Iceberg - Crítica no Vidas Alternativas

Um thriller subaquático, um entretenimento com icebergues assassinos

Por  Beja Santos

Clive Cussler não tem rival no ramo dos thrillers que envolvem barcos afundados, desmantelamento de redes criminosas que funcionam acima e debaixo de água. Ninguém ignora que há hoje duas linhas da literatura do entretenimento que superam as demais: o romance histórico e o thriller. O entusiasmo e a procura absorvente do romance histórico encontra explicações consensuais: a cultura descentrou-se de tal modo em proveito da globalização, que o indivíduo tem sérias dificuldades em compreender, dos diferentes ângulos, a história da humanidade, as religiões, os usos e costumes, os grandes eventos, os grandes saltos das civilizações, por exemplo. O romance histórico dá satisfação à curiosidade de cada um, a própria divulgação das ciências históricas exige aos investigadores o uso de uma linguagem sempre acessível e acomodada à linguagem estereotipada do nosso tempo. O thriller é um tubo de escape, tem vertentes de descompressão e procura satisfazer gamas de leitores que se interessam por curiosidades que não correspondem ao chamado gosto médio.

Cussler é um conhecido investigador da história marítima e naval, fundou a NUMA (National Underwater and Marine Agency), andam à procura de navios afundados, como é evidente todos os aficionados por esta temática que vai desde a exploração subaquática até ao mundo dos mares, embarcações e, de mistura, o mistério e o suspense não resistem aos muitos livros deste conhecido autor de best-sellers. “Iceberg”, de Clive Cussler, é um bom exemplo desta literatura boa para viciados em emoções (Saída de Emergência, 2012).

Um avião da patrulha da guarda costeira dos EUA, numa rotineira missão de mapeamento de icebergues, no Atlântico Norte, deteta um navio dentro de um icebergue, coisa nunca vista. Logo a seguir, aparece o herói aventureiro Dirk Pitt que avança para desvendar este caso inédito de um navio incrustado dentro de toneladas de gelo. O autor apresenta o seu herói: “Era um homem alto e com aspeto entroncado. A cara bronzeada, as feições duras, quase cruéis, os olhos verdes e penetrantes, tudo sugeria que este não era um homem para se contrariar”. Pitt vai acompanhado de um cientista, começa o trabalho de pesquisa. Onde? No Atlântico, pois claro, o autor tece-lhe uma apresentação própria de um bom contador de histórias: “De todos os oceanos, apenas o Atlântico é completamente imprevisível. O Pacífico, o Índico, até o Ártico têm as suas idiossincrasias particulares, mas todos têm um traço em comum: raramente se esquecem de dar uma previsão do que se avizinha. No Atlântico não é assim, em especial a Norte do 15º paralelo de latitude. No espaço de poucas horas, o mar calmo e espelhado pode transformar-se num caldeirão de espuma agitada criado por um furação de nível 12; ou, por vezes, a natureza inconstante do Atlântico funciona ao contrário. Ventos fortes e mares revoltosos durante a noite podem dar todas as indicações de uma tempestade que se avizinha e, no entanto, quando amanhece, não há nada a não ser um espelho azulão sob um céu limpo”.

Lá vão de helicóptero e entram no navio fantasma. O que encontram é tétrico, passou por ali um incêndio devastador, todos os corpos estão calcinados. O cientista Hunnewell confirma que estão ali os restos mortais de Kristjan Fyrie, um jovem multimilionário que estava em posse de um segredo prodigioso, através de uma sonda seria detetado um metal cuja posse iria mudar o poder mundial. Tinha que ser, a ação e a intriga sobem em espiral, o leitor está agarrado. O entretenimento também é cultura e por isso é apresentada a Islândia, terra de gelo e de fogo, glaciares e vulcões escaldantes: “É uma ilha em prisma de mantos de vermelhos de lava, vastas tundras verdejantes e plácidos lagos azuis estendidos sob o brilho dourado do Sol da meia-noite. Rodeada pelo Oceano Atlântico faz fronteira com as águas quentes da correte do Golfe a Sul e pelo gélido Mar Ártico a Norte; a Islândia serve de ponto de descanso para os corvos que voam entre Nova Iorque e Moscovo”. Está bem de ver que vamos ter um thriller sanguinolento e turbilhonante por causa do minério subaquático: começam as tentativas de liquidar Dirk Pitt, façanhudo como é superará todas as adversidades. Os serviços secretos norte-americanos também andam na peugada, aquele minério subaquático é interesse vital para os EUA.

Dirk Pitt, como ensina a lenda, é um matador exímio, tem uma resistência sobre-humana e atrai mulheres deslumbrantes mesmo quando tem o físico num farrapo. Aliás, em “Iceberg” não há nada que não lhe aconteça entre fraturas e dentes a abanar, abaterá os vilões e até no final inesperado uma multimilionária espampanante será recusada por esta figura lendária do thriller subaquático.

Forças sinistras querem deter a sonda e o monopólio do zircónio, assunto assim apresentado: “Quem a possuir não vai controlar o mundo, é óbvio, mas a sua posse pode levar a uma reorganização imediata de impérios financeiros privados e um belo tiro no pé do tesouro de todos os países com placas continentais ricas em reservas minerais”. A mortandade prossegue, acompanhada de enigmas de navios afundados, o aparecimento de Kirsti Fyrie, a irmã de Kristjan acompanhada do vilão da história, mais tentativas de assassinato de Dirk Pitt, toda a tecnologia serve, até o uso de hidroplanos nas águas revoltas da Islândia.

Fatalmente, tudo caminha para o desfecho a um ritmo quase alucinante, a prova dos nove vai ter lugar numa Disneylândia com assassinos disfarçados de piratas e um grande combate onde se usam as mais demolidoras artes marciais. O herói anda mais morto que vivo, há para ali uma energia descomunal, desfaz implacavelmente os criminosos e abre caminho a que os interesses dos EUA fiquem confortavelmente garantidos. O leitor que fique descansado, não pode despregar a atenção ao ritmo trepidante a que tudo se passa, como é o caso do derradeiro combate, onde tudo vai ficar esclarecido:

“Verbalizando um chorrilho de pragas através dos lábios manchados de sangue, a sua cara exibia agora uma expressão fixa de ódio insano. Rondheim atirou-se a Pitt, não tinha dado sequer o segundo passo quando Pitt lhe aplicou um gancho bem lá de baixo que se abateu tão solidamente como um martelo sobre os dentes de Rondheim. Pitt aplicara-lhe toda a energia que tinha, projetando o ombro e o corpo com tal força que as suas costelas gritaram de agonia e ele soube, mesmo enquanto o fazia, que nunca conseguiria reunir a força necessária para um novo golpe.

Depois surgiu um som surdo e sibilante misturado com um estalido abafado. Os dentes de Rondheim saltaram-lhe das gengivas e cravaram-se nos lábios mutilados enquanto o pulso de Pitt estalava. Durante dois ou três segundos, Rondheim parecia endireitar-se e estacar como se fosse uma imagem projetada de um filme, e depois, com a lentidão inacreditável de uma árvore que tomba, desmoronou-se no convés”.

Não é preciso dizer mais. Boa leitura a estes viciados em emoções.

Publicado em 24 Setembro 2013

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