O Dardo de Kushiel - Crítica no blogue Ler y Criticar

Quando no início do ano aproveitei a promoção 3=2 do site da editora Saída de Emergência (penso que para comprar os primeiros dois livros da saga O Mago) foi este o livro que recebi de oferta. Porque o escolhi? Achei a capa interessante, li a sinopse e decidi arriscar.
Contudo li o livro sem qualquer expectativa, mas rapidamente comecei a gostar a forma como Carey escreve. Quase como um diário, a história é-nos narrada por Phèdre, uma personagem que se tornou aos poucos mesmo muito interessante. Mas já lá vamos.

Primeiro que tudo devo avisar: se só gostas de fantasia rápida, cheia de acção, em que tudo é lido sem grande esforço mental, então este livro não deverá ser para ti. A verdade é que o início do livro é lido com algum esforço, primeiro porque a escrita de Carey é lenta, e depois porque o universo criado é grande, muito grande, cheio de personagens que "entram" nas páginas como se nós já as conhecêssemos. Resumindo: passamos muito tempo a visitar as páginas que nos indicam quem são as personagens. Obrigado à editora, sem estas páginas tornar-se-ia mesmo muito difícil.
Passadas algumas páginas a ginástica mental, necessária para percebermos o que se passa, diminui, mas nunca se torna num livro fácil de ler, pois o enredo é realmente complexo, sendo algo que ao início pode afastar alguns leitores, mas acreditem que existe muita qualidade neste livro. Lentamente percebemos as movimentações desta vasta corte cheia de intrigas, manipulações, prazeres e a história começa a agarrar-nos.

Sendo um livro de fantasia, a verdade é que essa mesma fantasia é muito mais sugerida do que imposta pelo mundo onde se desenrola, e como tal não se trata de um livro de fantasia puro, sendo muito mais um romance que tem um ou outro toque de fantástico. Mas o que realmente impulsiona a história é muito mais real do que fantástico. Como tal, o que move esta história?
Sexo. Sexo é, sempre foi, e sempre será, uma forma de poder, de persuasão. O sexo, a atracção e desejo consequente são armas poderosas, viciantes, incrivelmente bem usadas pelas personagens deste livro por forma a manipular e usar quem sente esse desejo... e aos poucos entramos neste mundo de intrigas, sedução e luxúria. Vamos lendo e percebendo as teias que prendem algumas personagens, o desejo por Phèdre, por aquilo que apenas ela pode dar. Tal facto, juntando-se a astúcia e a evolução da personagem, tornam Phèdre uma personagem que vale a pena seguir. Rejeitada por uns, usada por outros e desejada por todos, Phèdre é a "voz" de uma história elegantemente narrada, com uma escrita que tenta ser sensual (certamente grande trabalho na tradução) por forma a aproximar-nos na personagem, sua vida e sentimentos.

O universo criado por Carey, vasto em personagens, é simultaneamente parecido e diferente das culturas europeias de séculos passados, mas nota-se desde o início que se trata de uma criação capaz de sustentar uma história por muitos livros, ficando apenas por saber se a autora terá a arte de usar de forma satisfatória tudo o que criou.
O livro é grande, principalmente porque se trata apenas de metade do original, muito graças à narração pormenorizada, quase um diário, de todos os acontecimentos. A escrita de Carey nunca torna o livro desinteressante, e como já disse, é um livro que tenta seduzir. Visualmente forte, Carey não "censura" nas descrições, sendo muitas as que tornam este livro num romance para adultos, devendo "ficar fora do alcance das crianças". Também estas descrições podem desagradar a algumas pessoas, mas sinceramente penso que encaixam bem na história, principalmente para sentirmos o que Phèdre sente.
As restantes personagens são boas, bem construídas e a história tem tudo para se tornar em algo que seja realmente bom. Infelizmente este livro sofre do facto de estar dividido. Se por um lado é bom não termos de carregar um livro com mil páginas, por outro senti que este primeiro volume é muito mais introdução do que desenvolvimento, visto que apenas nas últimas páginas (nas últimas 50, ou perto disso) é que os acontecimentos começam a acelerar verdadeiramente, dando a ideia que o próximo livro será mais rápido.

Como tal ainda me falta ler muito desta saga para a recomendar sem hesitar, mas confesso que este primeiro livro foi uma boa surpresa. Quem olhar para a sinopse e achar o tema apelativo, não ficará desiludido nestas quatrocentas páginas. Uma excelente estreia desta escritora, que apesar de não ter uma saga que encaixe no género que mais aprecio, a verdade é que já tenho aqui na estante o próximo livro para ler um dia.

Publicado em 15 Dezembro 2011

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