Inferior - Artigo no Diário de Notícias

"Há pessoas que adorariam que a ciência dissesse que as mulheres são naturalmente donas de casa"

Podemos confiar no que a ciência diz sobre as mulheres? A "extensão do preconceito é surpreendente", diz a jornalista Angela Saini, que veio a Portugal falar sobre o livro Inferior e diz que a ciência foi usada pelos homens no poder para reforçar o seu domínio, excluindo deliberadamente as mulheres e distorcendo o que pensamos que sabemos sobre nós.

 

© Álvaro Isidoro/Global Imagens

Desde criança que Angela Saini gosta de ciência e desde pequena que se habituou a ser uma das poucas raparigas no seu campo - do lançamento de pequenos foguetes na infância aos mestrados de Engenharia em Oxford e Ciência no King's College. Com o tempo, chegou a perguntar-se se seria diferente da maioria das mulheres. Até que começou a destapar o preconceito da ciência contra as mulheres - que não é apenas visível nos laboratórios atualmente, mas é basilar na ciência moderna, desde o Iluminismo, e afeta os estudos, resultados e o que pensamos que sabemos somos nós, defende. Aliás, os médicos chegaram a defender que "o desgaste mental exigido pelo ensino superior poderia retirar energia do sistema reprodutivo, prejudicando a sua fertilidade", escreve Saini.

 

Serão as mulheres mais empáticas e os homens mais sistemáticos, por exemplo? Serão eles naturalmente promíscuos e elas recatadas? Serão elas e eles tão diferentes que parecem vir de planetas distintos? Ou é apenas má ciência? Para Saini, durante séculos, os cientistas (homens) ignoraram metade da humanidade ou olharam para ela com uma visão distorcida pelos preconceitos do seu tempo. Pior, argumenta, a ciência foi instrumentalizada para justificar as estruturas de poder que subjugavam as mulheres e outras raças. E ainda é.

 

Porque quis escrever este livro?

Esta não é a minha área académica de formação, porque estudei engenharia e, como jornalista de ciência, cobria a área das ciências físicas e não biologia. Mas quando voltei da licença de maternidade, e não estava em posição de escolher o trabalho que queria fazer, foi-me pedido que escrevesse sobre a menopausa, a história do último capítulo, e fiquei fascinada por existir claramente um preconceito a influenciar o tipo de ideias e teorias que as pessoas tinham e os resultados que conseguiam. Especialmente porque no dia-a-dia há tantos estereótipos e suposições sobre quem somos, sobre o que podemos e não podemos fazer, e quis ver o que diz a ciência, saber no que posso confiar.

 

Mas descobriu muita ciência que não é confiável. Ficou surpreendida ao descobrir que os preconceitos podiam desempenhar um papel tão importante na ciência?

Não fiquei chocada, mas a extensão do preconceito e a forma como ainda afeta o que achamos que sabemos é surpreendente, especialmente em áreas em que achei que as pessoas eram muito mais objetivas e tinham muito mais cuidado. E fiquei desiludida porque uma das razões para gostar tanto da ciência e escolher estudar engenharia foi porque achava que era um mundo de objetividade e racionalidade, que lidava com factos e não com emoções ou sentimentos subjetivos. É assim que nos vendem a ciência quando somos crianças, é o mundo dos factos, e na realidade não é assim que funciona. E se és um cientista sabes que não é assim, é só a forma como é retratada para o público. De cada vez que um artigo é publicado é como se fosse uma verdade absoluta e na realidade não é, é um processo.

 

"A extensão do preconceito e a forma como ainda afeta o que achamos que sabemos é surpreendente, especialmente em áreas em que achei que as pessoas eram muito mais objetivas e tinham muito mais cuidado."

 

Mesmo que na semana seguinte seja publicado outro com uma teoria contrária...

Sim, e é por isso que é confuso para o cidadão comum e uma das razões pelas quais as pessoas perdem a confiança nos cientistas, porque sentem que não podem saber o que fazem se estão sempre a contradizer-se e a mudar. Mas é assim que funciona o processo científico, é preciso ter ideias, testá-las, ver se as teorias se confirmam e, se não, ou se aparecem outras evidências, muda-se.

 

Aponta no livro casos de cientistas que não mudam de todo e se agarram às teorias. Aliás, a ideia que fica é que se eu quiser passar a ideia de que os cérebros femininos e masculinos funcionam de formas muito diferentes basta entrevistar as pessoas certas. É possível fazer isso?

