Nora Roberts: a mulher que reescreveu as regras da ficção romântica #3



(3ª parte)

Tempo de mudanças

Nos anos 80, quando Roberts começou a escrever, o modelo Mills & Boon ainda dominava o mercado. Estávamos num mundo em que as bebidas eram fortes e os homens mais fortes ainda. Ou nas palavras dela: “Ele era frequentemente um predador executivo de sucesso, ela era órfã e criada pela tia. Ela está no caminho para um novo emprego, e irá trabalhar para o homem mais rico do mundo. No aeroporto, ela corre com a sua mala forçada e vai de encontro a um homem. A mala abre-se e o seu interior é revelado – um guarda-roupa organizado mas triste. Ele chama-a de pateta desastrada e ajuda-a a colocar a sua roupa na mala e desaparece. No dia seguinte ela vai ao escritório do homem mais rico do mundo e quem poderia lá estar a não ser o indivíduo com o qual se cruzou no aeroporto?”

Nora Roberts começou a escrever “romances de cordel”, romances curtos com enredos repetitivos, porém com o decorrer do tempo Nora desenvolveu e expandiu esse modo de escrita, americanizando-o (quando começou a escrever, a maior parte dos romances românticos vendidos nos EUA eram de autores britânicos), e acabou por mudar tudo, transformando-o noutro modo narrativo irreconhecível e em tudo distante do anterior. As suas personagens são heroínas, têm empregos esquisitos e interessantes e não se aborrecem por não se casarem.

Aprovação dos pares

Foi isto que a sua colega Meg Cabot, autora da série Diários da Princesa, declarou como sendo o pilar do seu sucesso: “Os seus heróis e heroínas são tão fortes e simultaneamente tão frágeis. Têm algumas fraquezas e desvantagens em relação aos outros, e isso foi o que tornou os livros de Nora Roberts diferentes do que se escrevia no passado, dado que as personagens são tão humanas e próximas.”

Roberts foi uma das escritoras que mudou o romance romântico, declara Cabot. “Todas as suas personagens femininas têm empregos. Ela não escreve romances históricos. Elas procuram-se a si mesmas, não os outros. Não são obcecadas com casamento. São absolutamente brutais.”

Judy Piaktus, o fundador de Piaktus Books, que começou a publicar Roberts no Reino Unido e internacionalmente em 1997, afirma que, mesmo que Roberts escreva para as massas, assim que começamos a ler um livro dela “sabemos que estamos nas mãos de uma exímia artesã”.

Origens românticas

Há igualmente qualquer coisa de romance romântico na vida de Nora Roberts. Filha de um eletricista e de uma doméstica, Nora cresceu com quatro irmãos mais velhos e casou-se assim que saiu da escola com o seu amor de infância “A minha mãe deveria ter-me trancado. Mas ninguém me segurava.”, brinca Nora.

Estabeleceu-se em Keedysville, uma pequena cidade que torna Boonsboro, a alguns quilómetros de distância, uma metrópole cosmopolita; e teve, quase de seguida, dois filhos. Nunca foi ambiciosa, e não tinha desejos de conseguir uma carreira, quanto mais pensar em tornar-se escritora. “Mas claro que havia alguma coisa que tinha em mim que queria sair”, declara, “Antes de começar a escrever, digam o que quer que seja, eu fazia-o. Fazia o meu pão. Fazia as minhas compotas. Fazia crochet e confecionava roupa. Fiz toda a roupa dos meus dois filhos, e também a minha. Eu estava à procura de alguma coisa. Era a escrita. Foi isso. Alimentou qualquer coisa em mim.”

Todavia tal não aconteceu até ficar literalmente trancada em casa com os dois filhos pequenos durante um nevão – agarrou num caderno e começou a escrever, o que foi um modo de, diz ela, manter a sua sanidade. Enviou aos editores da Silhouette, que o recusaram, mas um ano mais tarde ela escreveu o seu segundo romance Irish Thoroughbred, que foi aceite. Foi uma oportunidade única. Pouco depois, divorciou-se e, como J. K. Rowling, a escrita foi a sua salvação. Permitiu-lhe estar em casa e cuidar dos seus filhos, enquanto adquiria meios monetários para os educar.

Criar heroínas dinâmicas foi algo que lhe surgiu naturalmente. “Eu não queria ser a secretária, queria ser líder. Eu não queria escrever o tipo de história na qual o homem trata a mulher como merda no livro todo e no último capítulo diz-lhe ‘Eu tratei-te mal porque te amo’. Isso para mim não funciona. Ou para outros escritores. Eu comecei a escrever o tipo de histórias que eu queria ler. Foi muito instintivo. Só queria que as personagens fossem mais dinâmicas e enérgicas.”

Artigo de Carole Cadwalladr do The Observer

Publicado em 21 Outubro 2014

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