Excalibur - Crítica no blogue As Leituras do Corvo

Depois da traição de Lancelote e Guinevere, tanto a posição como a determinação de Artur se encontram fragilizadas. E, cientes de que os saxões voltarão a atacar na Primavera, todos os que o rodeiam sabem que é bem provável que estejam condenados. A melhor das suas esperanças, ainda que ténue, está na invocação que Merlim prepara em Mai Dun, na qual os tesouros da Bretanha supostamente trarão os deuses de volta. Mas o ritual exige um sacrifício, um que Artur e os seus não estão dispostos a permitir. E, quando tudo termina sem que os deuses se manifestem, todos ficam a saber que apenas os homens combaterão os Saxões, e Artur conquistou uma nova inimiga. Mesmo assim, as batalhas têm de ser travadas... até à última esperança.
Rico em intrigas em enganos, feito tanto de conspirações na sombra como do triunfo das grandes batalhas, Excalibur apresenta a mesma complexidade dos livros anteriores, a mesma riqueza em pormenores e a envolvência e o fascínio de uma história que mistura tensão, acção e emoção no percurso de um conjunto de homens que, representando um povo, vivem tanto a história da Bretanha como os seus percursos pessoais. Este é o livro que conclui a história e, por isso, não surpreende que o impacto do enredo se intensifique, seguindo de grande momento em grande momento, com todas as pequenas intrigas e movimentações que conduzem de uns aos outros, até culminar num final poderosíssimo.
Ainda que a magia continue presente - e está, neste livro mais que em qualquer dos anteriores - , são, ainda e sempre, os homens (e, neste caso, algumas mulheres) a ditar o rumo dos acontecimentos. Assim, à história global do conflito entre bretões e saxões e, depois, dos conflitos internos que parecem eternizar-se sob uma teia de interesses em colisão, junta-se um percurso de inimizades pessoais, motivadas, talvez, pelos sonhos divergentes de diferentes homens em nome de diferentes deuses. O confronto principal, mais até que os que motivam as grandes batalhas, será entre Artur e Nimue, entre o homem que nunca quis ser rei,que ansiava apenas por um lugar seguro e uma vida simples, e a mulher disposta a sacrificar tudo o que os deuses exigissem para moldar a Bretanha na forma original das antigas lendas.
Se a história vinha já, desde os livros anteriores, a caminhar no sentido de um cenário mais sombrio, neste último volume as circunstâncias tornam desesperadas. Mas é também a tragédia das circunstâncias que permite revelar o melhor e o mais profundo das personagens. Em Artur, as marcas da traição revelam o seu lado mais impiedoso, mas o desespero da sua situação mostra o melhor da sua persistência. Para Guinevere, o melhor da sua personalidade floresce no calor de uma batalha onde não devia estar. E para Derfel, o sempre presente narrador e, talvez, o verdadeiro protagonista de toda esta história, o caminho é muitas vezes de medo, não da batalha, mas das perdas que o ameaçam, e as situações por este vividas revelam uma personalidade heróica, mas humana, com as melhores qualidades, mas também com os defeitos que o humanizam.
O enredo é construído de forma fluída, com uma forte componente descritiva, principalmente a nível de batalhas, que confere à leitura um ritmo pausado, mas sempre envolvente e que dá particular impacto aos momentos mais dramáticos da narrativa. O resultado é uma história complexa, mas cativante, e em que a visão completa dos cenários e dos eventos permite uma apreciação mais precisa dos momentos de máxima intensidade.
Mais que a história de Artur enquanto herói da Bretanha, esta é, acima de tudo, a história do homem. De um homem capaz de mudar os rumos de um reino, mas que queria apenas comandar a sua própria vida, e que, por isso, inspiraria as mesmas medidas de lealdade e desagrado, num percurso que ficaria para sempre entre a tragédia e a esperança. É esta, afinal, a marca que sobressai desta história, e Bernard Cornwell constrói-a com mestria, numa narrativa complexa e cativante que, pelo enredo e pelas personagens que o povoam, marca, fascina e permanece na memória. Impressionante.

Publicado em 3 Setembro 2012

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