou a Auschwitz, depois do médico ter perguntado a Edith se ela era sua mãe ou irmã. Edith respondeu com a verdade. Durante anos, sentiu sempre que carregava o segredo de ter enviado a mãe para a morte — e só depois de ter confrontado esse peso, diretamente no mesmo lugar, conseguiu pôr as coisas em perspetiva.

“É muito importante revisitar os lugares e revivermos a experiência. Mas não ficarmos presos nela. A Bíblia fala nesta ideia, a de ‘atravessar os vales tenebrosos’. Mas rejeito ser uma vítima — eu fui vitimizada, isto foi-me infligido, mas não me define, não é quem eu sou. Tenho uma história, mas eu não sou a minha história.” Para entender isso, Edith precisou de ver as mesmas camaratas esquálidas onde dormiu e as mesmas câmaras de gás que pairavam como ameaça ao longe. “Foi importante ver o sítio onde dancei para o Dr. Mengele. Ir ao covil do leão e poder olhar o leão de frente, mas não ficar presa ali”, afirma. “Muitas partes de mim ficaram lá, em Auschwitz. Mas não ficou a melhor parte de mim.”

Publicado em 22 Janeiro 2019

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