O Cavaleiro de Westeros - Crítica no D311nh4

Para aqueles (que são muitos) que gostam de Martin, este livro é obrigatório. Para aqueles que não são fãs de fantasia épica, também o podem ler e encontrar imenso prazer nisso.
A estes últimos, um aviso: a capa engana!
Passo a explicar… Este livro conta com 10 contos e a capa caracteriza apenas um: “O Cavaleiro de Westeros”, a prequela da saga “As crónicas de gelo e fogo”.
Essa foi a minha maior surpresa!
Acreditava eu que ia ler um conjunto de contos, todos dentro da fantasia épica. Afinal, é essa a marca que associamos a Martin. No entanto, fui surpreendida pela veia futurista do autor.
Eu sabia que ele havia escrito, no passado, contos de ficção científica. Não pensei, porém, que estes pudessem ser do meu agrado, uma vez que não me inclino para o género.
É possível perceber a voz do autor em quase todos os contos, mais nuns do que outros.

Desfragmentando:

O primeiro conto“As solitárias canções de Laren Dorr” fala de viagens entre mundos, fazendo lembrar a prequela de Nárnia.
Há a visão do Deus punidor.
Fala de dor, solidão e amor.
Tem alguns pontos que, melhor explorados, dariam um belo romance.
Não foi dos meus preferidos. A certa altura achei-o um pouco redundante e com pouco enredo.

O segundo conto é a delícia para os fãs d’”As Crónicas de gelo e fogo”.
“O Cavaleiro de Westeros” desenrola-se no cenário de Westeros, tem todo o tom que Martin dá à saga, os nomes, nomeadamente os nomes de família, são conhecidos e as regras que regem estes personagens são familiares. E os desfechos? Bem à Martin!
Serviu para acalmar a saudade que tenho deste mundo tão especial.

Em “Uma canção para Lya” quase não consegui identificar o autor.
Aqui temos uma história de amor. Não que ele nunca tenha explorado este sentimento antes, mas este amor é mesmo muito dedicado, muito, digamos, “meloso”. Esta relação deu-me a sensação de ser unilateral, pelo menos ao nível da profundidade.
Contudo, repara-se que as histórias de Martin tendem a explorar a religião, no que toca às práticas e ao fanatismo.
Ora bem, num planeta longínquo, algures no futuro, há uma sociedade que se suicida em massa.
Uma palavra: interessante.
O conto fala de entrega, do amor na sua forma mais pura, extra corpórea, da partilha total, da felicidade eterna.
Uma sociedade que anseia o momento da União Final, quando atingirão a plena satisfação espiritual no suicídio, deixando-se ser consumidos por uma criatura viscosa.
Só perdeu um pouco pelo protagonista. A obsessão deste para com Lya é enervante.

“Cidade de Pedra” é aborrecido e extremamente confuso. Tem demasiadas especificidades para ser apenas um conto. Um cenário demasiado elaborado que, à falta de pormenores, deixa de ser perceptível.

“Flormordentes” também é fraquinho.
Incide sobre a ilusão, o sonho e a perda total da realidade. Explora a máxima de viver a fantasia ou existir na dura realidade.
Mais uma vez, o povo criado pelo autor é complexo demais para servir apenas para tão poucas páginas.

“O Caminho de Cruz e Dragão” é sobre a perda da fé e a extrema necessidade do ser humano em acreditar em algo.
Percebe-se algum ateísmo, mas, ao mesmo tempo, o profundo receio do derradeiro final, sem que haja realmente um propósito para a vida.
Tomei conhecimento de que o conto “Reis-de-areia” tem uma adaptação televisiva. Infelizmente, não consigo encontrá-la com qualidade, pois, é uma história excelente e agradar-me-ia ver como é que ela passou para o ecrã.
Este conto fez-me regressar à infância, aos livros dos “Arrepios”, onde havia monstros carnívoros e más escolhas por parte dos protagonistas.
Prevê-se um pouco o rumo que a história vai tomar, porém, consegue trazer alguma surpresa no final.
Os reis-de-areia são uma espécie de “The Sims”, mas reais. São formigas que se distribuem por quatro tribos e coexistem umas com as outras, guerreando quando necessário. Bem, semelhante aos seres humanos.
Estas criaturas vivem dentro de um aquário e adaptam-se ao seu tamanho.
O rosto que as alimenta é o seu Deus.
O protagonista é um humano ruim e cruel. Logo, que sentimentos crescem nos súbditos de um Deus tirano?

“O homem em forma de pêra” é contemporâneo.
Este conto explora a obsessão que tem por base a aversão à fealdade.
É um conto muito leve, em comparação com os anteriores. Lê-se bastante bem e desperta curiosidade ao longo da leitura.
No entanto, apesar de ter gostado, sobretudo por ter espoletado o mesmo efeito de repugna em mim, o final não me satisfez de todo.

“Sob cerco” passa-se num futuro pós apocalíptico, medonho, frio e totalmente destruído pela guerra.
A ciência visa usar o “efeito borboleta” para reverter a situação. Para tal, são utilizadas pessoas com deformações, capazes de enviar a mente para o passado.
Está em causa o valor da honra e do sacrifício pelo bem geral.
Reflete-se na máxima de Maquiavel: “o fim justifica os meios”.

“Negócios de peles”, para terminar, é um conto enorme. Este conto poderia perfeitamente ser um livro pequeno.
Aqui, não reconheci Martin.  Estamos perante um policial com lobisomens. 
Seja no tipo de linguagem mais coloquial, na interação dos personagens, nos traços de personalidade dos mesmos, não diria que este conto era da autoria dele. 
Finalizando, os momentos mais prazerosos foram as notas introdutórias do autor antes de cada conto. Na minha opinião, isto humaniza e aproxima o autor dos leitores.

Publicado em 28 Fevereiro 2014

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