Maria Helena Ventura fala sobre “Desculpe Sr. Nobel”

Chegou pontual ao encontro marcado num café perto do local onde habita, na Parede. De aparência frágil, cobre a cabeça com um gorro de cor clara – quase uma imagem de marca da autora, que se revelou, ao longo desta entrevista uma mulher culta de grande sensibilidade, mas também séria, meticulosa e tenaz no que respeita à actividade literária.

Maria Helena Ventura vai apresentar a sua mais recente obra, “Desculpe Sr. Nobel”, no dia 29 de Setembro, às 18 horas, na Casa de Santa Maria, em Cascais.

Maria Helena Ventura nasceu em Coimbra e vive há  trinta e cinco  anos  no concelho de Cascais. Escolheu Germânicas, pois na época, ainda não era possível licenciar-se em Jornalismo, sua primeira opção, pois o curso « só seria criado na década de oitenta» nem em Sociologia, «conotada com Socialismo», como refere, recordando que, no entanto, insistiu em esperar pelas áreas da sua preferência, o que a trouxe até à capital.

 

Com  a declaração da Casa de Inglaterra que frequentara em Coimbra, entrou no Instituto Britânico e começou a tentar a independência económica dando explicações. Trabalhou em Relações Públicas e Jornalismo, tendo concluído o Curso Superior de Jornalismo e um mestrado em Sociologia da Cultura. Passou pela docência e investigação, até fazer da escrita a sua actividade prioritária. Ainda assim, mantém uma colaboração esporádica num órgão da imprensa regional.
 
Como autora começou por publicar poesia em  órgãos regionais e na página literária do jornal República. Odete de Saint Maurice dedicou-lhe metade de uma sessão de Tempo de Juventude. Colaborou em antologias poéticas das edições Orpheu e Editorial Minerva, Os Dias do Amor da Ministério dos Livros, Um Poema para Ramos Rosa, Um Poema para Agripina das edições Labirinto e mais recentemente Elizabeth Stuart Ward 1844-1911 - An Anthology in Memoriam, coordenada por Grace A. Adele (Bristol Banner Books). Colaborou ainda com o  Jornal dos Poetas & Trovadores e tem artigos nas revistas  Mosaicos, Entre Letras, Sol XXI e jornal brasileiro O Dia.
Sob o nome de Helena Ventura Pereira  tem trabalhos sociológicos  publicados pela Sociedade de Geografia de Lisboa, Revista da Associação dos Arqueólogos e Revista de Estudos Políticos e Sociais da Universidade Técnica de Lisboa.
Publicou sete livros de poemas; um na área da literatura infantil e dez na área da ficção, dos quais quatro são romances históricos.


CJ
- Começou por editar poesia. Seguiram-se diversos romances. Isso significa que a poesia ficou definitivamente de lado, ou continua a escrever, podendo os leitores esperar novos livros de poesia?

MHV –
Escrevo (poesia) às vezes, inspirada pelas belezas naturais e porque  tenho saudades dessa companhia, mas  não me sinto inspirada pelo mundo social que me rodeia. Arquivo o que faço, sem tempo ou disposição  para burilar.

CJ
- Como surgiu a opção pela ficção? Trata-se de mais um passo no seu percurso de autora, ou uma resposta às preferências do mercado?

MHV
- Sempre tive vontade de tentar, por tanto admirar os romancistas que lia.  Já escrevia conto, que nunca publiquei por ser um género menos fácil do que parece, tal como a literatura infantil.  Mas tinha uma lista tão grande de figuras  sobre as quais  gostaria de me debruçar, que  fui ganhando fôlego. O primeiro livro era pequenino. Enchi-me de coragem, já defendida a tese de mestrado sobre o mesmo tema. A partir desse marco,  os outros já não custaram.

Nunca escrevi para responder às exigências de mercado, embora uma empresa qualquer  só consiga vencer se tiver lucro.  Não critico  quem aproveite as oportunidades - datas mais relevantes, centenários, homenagens, mas eu sentir-me-ia sem liberdade para criar se tivesse que entrar no mesmo  esquema.

CJ -
O romance histórico, agora muito em voga, é um género muito exigente, por requerer muita pesquisa. Tem alguém que a ajude nessa tarefa? Quanto tempo, em média, demora a documentar-se para escrever livros como “Afonso, o Conquistador”, “Onde Vais Isabel?” e “A Musa de Camões”?

MHV -
Sou eu  sozinha a recolher os dados e a custear as viagens, que considero essenciais.  Não tenho  apoios  institucionais nem gostaria de consumir o alheio, para fazer a pesquisa.  E ainda bem que tocou nesse aspecto: é  preciso dar atenção à desigualdade de oportunidades  quando se  julga um trabalho, uma obra, um curriculum.
Há muito boa produção literária sem apoios de ninguém.
Para a publicação de cada um dos romances históricos já tinha  material acumulado  e linhas orientadoras. A organização facilita. Mas nunca em menos de um ano e meio, dois, se conseguem recolher dados, selecionar e construir um romance.

CJ -
Depois do sucesso obtido com os romances históricos, o que a levou a enveredar por um estilo completamente diferente, como é “Desculpe Senhor Nobel”?

