Herdeira das Sombras - Crítica no blogue Ler y Criticar

Com este segundo livro regresso à trilogia das Jóias Negras de Anne Bishop. O primeiro livro, A Filha do Sangue apresentara-se com um início difícil devido ao mundo complexo que Bishop criou, e senti que apenas consegui aproveitar totalmente a segunda metade do livro, quando compreendi o universo do livro.
Com o universo compreendido este segundo livro torna-se muito mais constante, fácil de ler, e indiscutivelmente mais viciante. Em termos globais, a qualidade deste livro não me pareceu superior nem inferior ao anterior, no entanto são muitas as diferenças.

Uma das grandes diferenças entre os dois livros é a importância de Daemon e Lucivar. Se no primeiro Daemon foi uma figura central, agora a autora olha mais para Lucivar, aprofundando a sua personagem e passado, levando a uma melhor compreensão das suas atitudes. Graças a esta mudança foi interessante ver que são estes dois personagens que moldam a forma como a autora escreve. Com Daemon em evidência no livro anterior a escrita de Bishop foi forte, cruel, erótica e com um toque de suspense no ar. Com Lucivar a “dominar” este livro temos o humor negro, a protecção e amizade. Esta diferença agradou-me imenso, pois levou a autora a não “carregar” demasiado a história sempre nos mesmos temas e formas de a expor. Mais interessante ainda será perceber para que lado cairá a balança no último livro.

Foram poucos os pormenores que não apreciei neste livro. No geral a história é demasiado centrada em três personagens, ao ponto de nem ter decorado alguns dos nomes dos amigos de Janelle (personagens que neste livro servem apenas para sustentar a personalidade, cheia de amizade, da personagem principal). Lamentei no início não ter sentido de forma mais forte o preço que Jaenelle pagou pelos acontecimentos que terminaram o livro anterior (gostava que tivesse sido mais gráfico/angustiante), e continua ainda a faltar um vilão que me faça temer pelas personagens que gosto. Há ainda o facto de em todo o livro nunca ter sentido que as personagens principais estavam em risco. Engraçado pensar sobre este aspecto, que há uns anos não me teria incomodado, mas o problema é que entretanto li George R. R. Martin e há momentos em que quase desejo que uma das personagens principais morra (tenho chamado a isto “Síndrome George Martin”) para sentir esse realismo de que tudo pode acontecer!
Houve um ou dois momentos em que senti que a autora poderia ter escrito o mesmo em metade das palavras, ou em que os olhos do leitor estão demasiado presos apenas a três personagens (gostava de ter sentido uma leve expansão), e mais um momento que senti como algo forçado, que teria como objectivo mostrar algo da personagem, levando-a a uma situação extrema. No entanto tudo isto são pequenos pormenores que não retiram o prazer que foi esta leitura.

Por outro lado Bishop expande o seu universo, apresenta-nos os "parentes", explica-nos muito do passado e evolui as personagens. Tudo isto agarra-nos cada vez mais, com muitas revelações e um sistema de capítulos, que se no primeiro livro era confuso, agora é essencial para continuarmos a ler e a ler... porque a questão é: até onde irá Jaenelle? Saetan sentirá na pele a destruição do que ama? Terá o seu medo fundamento? Quem é afinal o vilão e quem ameaça tudo o que vive?
O final não foi tão empolgante como no anterior, talvez por não ser tão “perigoso” mas estou completamente agarrado a esta saga, principalmente pelas dúvidas que tenho sobre que evolução irá ter a personagem principal. Nota ainda muito positiva pelas respostas a muitas perguntas que tinham ficado no ar no livro anterior (ainda há muitas por responder).
Bishop está de parabéns pelo universo que criou, pelo agradável e quase sempre constante ritmo da narrativa, preenchida com personagens bem construídas e muitas respostas dadas. Uma narrativa com clara evidência para as emoções das personagens, receios e pensamentos. Lucivar torna-se numa personagem interessante (não teve o impacto emocional de Daemon) e que ajuda a desenvolver a história. Saetan está melhor neste livro, pela profundidade que ganha. Afinal é pai, e como tal será sempre forte e perseguido por medos de perder o que ama e Bishop consegue transmitir esse receio de Satan, ficando a faltar conseguir que o leitor sinta o mesmo, e acredito que no fim Bishop o vai conseguir.

Por tudo isto seria difícil não aconselhar este livro. Bishop oferece-nos um livro ligeiramente virado para o público feminino, mas nunca senti que fosse exclusivamente para as mulheres. Qualquer fã de fantasia continuará satisfeito com este segundo livro. Ainda me falta ler o terceiro e último livro (e o fim é sempre de grande importância), mas para já recomendo, sem hesitações. Pode não ser, ao fim de dois livros, uma obra-prima, mas com um bom final, esta trilogia tornar-se-á obrigatória dentro do género de darkfantasy.
Viciante! Leiam-na! É o que eu vou fazer!

Publicado em 29 Maio 2012

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