É possível afirmar o que quiser se escolher os cientistas certos e isso é parte do problema, porque quem tem uma agenda política procura os cientistas que apoiam qualquer que seja o ponto de vista que querem passar e depois usam aquela ciência para elevar o ponto de vista. Podem ter de manipulá-la, distorcê-la ligeiramente para funcionar, mas conseguem fazê-lo e foi sempre assim. O meu último livro, que saiu em maio, Superior, é sobre ciência racial e neste campo temos provas claras disto. Sabemos que ao longo dos séculos as pessoas usaram a ideia de raça para justificar a escravatura, o genocídio e o colonialismo e muitas das piores atrocidades das últimas centenas de anos assentam nesta ideia e a ciência foi sempre cúmplice, os cientistas foram cúmplices. E é o mesmo na investigação sobre diferenças entre sexos: há forças no mundo que sempre reprimiram as mulheres e essas mesmas forças operam para afirmar que não podemos ter igualdade e usam a ciência e tentam abusar da ciência para defender esta visão. Portanto, a ciência sempre foi política e surpreende-me que as pessoas digam que não, que é sobre factos, que é neutra. Não é neutra porque é feita por humanos e nós não somos neutros, temos sempre um ponto de vista, um preconceito. E era isso que queria explorar, expor os preconceitos.

 

"Ao longo dos séculos as pessoas usaram a ideia de raça para justificar a escravatura, o genocídio e o colonialismo e muitas das piores atrocidades das últimas centenas de anos assentam nesta ideia e a ciência foi sempre cúmplice."

 

Até os seus?

Até os meus. Quando comecei a escrever Inferior eu também tinha estereótipos e pressuposições. Dada a minha experiência nas ciências, pensava que era diferente das outras mulheres, ao gostar de matemática e ciência. Não sou diferente das outras mulheres, apenas culturalmente e socialmente fui criada com outros princípios, ideias, e as outras mulheres nem sempre têm isso.

 

É uma questão que nos fascina, as diferenças entre sexos. Porque há tanto interesse em procurar diferenças entre homens e mulheres? No livro por vezes compara com a investigação sobre diferenças entre raças, que deixou de ser aceitável, e que é o tema do seu livro mais recente...

Há uma grande diferença entre a investigação sobre diferenças entre sexos e entre raças: a primeira é mainstream e há laboratórios e departamentos que são bem financiados para fazer este trabalho, por todo o mundo; com a segunda isso não acontece, é um tabu e apenas as pessoas nos extremos e à margem falam sobre a raça como se fosse real - a maioria dos biólogos aceita-o como uma construção social. Portanto, essa investigação é feita, embora nem sempre se chame assim, às vezes com eufemismos. Mas as pessoas que o fazem como antigamente estão nas franjas e em muitos casos completamente desacreditadas, e muitas vezes são apenas amadores. Mas para mim são afetadas pelos mesmos problemas. Vivemos numa sociedade racista e sexista e, enquanto isso acontecer, os cientistas que fazem este tipo de trabalho vão ser afetados por isso. Se a sociedade é sexista, a ciência é sexista.

 

 

Angela Saini acabou de escrever "Inferior" há dois anos. Entretanto escreveu também "Superior", lançado há dois meses, sobre ciência e raça.© PAULO SPRANGER/Global Imagens

Mas considera sexista procurar diferenças, ou apenas normal?

Estamos sempre a pensar nisso, como seres humanos, não conseguimos evitar. Sempre que alguém tem um bebé queremos saber o sexo da criança, e depois tratamos esse bebé de forma diferente conforme é rapaz ou rapariga, apesar de os bebés, naquela idade, não terem qualquer diferença. É uma questão com grande impacto cultural, o que significa ser homem, o que significa ser mulher? E todas as nossas relações são guiadas pelas ideias que temos sobre as diferenças entre homens e mulheres, quer no casamento, no trabalho e em todos os aspectos da nossa vida. Portanto, é normal que fascine os cientistas. Não é um tabu, porque sabemos que há diferenças entre os sexos biológicos, a nível dos cromossomas, do sistema reprodutor, hormonas. Portanto, a pergunta passa a ser "dado que sabemos que há algumas diferenças, então até onde vão essas diferenças" e é aí que está o grande ponto de interrogação e o que queria explorar.

 

E a que conclusões chegou? Até onde vão essas diferenças entre homens e mulheres?

Em primeiro lugar, a resposta é que não sabemos completamente, ainda há muito trabalho a fazer. O que sabemos é que as diferenças entre homens e mulheres não são profundas, especialmente as diferenças psicológicas e mentais, não são muito grandes. E é isso que a investigação continua a mostrar. Portanto, mesmo que as diferenças físicas pareçam indicar mais e as diferenças culturais, em termos do que se espera a nível de comportamento, sejam profundas, a nível psicológico não o são de todo.

