Entrevista de Oprah Winfrey a Sue Monk Kidd

Eis o que torna A Invenção das Asas extraordinário – e porque estou tão entusiasmada em anunciá-lo como o terceiro livro para o renovado Oprah Book Club 2.0: Sue Monk Kidd escreveu um livro revolucionário. É impossível ler este livro e não começarmos a pensar de forma diferente sobre o nosso estatuto como mulheres e em todas as heroínas cujas histórias não foram contadas, mas que desempenharam um papel fulcral em trazer-nos até aqui.
O romance narra a história de quatro mulheres de Charleston, Carolina do Sul – duas irmãs da próspera família Grimké e uma mãe e filha afro-americanas que são escravas da casa Grimké. As quatro partilham um obstinado desejo de se tornarem livres: Sarah e Angelina Grimké das restrições impostas às mulheres no século XIX, e Hetty e a sua mãe Charlotte das grilhetas da escravatura.
Apesar de ser ficção, as irmãs Grimké foram de facto mulheres abolicionistas cujas históricas fascinaram Kidd. Também inspirada na vida real é Hetty – a sua personagem é fenomenal.
Aprofundou ainda mais a minha compreensão sobre o que é ser uma escrava doméstica e o que se sente na alma ao lutarmos pela liberdade e dignidade. Kidd foi levada a contar a história de Hetty porque ela própria procura algo que a leve a relacionar-se mais intimamente com o mundo. Cresceu numa altura em que as mulheres eram pressionadas a seguir um rumo tradicional, e ela acabou por fazer isso: casou-se, tornou-se enfermeira, teve dois fi lhos. Contudo, tinha também conhecimento dos movimentos de sufragistas e da luta pelos direitos civis, que não só moldaram a sua voz interior mas que, em algum ponto, lhe ditaram que a escrita era algo para o qual estava destinada. Aos 30 anos, Kidd anunciou ao marido a sua intenção: tornar-se escritora. Para alcançar esse objetivo, chamou o seu “pequeno génio que é a fonte da vida criativa. Penso que todos temos um.”
Durante mais de 20 anos, Kidd publicou inúmeros livros de não-ficção e escreveu artigos; terminou o seu primeiro romance, A Vida Secreta das Abelhas, aos 53 anos, há 12 anos. Estava ansiosa por lhe dizer o quão feliz e orgulhosa estou por ela ter encontrado a sua própria voz e qual o impacto que este novo livro teve na minha vida.


Oprah: Sabe que adoro um livro bem escrito – A Invenção das Asas relata uma história maravilhosa. O que tinham as irmãs Grimké de tão inspirador?

Sue Monk Kidd: Sinto-me sempre cativada por histórias de mulheres que encontram uma forma de ser ousadas ou desobedientes e destemidas. As irmãs Grimké arrebataram-me o coração. Senti que a sua história me caberia a mim contar.

OW: Como se cruzou com a história delas?

SMK: Em 2007 fui ao Brooklyn Museum a uma exposição de Judy Chicago The Dinner Party. Havia lá uma galeria de mulheres – uma lista de 999 mulheres que contribuiram significativamente para a História, e lá estavam contempladas estas duas irmãs de Charleston, as Grimké. Eu residia em Charleston na altura e nunca tinha ouvido falar delas, mas depois de ler sobre elas na exposição pensei «Deveriam ser tão conhecidas como Elizabeth Cady Stanton e Susan B. Anthony.»

OW: Que interessante – também nunca tinha ouvido falar delas. Estava naquela altura em busca de um tema para tratar no próximo livro?

SMK: Eu não vou em busca de ideias – deixo antes que estas me encontrem. Assim, não estava especificamente à procura de um romance para escrever, mas as minhas antenas estão sempre alerta. E quanto mais lia sobre as Grimké, mais elas me espantavam. Foram pioneiras no abolicionismo e ativistas dos direitos das mulheres, sacrifi cando imenso pelas causas que defendiam – as suas relações com a família, a sua posição social.

OW: E Hetty?

SMK: Sabia, ao ler a história de Sarah Grimké, que lhe tinha sido oferecida uma aia como escrava pessoal e que o seu nome era Hetty. O único outro facto do qual tinha conhecimento era que Sarah a tinha ensinado a ler: conspiraram de uma maneira muito subversiva, ao trancarem a porta e taparem o buraco da fechadura.

