Entrevista com Pedro Almeida Vieira autor de Assim se Pariu o Brasil

Nem sempre o sentido de humor está associado à História. Os historiadores são muito sisudos e ciosos dos seus factos e documentos – ou, pelo menos, é essa a imagem que se retira não só dos historiadores, como dos intelectuais na sua generalidade. Aquando da concepção de Assim Se Pariu o Brasil, sempre soube que iria manter uma linha algo jocosa no livro?
Em teoria, sendo o humor um olhar subjectivo com doses de jocosidade sobre uma realidade, supostamente perde-se a seriedade e objectividade que os historiadores pretendem transmitir nos seus ensaios. Não tenho a mesma opinião, embora compreenda a atitude dos historiadores. Com o humor, com uma visão sarcástica ou irónica de acontecimentos históricos, sendo que alguns são de uma extrema violência, podemos suavizar a relutância de muitos leitores para estes assuntos. Porém, nunca foi minha intenção escrever um ensaio histórico, mas sim relatar episódios que nos ajudem a compreender melhor a formação do Brasil, em alguns casos aproveitando pormenores que nos fazem agora rir ou sorrir. No entanto, isto não significa que eu tenha sido ligeiro na investigação: procurei sempre o máximo rigor histórico, embora ressalve que nem sempre a História que nos chegou conte a realidade. Em muitos casos foi escrita pelos vencedores, relatando apenas a sua perspectiva; noutros acabou sendo reescrita. Criaram-se mitos, mantiveram-se ou criaram-se imprecisões. Há lugar assim para interpretações e para a especulação, que podem ser exercícios fascinantes.

Recorreu aos autores da época e aos estudiosos mais recentes para criar um relato que, além de convincente no que toca à consolidação dos factos com a complexidade narrativa, é também muito rico e diversificado em termos da prosa e do vocabulário, tornando-se deliciosa a sua leitura. Assim Se Pariu o Brasil foi um parto difícil?
Nunca se deve dizer que um livro foi um parto demasiado fácil nem demasiado difícil. Se se diz que foi fácil, soa a pretensiosismo e muitos leitores relativizam o trabalho; se se diz que foi difícil, também revela algum pretensiosismo e, na verdade, nunca gosto de ver avaliada a qualidade de um livro pelo grau de dificuldade ou pelo tempo de escrita. Posso apenas dizer que, em todos os livros que escrevi (e já vão mais de uma dezena), fi co depois a olhar para cada um deles como se duvidasse ter sido eu a escrevê-los. Cada um deles condensa muitas emoções, cansaços, alegrias, dúvidas que quase nunca ficam expressas no texto.

Crê haver ainda assuntos por resolver no Brasil de hoje, quanto à sua história e identidade?
Falando com muitos amigos brasileiros, grande parte dos quais da área da cultura, sempre notei genericamente um grande desconhecimento da História do Brasil anterior à colonização. E o «problema» começa aí. Eles têm genericamente ideias desgarradas sobre esse período, muitas completamente erradas ou desvirtuadas. Por exemplo, um caso paradigmático esteve no discurso há cerca de dois anos do escritor brasileiro Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt. Começava por dizer que o Brasil nasceu «sob a égide do genocídio», e que se tinha passado de quatro milhões de índios em 1500 para os actuais cerca de 900 mil. Não sei onde ele foi desenterrar esse número: é uma fi cção porque obviamente nunca existiu uma estatística nessas épocas. E aliás, todos os povos, em abono da verdade, nasceram sob a égide do genocídio; infelizmente, essa é a natureza humana.
Os portugueses resultaram de semelhantes fenómenos: os iberos não se cruzaram com os celtas sem sangue; os romanos não vieram cá em passeio, nem os árabes invadiram a Península Ibérica a cantar modinhas, nem depois a reconquista cristã com godos e visigodos à mistura se fez com cumprimentos. E depois nunca pararam as violências.
Em território brasileiro, os povos indígenas já se guerreavam antes da chegada dos portugueses ou dos europeus. E muitas tribos aliaram-se a portugueses para atacarem outras tribos, tal como se aliaram a outros estrangeiros para atacarem portugueses. E houve até tropas negras ou indígenas que orgulhosamente lutavam ao lado dos portugueses. Sobre a miscigenação também o discurso de Luiz Ruffato denotava um desconhecimento enorme sobre o passado e sobre a postura dos portugueses. Em Frankfurt, ele disse que essa miscigenação se «deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos». Assim terá sido, mas também sabemos que, durante séculos, as condições das mulheres eram terrivelmente más mesmo nas sociedades ocidentais e na população branca. E, além disso, não gosto de generalizações. Até porque assim lá teria de contrapor com um caso curioso: a mãe do grande Machado de Assis era branca e o pai foi negro ou mestiço.
Enfim, não estou aqui a minimizar o que sucedeu nem a desculpar aquilo que os portugueses  fizeram no Brasil. Estou apenas a dizer que o estudo da História tem-me levado a concluir que não podemos analisar de uma forma simples os actos dos nossos antepassados. É evidente que houve violências sem fi m no Brasil Colonial, mas não podemos mudar o passado, ponto  final. O conhecimento do passado serve-nos sobretudo, e não é nada pouco, para evitar repetir erros e violências.
Penso que os brasileiros ainda não conseguiram arrumar bem o seu passado: tanto podem elogiar um bandeirante como um indígena ou um escravo africano, que eram antagonistas. Chegam mesmo a colocar no seu panteão como heróis algumas pessoas que não combatiam os portugueses com objectivos de independência; queriam apenas viver as suas vidas sem ser subjugados por um poder estranho, fosse ele de Portugal ou de um Estado chamado Brasil. E, por outro lado, em Portugal também há um enorme desconhecimento sobre a História do Brasil, e a sua importância como motor da economia nacional durante largos séculos. O Brasil foi a sorte grande, depois desbaratada, de Portugal ao longo de grande parte dos séculos XVII e XVIII. E foi talvez a nossa garantia para evitar a perda da nacionalidade durante as invasões napoleónicas.