 

"O que sabemos é que as diferenças entre homens e mulheres não são profundas, especialmente as diferenças psicológicas e mentais, não são muito grandes."

 

Mas no fundo é isso que queremos saber, não é? Há muito mais homens em posições de poder, em profissões bem pagas, nas ciências, e a questão é se há diferenças biológicas que justifiquem isso, como alguns afirmam ou pelo menos insinuam, incluindo cientistas.

Certo. Podem existir diferenças biológicas ínfimas, não podemos afirmar com certeza que não. Mas, tendo em conta o que sabemos atualmente, o que posso afirmar com toda a certeza, categoricamente, e um ponto em que todos os cientistas concordam, é que de nenhuma forma as diferenças que vemos nos testes psicológicos são responsáveis pelas diferenças que vemos na sociedade. As diferenças na sociedade são enormes, as dos testes são minúsculas. Por isso, tem de haver outra justificação qualquer e tem de ser política, cultural, a forma como nos tratamos uns aos outros e as expectativas que pesam sobre o nosso comportamento. Até resolvermos essa parte da equação, não podemos realmente resolver o resto. Porque não estamos em iguais circunstâncias, não criamos as pessoas da mesma maneira, e assim nunca teremos a resposta a esta pergunta.

 

Quando Darwin disse que as mulheres eram intelectualmente inferiores, uma das críticas respondeu que não era possível julgar-nos até que os nossos ambientes fossem iguais, porque não há um cientista que se atrevesse a tirar conclusões comparando pessoas a viver em ambientes e circunstâncias diferentes. Se criássemos as raparigas da mesma forma do que os rapazes, sem os expor a ideias sobre o que é ou não apropriado, sem estereótipos, então talvez conseguíssemos fazer essa experiência.

 

"Quando Darwin disse que as mulheres eram intelectualmente inferiores, uma das críticas respondeu que não era possível julgar-nos até que os nossos ambientes fossem iguais."

 

Mas isso é impossível. Um exemplo: em Portugal, há uns meses foi publicado um estudo que dizia que seriam precisas cinco a seis gerações só para conseguir uma partilha equilibrada das tarefas domésticas entre homens e mulheres, nos casos em que ambos trabalham fora de casa. O que podemos fazer então?

Quando falamos de igualdade no geral acho que cinco ou seis gerações é uma perspetiva otimista, porque há tanto para fazer. Isto não é apenas sobre as mulheres votarem ou terem direito a fazer os trabalhos que os homens fazem, é sobre uma mudança mental, sobre pensarmos de forma diferente uns sobre os outros e sobre nós próprios, perdermos estas ideias de superioridade e inferioridade, sobre os homens aceitaram papéis na sociedade que atualmente não desempenham e as mulheres fazerem o mesmo. Mesmo que leve quatro gerações, acho que será fantástico.

 

Também há quem ache que já se fez tudo, que as mulheres já têm o suficiente, que não há mais mulheres nas ciências porque elas não querem.

Surpreende-me sempre quando as pessoas dizem que as mulheres podem fazer o que quiserem, que têm liberdade para isso. Quanta liberdade existe quando sabemos que o sexismo é tão abundante na sociedade? Que para uma cientista é muito mais provável ter de enfrentar sexismo, discriminação e assédio sexual, quão livre é ela? Quão livres somos nós quando as mensagens da televisão e filmes nos dizem que as mulheres não nasceram para isto, que seria melhor e mais fácil fazerem outra coisa. Não somos livres, as escolhas que fazemos são mediadas pelo mundo em que vivemos. Não te podes sentir livre quando sabes que ser cientista significa trabalhar muitas horas e viajar e sabes que queres ter filhos, mas o teu parceiro não partilha as responsabilidades em casa. Portanto, esta ideia de que as mulheres são livres para fazerem o que querem e o mundo é sua ostra é apenas ridícula, porque não vivemos nessa sociedade. E estou farta dessa explicação porque tira a responsabilidade dos homens.

 

Qual é a responsabilidade dos homens?

