Fernando Pessoa, O Romance - Crítica em Marcador de Livros



Logo que vi esta novidade saberia que o novo livro de Sónia Louro me iria proporcionar bons momentos. Escrito de uma forma atractiva, fui acompanhando Pessoa e os seus diversos eus quase que de uma forma esquizofrénica, que o iam acompanhando no seu dia a dia, falando com ele, dando-lhe opiniões sobre tudo, falando por ele, escrevendo por ele, quase como se fosse assim que o autor tivesse realmente vivido. E será que não terá sido mesmo assim? Porque não?

Gostei da forma como a autora expôs o poeta que tanto admiro, o despojou, o fragilizou. Um homem sem amigos, que viveu sempre só, desejando sempre o carinho da mãe que sempre o abandonou para viver um amor por um segundo casamento, um amigo que o abandonou para viver a sua própria dor (Sá Carneiro), e que viveu para si e para os seus heterónimos, refugiando-se na bebida e na sua própria fragilidade.

Fernando Pessoa quis ser muito coisa, trazia em si todos os sonhos do mundo, mas tudo se esfumou. Vivia sempre na corda bamba, devia dinheiro a toda a gente, tinha trabalhos precários, mudava constantemente de morada, era um eterno insatisfeito. Fundador, com outros génios, da revista Orpheu que tanto foi criticada na altura, era uma pessoa tão incompreendida, que via na bebia um escape. Não se suicidou por um triz. valeu-lhe os seus "eus".

Mas Pessoa não foi o único. Com ele estavam os mais jovens intelectuais portugueses de Almada Negreiros, Santa Rita Pintor, Sá Carneiro, António Botto, Guilherme de Faria a Amadeo de Souza Cardoso, alguns também morreram jovens, tendo deixado pouca obra.

Sónia Louro soube ainda retratar um Portugal decrépito, cheio de mudanças. Um Portugal onde se saía de uma monarquia, mas onde a República ainda estava a dar os primeiros passos, no início do século. Mas também o início da ditadura e da censura de que também acabaria por prejudicar alguns textos pessoanos. A política e o esoterismo também são determinantes na vida e obra de Pessoa e o episódio da vinda de Crowley também não poderia deixar de estar presente, tendo como palco a Quinta da Regaleira e a Boca do Inferno que achei deliciosos.

Não foi Pessoa quem escreveu este romance, mas bem que podia ter sido.

Louro põe-se no lugar do poeta, e com frases dele, retiradas de textos dele, constrói uma narrativa tão sólida e tão bem estruturada que por momentos julguei estar a ler um livro do próprio. Sem dúvida, o melhor livro que li da autora e recomendo sem quaisquer reservas.

Publicado em 11 Dezembro 2014

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