Fernando Pessoa, O Romance - Crítica em O Segredo dos Livros



Por uma feliz coincidência, acabei hoje de ler o livro Fernando Pessoa - o Romance. Na verdade, faz hoje 80 anos que foi editado Mensagem, o único livro a sério que Fernando Pessoa conseguiu publicar. Toda a sua vasta obra tem estado a ser publicada ao longo das últimas décadas e há ainda muito material a ser estudado, com vista à sua publicação. Além disso, ocorreu ontem, dia 30 de novembro, o 79º aniversário da morte deste grande poeta, filósofo e ensaísta, hoje um dos maiores pilares da moderna literatura portuguesa.

Sónia Louro construiu uma narrativa verdadeiramente inovadora, ao escrever um volume de mais de 400 páginas pela boca da própria personagem e quase integralmente composta por textos da autoria do próprio Fernando Pessoa. Mesmo quando não é texto escrito pela mão do poeta, bem que o podia ter sido, porque a autora soube muito bem meter-se na pele dele, escrever como ele o faria e construir uma trama com nexo e sequência. Soube muito bem contornar o risco que correu de estender uma manta de retalhos composta por centenas de citações. É "o romance" de Fernando Pessoa, mas quem de tal não estivesse informado, bem o consideraria uma autobiografia do poeta. Muito esóterica e filosófica, na verdade, mas este era um traço da personalidade da personagem que a autora bem soube captar.

Poderão alguns ter receio de se abalançar à leitura deste livro, temendo que seja um monólogo comprido, enfadonho e cansativo. Garanto que não é. Para além da constante intromissão no monólogo dos heterónimos que acompanharam Fernando Pessoa ao longo da sua vida (uns durante mais anos, outros menos), a autora apresentou-nos passagens de diálogos e troca de ideias (até piropos) com os heterónimos, especialmente o Engenheiro Álvaro de Campos, que o acompanhou até à hora da morte e o ajudou a libertar-se do fardo da vida terrena.

Através da prosa de Sónia Louro, ficamos a conhecer a personalidade de Fernando Pessoa: a sua timidez mórbida, a sua dificuldade de relacionamento com os outros e de amar, o seu racionalismo, os seus traumas, o seu receio constante de enlouquecer, a sua incapacidade de se dedicar a uma coisa de cada vez, o que o impossibilitou de terminar aquilo que começava e mostrar ao mundo a sua extraordinária produção literária. Sendo um desadaptado permanente, refugiou-se nas várias personalidades que criou para si próprio, nas quais sublimava as suas frustrações. Porém, tal não foi suficiente e, infelizmente, acabou refém do alcoolismo que apressou o fim dos seus dias. Tudo isto nos é relatado neste livro com uma tal nitidez, que nós, leitores, quase acabamos a sentir-nos na pele de Fernando Pessoa, a sofrer com ele e a querer levá-lo pela nossa mão, como criança que, no fundo, ele nunca deixou de ser até à morte.

Podia salientar várias passagens que mais me marcaram, mas refiro somente a descrição da visita à Quinta da Regaleira, uma narrativa de grande lirismo, com esoterismo, suspense e erotismo à mistura. Verdadeiramente sublime.

Depois do que fica dito, penso não ser necessário recomendar a leitura deste livro, que considero o melhor dos que li da autora.

Publicado em 23 Dezembro 2014

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