O Diabo também chora - Crítica no blogue Pedacinho literário

Seja atlante, grego ou sumério, um deus é sempre sinónimo de respeito e poder, de bravura e um certo egoísmo. Mas quando esse mesmo deus se vê destituído dos dons que acompanham o seu estatuto imortal, o seu intelecto sobrenatural, nada o impedirá de procurar vingança, de desejar a morte aos que se interpuseram no seu caminho. Poucos são os corajosos que enfrentam um ex-deus furioso, marcado por um passado de terror, mas ainda menos são os que se permitem apaixonar perdidamente por um.

O diabo também chora retrata toda uma série de acontecimentos, pormenores e características de um grupo de personagens e panteões que, com o avançar da saga, veio responder a algumas perguntas deixadas para trás. Sin pode ser o protagonista deste romance, o homem que se forçará a abrir o coração quando a traição é um sentimento ainda tão recente, ainda tão doloroso no seu peito, mas com Katra como companheira, é inevitável não abordar uma das criaturas mais misteriosas e curiosas de todo o universo fantástico – Acheron.
Sherrilyn Kenyon é uma escritora exímia, de inconfundível talento. O modo como consegue manter o seu leitor expectante, numa agonia aprazível pela chegada do próximo volume da saga, da próxima história predatória, é intensamente maravilhosa no sentido em que o interesse e o empenho em se querer saber mais está sempre lá.

O protagonismo a duas vozes está presente, é sentido ao longo de toda a narrativa. Sin e Katra formam um casal indubitavelmente carismático e inesperado, onde a troca de comentários irónicos e trocistas são a base estável para um relacionamento comum mais profundo, assim como uma componente altamente desfrutável para deleite próprio do leitor. Mas também as aparições secundárias são de grande importância e magnetismo. Cada elemento tem o seu papel na demanda pela salvação humana e, aqui, não só Acheron alcança feitos extraordinários como Ártemis, Zakar e até os «maus da fita» são capazes de embalar o leitor numa aventura sem igual.
O que mais impressiona, no entanto, o que mais cativa ao percorrer estas páginas, não são propriamente os obstáculos malévolos que as personagens têm de defrontar, mas sim as batalhas pessoais às quais não mais podem fugir. Alguns segredos são revelados, alguns comportamentos são compreendidos e um ou outro amor é deixado a pairar no ar... juntamente com uma réstia de esperança, de que, no futuro, tudo se revolta pelo melhor e mais justo.

Do volume anterior para este, muito do cenário paradisíaco se viu submerso nas águas idílicas de uma Grécia irresistível, mas ainda que algumas personalidades errantes se tenham mantido à tona, a transformação foi tão grande e total que, do paraíso paisagístico, o leitor foi transportado para o éden do pecado, do vício. E é essa metamorfose de locais, essa facilidade com que Kenyon move os seus peões e, consequentemente, os seus leitores, um dos elementos de maior interesse de todo o enredo pois, dessa forma, fica perceptível, pelo lugar onde se encontram, parte da personalidade que perfaz cada uma das personagens a ser retratada. O que, por sua vez, resulta numa ligação mais fácil e compacta tecida entre interveniente e espectador.

No que a mim diz respeito, confesso ter uma adoração extrema por esta saga. E admira-me, profusamente, a capacidade da autora em conseguir agarrar o leitor à sua história «sem fim», mantendo o enredo sempre fresco, sempre apetecível. A sua escrita é quase cinematográfica, focando-se na essência que envolve o relacionamento entre as personagens, e nas descrições de detalhes imprescindíveis à trama e, por isso, sente-se uma fluidez e naturalidade incríveis aquando da leitura.

Esta é uma saga que aconselho a qualquer aficionado por fantasia urbana com um certo toque de sensualidade. Uma aposta indispensável e verdadeiramente apaixonante por parte da Chá das Cinco, uma chancela bem feminina da reconhecível Saída de Emergência. Gostei muito.

Publicado em 17 Setembro 2012

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