Mentiras no Divã - Critica no Ler y Criticar

Irvin Yalom é um dos escritores mais constantes que já li. Todos os seus livros, sem exceção, são de uma qualidade muito acima da média e mesmo não sendo este um dos seus melhores livros, é mais uma grande leitura. 
 
Olhando de forma geral para este livro, não ficamos perante um romance dentro do que estamos habituados, mas sim perante uma leitura que, tendo uma história (que é o catalisador e que apresenta muitos diálogos interessantes), tem como objetivo ser didático. Trata-se de um livro para ensinar, que nos faz pensar, e que quase relega para segundo plano o enredo, porque o essencial é o que iremos aprender e o que iremos questionar. O enredo foca-se em duas histórias paralelas, sobre dois casos onde existem três ideias bases: a primeira é que o psicólogo também é um ser humano, a segunda é que nada garante ao psicólogo que esteja a ouvir a verdade do seu paciente, e a terceira prende-se com a questão, que tanto psicólogo como o leitor terão, que é a dúvida se a forma como o psicólogo decide conduzir o tratamento é, ou não, o mais indicado e produtivo.
 
Olhando primeiro para o facto de o psicólogo, ser, inevitavelmente, um ser humano com os seus próprios problemas pessoais, é preciso louvar a facilidade com o que Yalom expõe as suas personagens. Todas elas com problemas, com segredos, com mentiras e vergonhas, capazes de rivalizar com os problemas dos seus próprios pacientes, tornando este enredo em algo incrivelmente realista. 
 
Por outro lado temos os pacientes, que de forma consciente, ou não, mentem. Este será, provavelmente (isto vendo de um ponto de vista de quem não percebe nada do assunto, eu), um dos problemas da própria terapia: se um paciente não for sincero, como poderá o psicólogo ter, na fase inicial, a melhor abordagem? E num mundo de mentiras, poderá o psicólogo alcançar, em algum momento, a totalidade do problema do seu paciente? Esta é, inevitavelmente, uma relação de confiança e sinceridade, sem aproveitamentos, sem segundas intenções... Yalom explora aqui essas necessidades e as falhas que podem acontecer nestas relação entre psicólogo e paciente.
 
Com personagens muito bem construídas, Yalom apresenta o seu estrondoso conhecimento sobre o tema, levando-nos a perceber conceitos com facilidade numa linguagem que por vezes foge da normalmente encontrada num romance, para se tornar numa escrita que é simples, mas também académica em alguns momentos. E aos poucos, sem que tivéssemos conscientes no início, o enredo transforma-se num thriller psicológico sob o olhar do psicólogo para com o paciente, aumentando o ritmo da narrativa, colando-nos às páginas até ao surpreendente final em que o último parágrafo ficará na nossa memória durante algum tempo.
 
Apesar de não ser, tal como já disse antes, o melhor livro de Yalom (para mim é difícil bater A Cura de Schopenhauer), este é mais um grande livro do autor. Não é para todos os leitores, é preciso gostar do tema, mas aqui Yalom tem um enredo mais abrangente, porque existe uma mistura em que o thriller psicológico ganha peso. Falar mais sobre este enredo, com excelentes diálogos, é retirar à leitura momentos que o leitor deve ter e descobrir, sempre tendo como base que nada impede doutor ou paciente de mentir. Faz parte da natureza humana, e sempre fará, em qualquer momento.
 
Como sempre, uma leitura muito agradável e muito inteligente.
Publicado em 10 Outubro 2014

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