O Livro dos Mosquetes - Crítica no blogue Encruzilhadas Literárias

Gostaria de começar por dizer que a minha única e grande crítica a este livro vai para o diálogo. E digo-o porque este tem alturas em que passa de fluído e natural para autênticas lições de história, o que o torna não necessariamente massador e mas sim irrealista.
Sei que na altura as pessoas eram mais instruídas que hoje, ora se a memória não me falta houve um jesuíta italiano que levou para a China mais de 50 livros dentro da sua cabeça, completamente memorizados e chegando lá os escreveu. Com isto quero dizer, que havia um certo nível de excelência que era requisitado às pessoas que se faziam ao mar com o intuito de descobrir mais sobre os povos. No entanto, João dá-nos a entender que, e apesar de ter sido educado pelo tio que era padre, recebeu uma educação muito superior ao normal. Esta educação acaba por não incluir, necessariamente, uma educação religiosa mas lhe dá capacidade para falar e dar opinião sobre vários temas, que talvez fossem de difícil compreensão para um português normal. Assim sendo, pareceu-me um pouco irrealista quando ele começa a explicar tudo, em japonês, à sua amada quando ela lhe faz perguntas.
De resto, o livro é genial, é um livro de época que faz justiça à cultura japonesa e mesmo as falas dos mesmos, estando em português, tem os seus maneirismos, como o "né", tornando-as mais realistas. Toda a atmosfera foi também muito bem descrita e creio que o povo foi capturado na sua essência. Algo que é raro encontrar, visto que os autores tendem a fantasiar as culturas orientais conferindo-lhes uma certa magia e encantando, perpetuando com isso estereótipos.
A verdade é que os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Japão e na realidade, este ano fazem 450 anos desde a chegada dos portugueses ao porto de Kochinotsu. Foi por isso uma grande sorte este livro ter sido lançado este ano, foi na realidade, talvez o ano ideal e fico muito feliz de o ter lido nesta data tão especial.
Apesar de todo o romance em torno de João Boavida ser especulativo a verdade é que foi muito bem encaixado no contexto histórico e é deveras realista. Tenho que felicitar o autor pela sua pesquisa que sem dúvida deve ter sido intensiva e pela sua prosa que tão bem misturou romance e factos. Um livro que sem dúvida despertará a atenção dos curiosos em relação ao oriente.
Por curiosidade acabo este comentário com uma foto das celebrações dos 450 anos da "nossa" chegada ao porto de Kochinotsu. Nesta foto os japoneses vestem trajes típicos e carregam espingardas japonesas, que deduzo sejam de época.

Publicado em 31 Outubro 2012

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