Este é o Reino de Portugal - Crítica de Beja Santos

Há mais livros do que se pensa quanto a relatos de estrangeiros que visitaram Portugal. Como se pode imaginar, há opiniões contraditórias, há críticas demolidoras onde se fala de obscurantismo, autos de fé, preguiça, velhacaria e o mais que se sabe; há laudes à brandura de costumes, à afabilidade e ao clima português. O que distingue “Este é o Reino de Portugal”, de José Brandão, Saída de Emergência, 2013 é o labor de pesquisa que se irá saldar numa síntese elucidativa de alguns dos mais relevantes relatos de viagens a Portugal. O trabalho de investigação inclui contextos históricos da cena internacional e nacional. Quem são estes viajantes? Condenados como Charles Dellon, que chega a Lisboa em dezembro de 1676 carregado de ferros e condenado pela Inquisição de Goa; Anne Morrison, mulher de Sir Richard Fanshawe, embaixador de Carlos II de Inglaterra, e que não se cansa de mostrar admiração com o tratamento que lhe é dado pela corte; François de Tours, pregador capuchinho e andarilho, relata as suas andanças por Espanha e Portugal nos anos de 1699-1700… há militares, médicos naturalistas, espiões ou agentes secretos, há descrições de anónimos, diplomatas de vária categoria, aventureiros, há de tudo.

De um modo geral, Lisboa extasia-os pela amenidade, mas logo confessam horror às imundícies e à sujidade e à insegurança; registam, por vezes com assombro, o estadão e a prosápia da pequena aristocracia e da classe burguesa. O enclausurado Charles Dellon, que chega aterrorizado a Lisboa e à espera do pior não deixa de escrever sobre a capital: “Não é tão grande como Paris, mas é proporcionalmente povoada, excetuando esta primeira cidade de França, não há outra que a iguale em grandiosidade (…) As igrejas de Lisboa são de uma grande magnificência; a catedral, que na língua do país é chamada Sé, é de uma beleza surpreendente. A igreja da Misericórdia é uma das mais notáveis de Lisboa. A igreja a que chamam de Madre de Deus é também digna de nota por causa do Santo Sudário que ali se conserva, sendo apenas exposto em Quinta-feira Santa”. Compreensivelmente, falou do que encontrou na prisão da Galé: “Os forçados que cometem qualquer falta são açoitados cruelmente; deitam-nos no chão, de barriga para baixo, e enquanto dois homens os agarram, um terceiro açoita-os com uma corda grosas ensebada, que a maior parte das vezes arranca a pele e pedaços de carne”.

A embaixatriz de Carlos II surpreende-se com o aparato e o fausto da receção ao embaixador seu marido em Lisboa: “Assim que o meu marido desembarcou, entrou no coche do rei com o fidalgo que o tinha ido esperar. À frente dele ia o cônsul inglês, com todos os negociantes; à direita quatro pajens; à esquerda do coche, junto da cabeça dos cavalos, seguiam oito lacaios todos vestidos com ricas librés. No coche que se seguia iam os fidalgos do meu marido. Foram assim até à casa onde o meu marido estava instalado. O rei ofereceu-lhe três ceias e três jantares com uma grande abundância de iguarias de todos os géneros e com toda a espécie de utensílios adequados”.

Charles Frédéric de Merveilleux, foi médico naturalista que serviu esporadicamente ao rei de Portugal, D. João V. Deixou-nos páginas entusiasmadas, era um grande observador e disso nos dá conta: “Quando se monta casa própria, tem de se tomar ao serviço um desses galegos que acumulam as funções de criados, cozinheiros e moços de fretes e que, com um burrinho comprado adrede, vai às compras ao mercado e transporta a água necessária aos gastos da casa (…) O forasteiro que chega a Lisboa tem de entrar com o pé direito. Se, por exemplo, é negociante, deve frequentar boas casas e não se acanalhar. Sobretudo deve manter oculta a situação dos seus negócios e não revelar os interesses que o levaram a Portugal. Depois da casa, deverá arranjar uma liteira, que é o meio de transporte usual e, quanto a mulas, pode aluga-las formosas ou comprá-las medíocres numa feira”.

