O Inimigo de Deus - Crítica no blogue As Leituras do Corvo

Agora que a paz parece estar reestabelecida, as atenções de Artur voltam-se novamente para o velho inimigo. O objectivo é fazer com que os Saxões sofram a derrota definitiva, de modo a que a tão desejada paz se instale na Bretanha. O problema é que nem todos partilham dos mesmos objectivos de Artur e, no que toca aos que lhe são próximos, este nem sempre vê as ambições sob a máscara da lealdade. Entre ambições desmedidas e ódios antigos, a paz não poderá perdurar... e a traição virá de onde menos se espera.
De ritmo pausado e com muitos pormenores para assimilar, este é um livro que surpreende principalmente pelos momentos de grande intensidade que, pontualmente, surgem numa narrativa em que os tempos de espera são tão importantes como as grandes batalhas. A história, contada por Derfel, é tanto dos grandes confrontos e das intrigas que mudarão o rumo da história como dos pequenos momentos ao longo da passagem do tempo que os separa. E os eventos da paz são tão importantes como a guerra e a traição, pois contribuem não só para uma caracterização completa das personagens como para justificar as suas formas de agir quando a tranquilidade é interrompida.
Sendo esta trilogia uma versão bastante diferente e bastante mais dura da lenda arturiana, é difícil não reconhecer as diferenças e, principalmente, a mestria com que o autor as molda. Retirando elementos de diferentes versões para as conjugar numa história envolvente, vasta tanto na caracterização das circunstâncias como nos pormenores acerca da forma de vida das suas personagens, a narrativa cativa tanto pela atenção ao detalhe como pela fluidez com que escrita, com um narrador que é, ao mesmo tempo, uma personagem carismática e através de cujos olhos é possível ver o melhor e o pior das personagens que povoam esta história.
E no centro de tudo isto está Artur, senhor relutante e líder carismático, capaz de decidir com generosidade e de punir com dureza, inspirando com igual força lealdades e ódios. Artur visto pelos olhos de Derfel é, provavelmente, a mais complexa das personalidades apresentadas e reflecte-se tanto pelas suas próprias peculiaridades (duro na guerra e severo nas decisões, mas quase demasiado inocente no que toca aos que lhe são próximos) como pelos sentimentos ambíguos que inspira em Derfel e, consequentemente, no leitor. Cria-se, assim, uma proximidade emocional com as personagens e, entre as circunstâncias que inspiram empatia e os actos que parecem simplesmente revoltantes (mas que fazem sentido no contexto da situação), o enredo torna-se cativante não só pela precisão da caracterização ou pela mestria na descrição dos conflitos, mas também pela forma como as personagens despertam, no bem como no mal, as emoções de quem lê.
De leitura cativante, apesar do ritmo pausado, esta é uma história que impressiona tanto pelo enredo, com todas as suas grandes mudanças e picos de intensidade, como pela construção de personagens complexas, carismáticas e capazes de despertar a medida certa de empatia. Uma meticulosa reconstrução da lenda arturiana e uma leitura fascinante em todos os aspectos. Muito bom.

Publicado em 24 Maio 2012

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