OW: Porque era ilegal os escravos saberem ler…

SMK: Sim.

OW: O que me fascina no romance é que, de uma forma imaginativa e persuasiva, consegue permitir-nos ver o estatuto dos direitos das mulheres – não há muito tempo, as mulheres eram apenas propriedade. Lembrando-me de uma conferência que dei a estudantes do Barnard College em 2012 com Gloria Steinem, pensei «É fantástico o quão longe chegámos.»

SMK: Sim, e claro, era muito pior para mulheres escravas – mas mesmo para mulheres brancas dos EUA foi um tempo atroz do qual ninguém gosta de se lembrar.

OW: Faz uma distinção, com Hetty, entre escravatura doméstica e o mundo da escravatura estado-unidense com o qual os leitores estão mais familiarizados. O que tentou expressar ao criar esta distinção?

SMK: Os leitores estão mais familiarizados com a narrativa da apanha do algodão, as senzalas e os mestres ou senhores das senzalas. Pensei que seria importante sublinhar que estamos a abordar algo diferente neste livro.

OW: Isso é algo que me é conhecido – a minha mãe foi criada doméstica, a sua mãe foi criada doméstica, a sua mãe foi criada doméstica, e a sua mãe foi escrava. Vemos com as irmãs Grimké que durante algum tempo elas estão muito próximas dos trabalhadores domésticos em sua casa – como em As Serviçais. Esses criados e servos são considerados membros da família – mas como as criadas diriam, «sim, somos membros da família, mas ainda entramos ou saímos pela porta das traseiras.» Ainda hoje algumas destas criadas são tratadas como escravas domésticas.

SMK: Ainda não acabámos com o legado da escravatura ou erradicámos o preconceito das relações de género, daí que estes assuntos sejam ainda relevantes.  

OW: Houve dificuldades ao escrever um romance histórico?

SMK: Tive de fazer um enorme trabalho de pesquisa e investigação, porque queria fazê-lo da maneira correta. Passei um ano a ler – histórias ou memórias de escravos, autores que escreveram sobre a escravatura e consequente abolição, História do século XIX. Tinha frases e citações nas paredes da escadaria que levavam ao meu escritório, e todos os dias eu lia as frases antes de me dedicar à escrita. 

OW: Estavam escritas na parede? Também quero fazer isso! 

SMK: A primeira era «Uma mulher deve ter dinheiro e um quarto para si se vai escrever ficção» – claro que aqui é Virginia Woolf. A segunda era de Cynthia Ozick, que chamou à escrita «um ato de coragem.» Isso foi sempre verdade para mim. Não me lembro de alguma altura da minha vida em que não desejei ser escritora. 

OW: Iniciou a sua vida profissional como enfermeira – o que é uma vocação honrosa. 

SMK: Fui uma enfermeira muito boa, mas esgotei-me depois de oito anos ou assim, porque não era exatamente aquilo a que me queria dedicar. É ao ofício da escrita a que pertenço.

OW: A que pertence – adoro isso! Ambas as irmãs Grimké e Hetty procuram ser livres, mas de maneiras diferentes. É daí que vem o título do livro? 

SMK: Interessava-me como as minhas personagens poderiam inventar a sua liberdade, as suas próprias vozes no mundo – as suas asas.

OW: Quando me separei do livro, senti uma tal empatia, gratidão e compreensão do caminho que foi desbravado por mim, enquanto mulher afro-americana, filha de uma criada, trineta de uma escrava e enquanto mulher da cultura contemporânea dos EUA. Tanto A Invenção das Asas como A Vida Secreta das Abelhas são explorações de relações étnicas. O que inspira o seu interesse por este tema? 

SMK: Vem do fundo do meu coração – é também a minha história. Eu era uma criança nos anos 50, vivia numa pequena cidade na Geórgia. Eu consigo sentir as vozes de todos aqueles que ansiavam ser ouvidos e deixar a sua marca dizendo «Eu existi.» 

OW: Fizemos alguma cura desde então, mas ainda temos mais a fazer. A Invenção das Asas é uma porta aberta, um convite para nos vermos a nós próprios e a nossa história de uma forma que nos permita curarmo-nos ainda mais. Obrigada.
Publicado em 18 Junho 2015

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