Monstress - Refúgio - Opinião no Notícias de Zallar

Monstress está ao rubro! Depois da presença de Marjorie Liu e Sana Takeda na ComicCon Portugal 2018, chega o terceiro volume da BD mais poderosa dos últimos tempos. Marjorie é a autora norte-americana, que trabalhou como advogada antes de se dedicar a tempo inteiro à escrita, com trabalho ligado à Marvel. Sana é a artista; japonesa, tem deixado trabalho feito de grande qualidade, primeiro na Sega e depois na Marvel.

Em 2017, Monstress venceu o British Fantasy Award na categoria Melhor Novela Gráfica e o Hugo Award na categoria Melhor História Gráfica. Em 2018 venceu cinco Eisner Award, o prémio maior dos comics, nas categorias Melhor Escritor, Melhor Série Contínua, Melhor Pintor / Artista Multimédia, Melhor Publicação Para Jovens e Melhor Artista de Capa. Refúgio é o terceiro volume da BD, incluindo os números 13 a 18 da publicação original da Image Comics. Publicado no nosso país pela Saída de Emergência, tem um total de 176 páginas e tradução de Renato Carreira.

“Absolutamente delicioso” e “cada vez melhor” são as duas expressões com que posso definir este terceiro volume de Monstress. A cada volume sinto-me mais empolgado com esta história e com as várias nuances de Maika Meiolobo e das restantes personagens. A escrita de Marjorie Liu é brilhante, rica e suja, verdadeiramente crua, e o argumento é qualquer coisa de genial. A história é complexa e por vezes confusa, mas a falta de informações faz o leitor surpreender-se a cada página. Em nenhum momento ela subestima a nossa inteligência.

O caos para que somos lançados contrasta de forma incrível com a aparente frivolidade da protagonista, uma menina sem um braço que podia facilmente ser confundida com a tradicional heroína de qualquer livro. Mas Maika é muito mais que isso. É uma rapariga calejada pela guerra e pela vida e não se coíbe a desafiar qualquer um que lhe apareça pela frente com sarcasmo e palavrões. A arte de Sana Takeda é um espetáculo à parte, mas é o argumento de Marjorie Liu que sinceramente me arrebata.

 

Neste terceiro volume, Maika começa finalmente a destrinçar a verdade sobre a Imperatriz-Xamã e o passado da sua família, mas a cada passo aparecem mais perguntas do que respostas. Junto dos seus aliados e com os inseparáveis gato Mestre Ren e a menina raposa Kippa, Maika chega à cidade de Pontus, que se afigura um refúgio bem mais perigoso do que poderia supor. A guerra está à porta e são mais os que lhe dão caça do que aqueles que a pretendem proteger.

A cidade refúgio revela-se abrigo de um escudo poderoso que pode ser a chave da sua salvação. A guerra entre arcânicos e humanos parece chegar a um ponto sem retorno, ao mesmo tempo que forças ocultas surgem e medem forças na esperança de controlar a divulgação de informações e o poder no Mundo Conhecido. Maika é obrigada a ouvir o monstro que tem dentro de si, Zinn, e a confiar nos seus murmúrios. Mas será o Velho Deus digno de confiança? Ou um adversário a temer?

Foi delicioso ver Maika a colaborar com Zinn e a descobrir a pouco e pouco mais sobre a história dos deuses e do passado misterioso que a liga à Imperatriz-Xamã. Este é um livro extremamente complexo, por isso é necessário ter grande atenção para não ficar perdido na narrativa. Essa complexidade e riqueza narrativa torna-se muito aliciante, mas há sempre pormenores a descobrir a cada leitura.


Várias mensagens são passadas nesta história fantasiosa que oferece uma realidade palpável e a crueza vívida de um período de guerra. A crueldade ostentada na narrativa contrasta com a inocência de personagens como Kippa, que ainda acreditam nos valores e na justiça. É esse contraste, o choque cultural e as implicações de tamanhas crenças que acrescentam grande valor a esta narrativa. Há uma injustiça e uma dureza que nos faz querer entrar na luta pela paz e pelos direitos humanos.
 

A arte de Sana Takeda é absolutamente apropriada. Ela mescla ingredientes dos mangás e do art deco com certos toques da cultura islâmica. As cores são outra das mais-valias do comic. Oscilam entre o dourado e os verdes, alimentando o contraste entre o bem e o mal, entre o presente e o passado, entre Maika e Zinn. E as ilustrações bónus de artistas parceiros são deliciosas. Monstress é o casamento perfeito entre um argumento extraordinário e uma arte visualmente apetecível.

Refúgio é, para mim, apenas a confirmação do trabalho fantástico que Marjorie Liu e Sana Takeda têm vindo a desenvolver em Monstress. Em muitos momentos faz-me lembrar a série de fantasia Saga do Império Malazano, sobretudo na crueldade e complexidade apresentadas, apesar de o plot ser completamente diferente e até mais fantasioso, conseguindo ser em simultâneo realista e verosímil. Se Monstress não é a melhor série de BD em desenvolvimento, certamente será das melhores.

Avaliação: 10/10

Publicado em 26 Fevereiro 2019

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