Highlander, Para Além das Brumas - Crítica no blogue Pedacinho Literário

Lá bem ao fundo da névoa, para além das brumas, esconde-se um mundo mágico. Um universo repleto de esplendor e magnificência, povoado por criaturas místicas e altamente poderosas. Mas por entre a excelência destaca-se um homem, um tolo de um imortal, que buscando a mais doce das vinganças será capaz de quebrar o único e selado pacto que permite viver em harmonia duas espécies tão diferentes e... tão iguais. O sentimento – seja ele amor, ódio, dor, alegria – pode ser algo que pertence aos mortais, aos seres que pululam a terra de riqueza natural e seus semelhantes, mas serão estes indivíduos superiores assim tão desprovidos de emoções?

Highlander – Para Além das Brumas é, provavelmente, o enredo mais empolgante e vaidoso de toda a série Highlander, para aqueles que, tal como eu, têm vindo a acompanhar a versão portuguesa. Remetendo o leitor para o início dos tempos, onde tudo começou, é impressionante o modo como a autora acaba por engendrar todo este plano narrativo sem nunca, nem por uma vez, se descurar do seu verdadeiro objectivo – entreter o seu público com uma mistura explosiva de umas quantas pitadas de romance com outras tantas gotas de sobrenatural.
Karen Marie Moning mostra, assim, o seu talento criativo exponenciado ao máximo, numa obra que tanto tem de actual como de medieval, e que conjuga estes dois elementos de extrema importância, de forma magistral. Porém, o uso que faz da linguagem escrita pode não ser a mais acessível, assinalando-se uma certa notabilidade na escolha das palavras e que, por vezes, se traduz numa incompreensão parcial ou na necessidade de emprego de um dicionário.

Quando o presente se divide entre os feitos na terra e na alcova, o futuro pode assemelhar-se impreciso numa altura onde tanto o coração como a mente se vêem preenchidos de batalhas e amores fortuitos. Açor, ou Sidheach James Lyon Douglas, sente cada vez mais o vazio de não puder ocupar o seu mais secreto dos locais com as vidas por que tanto anseia e por isso, insiste em fazer jus da sua reputação, passando de mulher em mulher, de espada em espada, até ao momento em que se vir arrebatado por uma beldade louca e perdida no tempo.
Num plano onde o sombrio e o medo são uma constante, Adrienne de Simone – por vezes também conhecida como Lady Comyn – leva uma existência de resguardo e insegurança, num mundo que já se lhe mostrou tão negro e enganador que, decididamente, a marcou para a vida. Desconfiada com uma cara bonita, até mesmo o mais amistoso e dominador dos Highlanders terá de suar e planear uma conquista que em nada se empreenderá fácil.
Mas inclusive quando o amor é verdadeiro e a necessidade de companhia, de apoio e de partilha é imensa, será a presença de uma força sobrenaturalmente dotada somente uma dificuldade no caminho? Ou conseguirá esta romper a alvorada com a mais vil e dolorosa das represálias?

Dentro do género fantástico, Moning é uma autora de destaque merecido. A envolvência que provoca no leitor através das várias acções e emoções sentidas pelas personagens é simplesmente magnífica, e o modo como facilmente o deixa ansioso e extasiado por mais, é de enlouquecer.
Como se o casal de protagonistas não fosse já um trunfo muito bem empregue, explorando uma rivalidade e luta interior por domínio que é uma delicia de se ler, Adam Black vem conferir um entusiasmo extra de divertimento e malícia numa trama onde o engenho do «mal» se encontra belissimamente retratado. A verdade é que não existe ninguém mais negro, despótico e infame que Adam Black, e nem mesmo assim o leitor se vê apto a repugnar tão carismática e atraente personagem.

A construção do enredo em si também se apresenta bastante apelativa, deixando o leitor em persistente suspense e compasso de espera para com a magia que insiste em interpelar a edificação de uma relação que se avizinha excepcionalmente apaixonante e resistente. E são esses instantes entre tempos, entre o passado e o presente, a tecnologia e a força humana que vão agraciando a experiência do leitor com uma compaixão impossível de controlar e inteiramente dirigida ao casal que em tudo disputa uma redenção lenta mas muito, muito doce - e gratificante.
O cariz sensual que pontua toda a trama vai-se intensificando com o folhear das páginas mas, sem dúvida, de que a tensão existente entre Açor e Adrienne, ainda mais do que a paixão tresloucada partilhada por ambos, é um dos factores que mais incita à descoberta por parte do leitor, e ao sorriso que raramente se escapa dos lábios. Penso que, acima de tudo, Moning escreve sobre o poder do amor e sobre a sua intensidade que vai, em muito, para além da orla do tempo. E é essa força, capaz de resistir às mais complicadas adversidades, que está representada neste Highlander – Para Além das Brumas, e que não só se manifesta através do casal principal, como igualmente passa pelo sólido sentimento de uma mãe por um filho, de uma rapariga por um animal de estimação, de um homem paciente por uma mulher (quase) interdita, ou de um amigo por outro amigo, mas sempre num cenário de sonho.

Embora lamente a ocasional e difícil escolha de palavras, e que por vezes se manifestou numa leitura um pouco mais lenta, claramente este é um livro interessante, com uma abordagem criativa e que, tomando como pano de fundo as espantosas Highlands da Escócia, se traduziu numa experiência divertida e até algo sonhadora. Para quem já conhece o imaginário de Moning, este livro não será uma surpresa na medida em que já se sabe que tanto o romance como a magia serão uma das componentes mais fortes na narrativa, mas para quem não se encontra familiarizado com a autora ou tem curiosidade em experimentar mas não a certeza, posso afirmar que esta é uma excelente aposta da Saída de Emergência, numa série que ainda tem muito para dar e que, sem dúvida, proporcionará grandes – e bons – momentos de leitura. Gostei.

Publicado em 28 Maio 2012

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