O Dragão de Inverno & Outras Histórias - Crítica no blogue As Histórias de Elphaba

É muito difícil para mim falar deste livro e as emoções que me ocorrem quando pretendo começar a expressar-me são contraditórias. Por um lado a mestria de George R. R. Martin é arrebatadora mas, por outro, eu não sou fã de short stories e de cada vez que começava a viver intensamente um dos seus enredos este terminava, deixando o constante desejo de saber mais.

O Dragão de Inverno & Outras Histórias é a compilação de dez pequenas narrativas elaboradas ao longo da carreira deste autor, umas permeadas, outras não (creio eu), dentro dos géneros FC, horror e fantasia que, inegavelmente, revelam todo o seu talento quanto à exploração o ser humano – enquanto criatura repleta de sentimentos avassaladores e defeitos – e de novas realidades extraordinárias que só poderiam brotar de uma mente efervescente, brilhante e plena de criatividade como a sua.

A complexidade de cada história é tal que eu arrisco-me a dizer que poderia criar uma opinião singular para cada uma delas mas, como não quero alongar-me em demasia, vou tentar generalizar, citando apenas os títulos que mais gostei e abordando, de forma ligeira, o que poderão encontrar ao longo da obra.

Uma das histórias que mais gostei foi a primeira, Esta Torre de Cinzas. Misturando fantasia com FC, esta pequena trama, quase romântica, apresenta criaturas extraordinárias e cenário de cortar o folgo. O seu protagonista está muito bem conseguido e envolve o leitor a partir das primeiras frases através da dicotomia imaginação e realidade, de tal maneira que até aos últimos momentos do texto o leitor pode ser ludibriado em relação às suas reais vivências. Está perfeito.
«(…), as sonhos são muito frequentemente melhores do que o acordar, as histórias são muito melhores do que as vidas.» - Página 27

Outra das histórias que acaba por marcar este livro é aquela que foi escolhida para estar presente no título, a terceira, O Dragão do Inverno. Esta é a típica narrativa de fantasia épica em que não faltam dragões, cavaleiros, batalhas e personagens peculiares, recordando um pouco do ambiente que conheço das Crónicas de Fogo e Gelo que geraram uma legião de fãs deste autor a nível nacional. A protagonista desta narrativa, Adara, é ela própria um símbolo de magia singular que cria empatia pela solidão, pelo frio que a domou um dia, sensibilizando o leitor para a sua condição. É um tributo ao inverno, à cadência do tempo. Um bonito e triste sonho, foi assim que o senti.

E gostei mesmo muito da oitava história, Variações Falaciosas, e da última, Retractos Dos Seus Filhos. É comum a ambas as histórias um ambiente actual mas tirando isso em nada se assemelham.
A narrativa número oito tem personagens palpáveis que retractam as pessoas de hoje com problemas diversos, qualidades e, principalmente, o defeitos. Encontram-se em vogue questões como a ambição, ganância e vingança, e penso que posso caracterizar este texto, acima de tudo, como um thriller psicológico em que está expresso a evolução emocional do homem na maturidade.
Retractos Dos Seus Filhos, por sua vez, é uma história de terror onde a psique humana é trabalhada prodigiosamente. O protagonista, no qual se centra toda a narrativa, é um escritor e o leitor tem oportunidade de verificar a sua obsessão pela escrita e a influência do seu trabalho na sua vida. São páginas repletas de tensão e criatividade que me prenderam até ao último momento e, segundo o próprio autor, Martin, esta história não pode ser definida como fantasia, FC ou horror é, simplesmente, uma história. Confirmo, é uma história extremamente bem idealizada. Adorei.

Pondo de lado as histórias que citei, é importante citar que gostei de todos os textos com variados níveis de satisfação e o que importa realmente referir que são todos muito diferentes entre si e trabalham temas diversificados e, o mais importante, pertinentes intemporalmente. O fanatismo versus a religião, sexualidade, obesidade ou até, fantasmas, são algumas das questões que o leitor verá exploradas através de ambientes discrepantes.

Em relação à escrita de George R. R. Martin, este é tudo aquilo que eu já conhecia e um pouco mais. Assertivo, versátil e original são adjectivos que lhe assentam na perfeição e que aliados à beleza dos seus textos, repletos de descrições, nos permitem vivenciar totalmente as experiência das suas personagens, mostrando, sem dúvida, todo o seu talento.
A sensação com que fiquei é que o autor é um mestre no horror, mais ainda do que na fantasia, criando um suspense incrível, como poucas vezes tive oportunidade de ler e trabalhando as emoções de uma forma muito crua que alcança o público na medida certa.
Achei igualmente interessante ver o quanto de si próprio George R. R. Martin passa para as suas histórias que são, neste livro, complementadas com introduções pertinentes e que fazem toda a diferença para quem lê permitindo, de alguma forma, que se assista à evolução daquele que é hoje um ícone literário.

Como nota final, acho que a história que merecia vigorar no título era a sexta, Nightflyers, pela sua complexidade, pelas quase 100 páginas que a constituem e, essencialmente, por mostrar toda a competência do autor. No entanto sei que sendo esta é uma narrativa de FC, com fantasmas e naves espaciais há mistura, afugentaria algum público. Mas é boa, muito boa. Meteu-me medo de verdade!
Em suma, gostei mesmo muito deste livro que fugiu à minha rotina habitual de leituras.

Uma excelente aposta da Saída de Emergência que contribuiu para eu começar as minhas leituras de 2013 repletas de qualidade.
Este é um livro que eu sugiro a todos os fãs do autor mas também aos curiosos sobre o seu trabalho ou de algum dos géneros acima frisados.

Publicado em 28 Janeiro 2013

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