MHV -
Estou a ganhar forças para outro romance histórico. Este  último livro reflecte os tempos que vivemos agora, aqui e no mundo todo. Nele convivem discursos, sentimentos contraditórios, boas almas que nas sociedades cinzentas e antropofágicas vão acendendo tochas. Alguém tem de manter a cabeça e  o coração  limpos para aceitar os outros, desiguais, com os mesmos direitos. São essas personagens que brilham, no romance.
Nobel era uma das figuras da minha lista. Mas a modéstia da vida dele  foi abafada pelo ruído de quem se movia à sua volta. No trabalho do livro aconteceu o mesmo.  Ele,  e a sua memória  deviam ser centrais, mas eu fui sendo arrastada por outras personagens (muitas)  e estórias  (tantas, também) que tive de fazer girar à  volta de um acontecimento que o evocasse.  Mas não foi difícil. As pessoas que aparecem  como protagonistas de alguma coisa são,  fora da  vida pública, tão comuns como todas as outras, com estórias semelhantes.

CJ -
Quando decidiu que queria ser escritora? Considera a escrita uma vocação ou defende que se trata apenas de um trabalho?

MHV -
Decidi ser escritora em criança. Era uma menina solitária, muito vigiada.  A ler e a escrever podia fazer  centenas de  amizades não proibidas. Teria alguma vocação, mas o trabalho  empenhado é  essencial.  É preciso  aprimorar frases e pensamentos constantemente, para fluir melhor esse veio de água.

CJ
- Encara a escrita como um meio para deixar a sua mensagem, uma forma de expressão, ou mera terapia?

MHV
- Nunca tentei passar mensagens. Todas as pessoas adultas e idóneas têm um sentido crítico apurado. Não pretendo ensinar nada a ninguém nem tenho por que fazê-lo. Escrever é mais uma forma de "conversar" sobre a vida sem mais ruído de fundo do que os nossos pensamentos e preocupações, sempre com interlocutores pacientes e silenciosos. E consegue ser uma terapia, uma compensação para o tanto que nos roubam aqueles que, de papo cheio, se dedicam a destruir o que conquistámos só à nossa custa, sem atropelar ninguém.

CJ -
O que sente depois da obra terminada e editada? 

MHV - Sinto-me como se, depois de noites de insónia, tivesse feito uma cura de sono. E além de repousada, satisfeita comigo. Nem que, daí a um mês, perceba que houve lapsos por minha culpa ou alheios, tenho consciência de que todas as partes envolvidas trabalharam para que surgisse o melhor.

CJ
- Fica apreensiva com as críticas que poderá ter? 

MHV - Quando surgem, feitas por profissionais competentes, nunca me incomodam. Nem tenho muito de que me queixar. Mas não suporto  as outras criaturas  que mal ocupam uma posição paga pelos dinheiros públicos,"trabalham" para  que  as obras que os incomodam não tenham visibilidade. Já viu quantas entrevistas minhas  e comentários lisonjeiros  foram apagados da net... São feias por dentro, as pessoas que  determinam tal coisa. Ou então infelizes. Pensava que a concorrência leal era o caminho a seguir, mas afinal estamos a anos-luz dessa meta.

CJ
- Quando o livro chega às livrarias sente a perda de algo que até aí era apenas seu e repentinamente se tornou acessível a qualquer um? 

MHV - Acho muito oportuna essa questão da perda...Com a poesia sinto isso, como se  me desnudasse ou um  pedaço de alma me fosse arrancado. Com a ficção é diferente. Não sou eu, são outras  personagens. O livro deixa de me pertencer,  é adoptado por muita gente. E é com uma curiosidade  tímida e grata que vou seguindo a opinião daqueles que o tornaram seu.

CJ
- Voltando ao seu mais recente romance, “Desculpe Senhor Nobel”, pode dar-nos uma ideia do seu processo de criação? Viajou até Estocolmo? Falou com alguém ligado aos Prémios? 

MHV- Havia o nome, o esquema, mas como disse, às vezes as personagens ganham autonomia superior à nossa. Fiz as leituras, a viagem, olhei de perto os ambientes que queria recriar em diferente contexto. Em certas noites de vigília, em que o livro ainda por ser, bailava à minha frente em desafios, levantei-me para  fazer apontamentos que no dia seguinte acrescentava. E assim foi crescendo. Depois a composição e  aquela capa linda da responsabilidade da editora, fizeram o resto. 

CJ - Acredita que este livro vai ser um novo sucesso?

MHV -
Gostaria que fosse um sucesso, mas quero que, acima de tudo,  respeitem o trabalho e o empenhamento nele depositados.

CJ
- Vive apenas da escrita? Em Portugal é fácil sobreviver como romancista?

MHV
- Se as coisas corressem como há meia dúzia de anos atrás, podia viver (modestamente) da escrita. Hoje tenho que ser a mesma empreiteira da sobrevivência, como tantos portugueses talentosos e honestos.

CJ -O que pensa da actual política cultural, nomeadamente no que respeita ao livro e aos autores?

MHV -
Política cultural? O que avisto, deste lado da sala, longe de benesses e de privilégios, é a mesa cheia com os mesmos nomes. Comigo está uma legião de romancistas, poetas, contistas quase anónimos, com trabalho escorreito,  de longos anos. Se nas obrigações são iguais, por que o não são na repartição dos direitos? Eles mereciam. Eles e o país que, apesar de doente, tanto amamos, ainda.

Mais que uma entrevista, a agradável conversa com Maria Helena Ventura estendera-se pela manhã chuvosa. Já o aroma dos cafés se esvaecera há muito, quando nos despedimos, com um “até ao dia 29” data agendada para a apresentação de “Desculpe Senhor Nobel”, que tem chancela das Edições Saída de Emergência e será comentado pelo Professor Dr. José d' Encarnação”.

Publicado em 29 Setembro 2014

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