É evidente que grande parte das leis é promulgada ou anulada conforme as predisposições macroeconómicas. Assim foi, por exemplo, com o fim da escravatura em Portugal. Sempre foi assim desde o início – a economia a dominar tudo?
O dinheiro, a fé e o poder terreno foram sempre, por regra, o motor das demandas dos povos. Sobre isto não há muitas diferenças entre o presente e o passado. Talvez no mundo ocidental, que se tornou mais laico, a religião tenha perdido a sua força, mas a sede de dinheiro e de poder acaba por determinar quem domina e quem é dominado.

Portugal foi Brasil ou Brasil foi Portugal? Houve, desde logo, distinção demarcada entre a colónia e a metrópole, ou o Brasil foi, durante algum período, apenas um apêndice tropical de Portugal?
O Brasil foi sempre olhado como um local ora classificado como um Éden ora como um Inferno. Não tinha nada a ver com a realidade portuguesa. E penso que quem para lá ia – e muitos foram contrariados, até que surgiu a corrida ao ouro –, rapidamente mudava o seu comportamento. Talvez pela ausência de um rei, pela inexistência de um poder autoritário forte, o Brasil tornou-se uma colónia em que a lei do mais forte, mais do que outro factor, ditava as regras. Daí ter sido uma colónia portuguesa muito mais violenta do que o Portugal europeu.
Mas também mais empreendedor, mais livre, talvez também mais libertário, porque a acção da Igreja (e da Inquisição) não se fazia sentir tanto como em Portugal. Analisando a sua História, acho que o Brasil não seria aquilo que conhecemos hoje se tivesse sido colonizado por outro povo europeu que não o português. Aliás, há uma franja de brasileiros que hoje até lamenta que a colonização pernambucana dos holandeses durante algumas décadas do século XVII não tenha perdurado.
Para esses talvez seja importante ressalvar que o apartheid nasceu da cabeça de descendentes de holandeses na África do Sul. E em relação aos portugueses, honra nos seja feita: na hora de cruzar corpos, nunca houve segregações.

Há uma dualidade no livro: imagem e texto. Mito e palavra. Paisagem e personagem. As ilustrações de Enio Squeff oferecem um caleidoscópio de retratos e imagens que acompanham o seu texto, exuberante e conhecedor. Como surgiu a sua colaboração com o ilustrador Enio Squeff?
Conheci o Enio Squeff há cerca de cinco anos em casa de amigos comuns em Lisboa. Houve logo uma grande empatia, apesar da grande diferença de idades. Ofereci-lhe na altura dois dos meus romances e ele teve a gentileza de mos devolver... completamente ilustrados nas próprias páginas. Mantivemos contacto, sobretudo por telefone e Internet, e foi com naturalidade, conhecendo-lhe o traço e a sua interpretação aos meus textos, que começámos a colaborar. Até agora ele já ilustrou dois dos meus romances e mais dois livros de não-ficção sobre crimes históricos em Portugal. Quando surgiu a ideia de escrever o Assim se Pariu o Brasil, até pela temática, pareceu-me mais do que óbvia a necessidade de o livro ter as suas ilustrações.

Há alguma personagem histórica (ou personagens) que, no seu entender, tanto portugueses como brasileiros deveriam conhecer a fundo?
Talvez D. João VI e o seu filho Pedro, que se tornaria o primeiro imperador do Brasil. A importância de D. João VI é muito menosprezada em Portugal, visto quase como um bobo no Brasil, muito por se considerar a sua saída de Portugal, aquando as invasões napoleónicas, uma fuga. Não foi, minha opinião, e acontecimentos que relato em dois dos episódios do livro demonstram que era um bom estratega. Porventura, sem a presença de D. João VI e do seu fi lho no Brasil, durante aquele longo período do início do século XX, muito provavelmente não haveria um Brasil mas países de expressão lusófona. Sem ele, o Brasil ter-se-ia desmembrado espanholas nas Américas. E com banhos de sangue. Ora, como se sabe, embora tenham ocorrido algumas escaramuças, e com um número significativo de mortes, a independência brasileira foi relativamente pacífica se compararmos com o que sucedeu com os seus vizinhos sul-americanos.


Tivemos e temos grandes historiadores portugueses e há cada vez mais romances históricos a serem editados em Portugal. Acha que os portugueses sabem mais de História ou ainda há, pelo contrário, muitas lacunas a colmatar?
Sinceramente, não lhe sei responder a esta questão sem estar a especular. Posso apenas dizer que os romances históricos não devem ter, como fi to, ensinar História. Podem sim abrir portas para um olhar sobre o nosso passado, desde que sejam bem escritos e com rigor. Nem sempre isso acontece, e facilmente encontramos incongruências, erros históricos clamorosos e até anacronismos.

Se fosse anfitrião de um jantar e pudesse convidar cinco pessoas de qualquer ponto cronológico, mortas ou vivas, quem convidaria e porquê?
Haveria uma «constelação» de personagens que gostaria de convidar para um jantar, e tantas são que, como tenho «esperança» de que aceitem, não vou relevar porque escolho os cinco primeiros, pois não desejo «melindrar» os seguintes, que por capricho poderiam depois recusar. Nesta primeira «leva» convidaria o infante D. Henrique, o humanista Francisco d’Olanda, o poeta Luís de Camões, o padre António Vieira e o rei D. João V.

Que mensagem tem para os seus futuros leitores?
Leiam e vivam. Não necessariamente por esta ordem.

Publicado em 9 Novembro 2015

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