Sabemos que as mulheres tentam entrar, estão bem representadas nas universidades, mas desaparecem quando subimos na hierarquia. Quais as razões para isto? Não conseguem ter sucesso em carreiras que estão desenhadas para que falhem - subestimamos a verdadeira dimensão do problema do sexismo, discriminação e assédio sexual nas ciências. É prevalente. Tenho dado muitas palestras desde que o livro saiu e não há nenhuma em que uma ou mais mulheres não venham ter comigo no final a contar-me histórias destas, sobre o quão difícil é ser uma mulher na ciência e sobre como querem sair. Muitas vezes em lágrimas, contam-me histórias de assédio e de como a universidade nada fez. E não é só na ciência. E nós não responsabilizamos os homens o suficiente para fazerem frente ao problema.

 

 

Alguns dos estudos que questiona no livro são de cientistas reputados, como o de Simon Baron-Cohen [de Cambridge] sobre as diferenças entre bebés de um dia, que diz que estas são significativas e que as mulheres são mais empáticas, eles mais sistemáticos. Este estudo, por exemplo, teve imensa publicidade, foi reproduzido em livros de desenvolvimento infantil e é citado quando se discute as diferenças entre sexos. Refere muitas críticas, mas diria que é má ciência?

Sim. Diria que sim. Críticos do Baron-Cohen nas neurociências chamam-lhe neurosexismo e acho que se algo que não foi replicado, especialmente algo com implicações tão profundas, se existiam grandes questões sobre o teste logo de início, então pode ser considerado boa ciência? Só porque foi revisto por pares e publicado não quer dizer que seja boa ciência. Neste caso é má ciência que saiu da academia e entrou no mainstream e está a afetar a forma como as pessoas pensam nos seus filhos e como os criam. Acho que o estudo devia, pelo menos, ter sido replicado antes de começar a ser usado como forma de justificar as diferenças entre sexos a partir do nascimento. Não é bom o suficiente. É um bom exemplo de como cada vez que lemos um estudo devemos usar o nosso sentido crítico e questionar, perceber o contexto, que estudos corroboram aquelas conclusões. E neste caso nenhum estudo diz nada semelhante. Não há nada.

 

Mas há muitos problemas com a incapacidade de replicar estudos, ou de chegar às mesmas conclusões...

Acho que sempre houve, não é como se agora houvesse mais más ideias. Mas acho que a forma certa de reagir a estudos que não foram replicados, sobretudo estudos como este que têm implicações profundas na forma como nos vemos, é esperar. O Baron-Cohen não precisava de falar sobre aquele estudo nos seus livros, e usá-lo como exemplo, quando ainda não tem provas suficientes.

 

E como jornalista de ciência, acha que o problema é amplificado pela forma como os estudos são noticiados?

Sim e eu compreendo as dificuldades quando se é jornalista e aparece um estudo sexy e o editor adora e sabe que vai dar imensos cliques, entendo a pressão. Mas especialmente agora quando há tanta pseudociência e notícias falsas online, quando o público está tão confuso, quando vemos negacionistas das alterações climáticas, pessoas que defendem que a terra é plana e movimentos antivacinação, o que publicamos tem consequências no mundo real. O movimento antivacinação está a matar crianças. Não é uma coisa sem importância. Temos a responsabilidade de ser cuidadosos, especialmente sobre raça e sobre sexo porque isso molda a forma como pensamos uns sobre os outros e também a política do mundo em que vivemos. Sabemos que o nacionalismo e o populismo estão a crescer, sabemos que há elementos que estão a tentar forçar as mulheres de volta a papéis tradicionais, o movimento antiaborto dos Estados Unidos, o que está a acontecer na Hungria e na Rússia. Há pessoas que adorariam que a ciência dissesse que as mulheres são naturalmente donas de casa e que não pertencem à esfera pública, e que os homens nasceram para liderar e estar no poder. Por isso, como jornalistas, como mediadores entre os cientistas e o público, temos de pensar de forma crítica sobre isto.

 

Mas no livro também desafia a base do papel tradicional das mulheres. Aliás, diz o que papel das mulheres foi muitas vezes ignorado e desvalorizado pela ciência até as mulheres começarem a fazer ciência. A ciência parece ser escrita pelos vencedores, por quem manda?

É sempre uma questão de poder. O conhecimento é uma arma poderosa e a ciência também, sempre foi. Por muito que queiramos pensar nela como objetiva, a ciência foi sempre usada como ferramenta por aqueles que estão no poder para reforçar o seu domínio. E isso é exatamente o que tem estado a acontecer, a ciência ocidental desde o Iluminismo excluiu deliberadamente as mulheres, o acesso às universidades e às academias científicas era-lhes negado. Que razão existe para fazer isto a não ser que exista uma vantagem para um determinado grupo, para manter

Publicado em 20 Agosto 2019

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