Entrevista a Mário Cordeiro autor de Príncipes da Medicina no Diário de Notícias

Pediatra de formação, escritor por paixão. No seu último livro Príncipes da Medicina, Mário Cordeiro conta a história de quase cem médicos que foram muitas outras coisas. Descobriu curiosidades e fala de forma apaixonada destes heróis de carne e osso que marcaram a humanidade

No Príncipes da Medicina abordou quase cem personalidades médicas. Porquê estas?
Há três anos escrevi a biografia do meu avô que era médico... também está no livro. Fiz a pesquisa, achei interessante e foi o culminar de um processo de
considerar que é importante que as pessoas, no geral, e os médicos, em particular, sejam bastante completas. Não é obrigatório todos interessarem-se por tudo,
mas acho que as pessoas que se interessam por várias coisas tornam-se mais completas. Isto levou-me a fazer uma pesquisa mais ampla. O critério de escolha foram pessoas que já tivessem falecido. São figuras de referência das várias fontes onde procurei informação.


O seu avô foi a inspiração.
Foi a primeira biografia que escrevi, porque era uma pessoa multifacetada. Daí o interesse e escolhi médicos porque é um mundo que conheço melhor. Comecei no antigo Egito com Imhotep, um homem que era tudo: médico, sacerdote, arquiteto, responsável pela construção das pirâmides. Fui por aí fora em termos cronológicos até chegar ao vereador da cultura da câmara Municipal do Porto, Paulo Cunha e Silva.

Que curiosidades descobriu?
Por exemplo, como em Tchékhov ou Michael Crichton o terem sido médicos influenciou as suas obras. Achei muita graça como estas pessoas se integravam: alguns foram discípulos de outros, contemporâneos, amigos. A larga maioria não teve vidas fáceis. Garcia de Orta, quando a Inquisição percebeu que era judeu - já tinha morrido e estava na Índia - mandou desenterrar os ossos para os queimar num auto--de-fé. Reparei num espírito de intolerância da sociedade, da igreja e sempre uma desconfiança mesmo dos pares em relação às descobertas e as coisas que os outros iam fazendo. Depois há casos curiosos como os de Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete que coseram a primeira bandeira da República. Beatriz Ângelo foi a primeira portuguesa a votar. Colocaram muitos entraves, mas a lei estava feita de uma maneira que não a podiam impedir: era chefe de família, o sustento e tinha um curso superior. A República, que era supostamente revolucionária, acrescentou à lei sexo masculino para evitar outras Carolinas.

Tem aqui heróis para si?
Há exemplos, sobretudo. São heróis porque colocaram a vida em risco para defender ideais. Vesalius, pai da cirurgia, arriscou-se porque a igreja proibia a dissecação de cadáveres e andava pelos cemitérios de Paris a roubar cadáveres para poder estudá-los, acompanhado de Miguel Ângelo que ia estudando a parte estética do corpo humano. Houve pessoas que arriscaram muito. Foram médicos que exerceram em tempos diferentes, mas sempre com a ideia de servir o outro e minorar o sofrimento.

Quem são os seus heróis?
O meu avô por razões óbvias. Mas há muitos. Hipócrates pela democratização da medicina, Garcia de Orta é exemplo de persistência, Van Leeuwenhoek que foi questionado porque se atreveu a dizer que numa gota de água existiam bichos. Joseph-Ignace Guillotin, que inventou a guilhotina para abreviar o sofrimento dos condenados e foi um dos que mais defendeu a vacinação. Virchow que investigou o tifo e quando lhe pediram o relatório médico disse que eram precisas melhores condições sociais, de habitação, coisas que hoje podiam ser um programa do governo. Sousa Martins, que muitos pensam que era um curandeiro, foi para a serra da Estrela estudar as águas. Foi adorado porque era um médico que estava junto dos mais pobres. Freud é também um dos meus grandes heróis. Estudou arqueologia e neurologia, juntou as duas e descobriu que dentro de nós havia que fazer uma escavação para chegar à essência e interpretar o que fosse encontrado.

Quem eram os seus heróis de infância?
A minha infância é muito do tempo da banda desenhada, do Tim Tim, Astérix, os Cinco e os Sete, o Mosquito, o Cavaleiro Andante... O Major Alvega, um aviador luso britânico da Segunda Guerra Mundial. Ainda me lembro do nome completo: Jaime Eduardo de Cook e Alvega. Ganhava sempre, batia alemães em grandes lutas. Era espantoso. Eram heróis, mas a vida não é assim. Faltava a parte de como construir o heroísmo. Estes heróis do livro são heróis que têm vidas com muitas oposições.

Se pudesse conversar com um destes médicos quem escolheria?
Não conseguiria escolher um. Ao conhecer a vida deles acabei por travar conversas com eles e ensinaram-me várias coisas. Tinham em comum o inconformismo. A história de Alexander Fleming que descobriu a penicilina por acaso é extraordinária. Foi de férias e como era ultradesarrumado - senti-me um bocado irmanado -, esqueceu-se uma série de placas onde estavam bactérias a cultivar. Quando voltou e as foi arrumar, reparou que em algumas zonas não tinham crescido bactérias mas sim um fungo.

Faltam heróis às crianças?
Acho que os primeiros heróis de todas as crianças são os pais. Depois vai-se verificando que são humanos, que reagem, têm os seus defeitos. Depois devem existir heróis de ficção que dão noção de altruísmo, empatia, que não são totalmente perfeitos, o que os torna humanos e não deuses. Precisamos em todas as sociedades de ter figuras de referência. Pessoas corajosas, que têm as suas ideias e que muitas vezes e em muitos sítios podem pagar com a vida por as dizerem. Isto admiro muito, porque nós vivemos num país onde podemos dizer as coisas.

No livro critica os médicos que pensam que são deuses e não têm em conta a vontade do doente.
Pode haver uma tendência para os médicos se considerarem deuses. Todos sentimos quando se entra num hospital que a morte pode ser uma consequência e que ultrapassámos a nossa capacidade de resposta. Confiamos no médico sem o conhecer. Simultaneamente o médico domina o espaço e o jargão médico que se usa. Dizer cefaleias em vez de dores de cabeça... não vejo razão para isso. Os artigos médicos que são feitos não usam linguagem coloquial, no fundo para manter um código secreto que só alguns privilegiados sabem. E depois o médico tem o poder de saber o que o outro não sabe de si próprio. Julgo que a maioria dos médicos já não tem esta postura e que a maioria das pessoas já tem uma cultura de serem parceiros da saúde e não pedintes da saúde. O médico tem de transmitir sabedoria e não só informação.

Quais são os grandes desafios da medicina?
Tentar que o ensino seja menos espartilhado. Ensina-se a doença de cada órgão e pergunto onde está o indivíduo? Deve haver um ensino da medicina que permita estudar o ser humano em todas as sua componentes e no seu ecossistema. Por outro lado, avançarmos cada vez mais na evolução tecnológica, mas pensarmos bem onde usá-la. Vai ser preciso um grande investimento na prevenção, estudar qual o impacto da poluição e um dos grandes desafios será proporcionar às pessoas conhecimento para que elas façam a opção, de preferência a correta.

Publicado em 6 Maio 2016

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