Há uma descrição de um anónimo sobre a cidade de Lisboa que possui grande importância, sobretudo a partir da última quadra do século XIX tornou-se verdadeiramente prestante pelas informações que fornecia sobre a Lisboa desaparecida com o cataclismo. Larga e proveitosamente se utilizaram dele Camilo Castelo Branco, Júlio de Castilho, Maria Amália Vaz de Carvalho e Gustavo de Matos Sequeira. Demos-lhe a palavra: “Lisboa não possui nenhum passeio nem outros divertimentos a não ser uma má comédia espanhola. Os grandes e os fidalgos, não obstante a sua má qualidade, frequentam muito este espetáculo e ao sair dali vão gastar o resto do dia a passear nos seus coches e cadeirinhas na Praça do Rossio, onde até à noite conversam uns com os outros sem saírem das suas carruagens. O clima de Lisboa é delicioso e chega a parecer que aqui se vive numa permanente primavera. O céu é belo, sempre sereno, e no verão o calor é temperado pelo vento nordeste que ali sopra quase sem interrupção.

Giuseppe Baretti foi um dos primeiros estrangeiros a visitar Lisboa após o sismo de 1755. Revela-se surpreendido com a existência de uma grande quantidade de africanos de ambos os sexos. Fala das touradas horrorizado: “Não é possível negar que uma tourada, para quem a vê pela primeira vez, seja coisa de encher de pasmo. Asseguro-vos, porém, que dão darei mais um ceitil para assistir a outra, pois muito me escandalizou ver tantos cristãos, e especialmente tantos padres, contemplarem um divertimento de tanta crueldade justamente no dia santo de domingo”. Considera a tourada uma festa cruel em que o animal era trucidado a golpes de espada, o touro levado num carro de mulas e os espetadores em festa.

Com a Revolução Francesa, J. B. F. Carrère, médico, veio para Portugal em 1795. Deixou-nos um relato minucioso e nem sempre amável: “Portugal, em relação às outras nações europeias, está atrasado mais de um século, conservando ainda os seus antigos usos e costumes. Os costumes aparentam ser mansos, mas, na realidade, são agressivos; os espíritos parecem tranquilos, moderados, e, no entanto, as paixões são violentas. Os portugueses parecem amáveis, mas nas suas amabilidades não vão além das palavras. Pródigos em blandicias com os estrangeiros, não os admitem nas suas casas e assembleias. Preconceituosos acerca de si próprios, do seu país, dos seus costumes, que consideram superiores aos dos estranhos, tentam aparentar modéstia, mas o orgulho transparece no que dizem, no que fazem e em todas as suas manifestações”. E fala assim da segurança pública: “São dez horas da noite; percorro algumas ruas alumiado por um archote empunhado pelo meu lacaio e esbarro com um homem que se lamenta por acabar d ser espoliado, despojado e roubado sob a ameaça de um punhal apontado à garganta, sem meios para o socorrer, entra em casa e fico a pensar no que acabo de ver. Meia hora depois, oiço um grito lancinante, corro à janela, não vejo nada de novo; no entanto, oiço gemidos. Saio à rua e encontro já morto um homem que foi apunhalado. Todas as portas e janelas estão cerradas; rouba-se, mata-se, sem que os portugueses procurem socorrer os desgraçados agredidos”. E é impiedoso com o governo, sempre curvado às determinações frequentemente humilhantes que lhe impõem.

Esta coletânea de relatos vale pelo que vale, permite juntar dados para entender uma dada situação histórica, não serve para chegar aos dias de hoje. Mas sente-se que nos oferece uma longa duração para os nossos hábitos, tradições, mentalidades e comportamentos, e é precisamente por tudo isso que “Este é o Reino de Portugal” merece ser lido e apreciado. 

Publicado em 12 Janeiro 2015

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