O Mistério de Charles Dickens Vol.II - Crítica no blogue O Papiro de Seshat

Neste segundo volume, Dan Simmons retoma as circunstâncias misteriosas da descida de Charles Dickens à Londres subterrânea, e entrelaça tais eventos com a criação da misteriosa personagem de Edwin Drood, tal como contada pelos olhos do grande amigo de Dickens, o romancista Wilkie Collins. Como em "O Terror", o primeiro volume parece compor os pilares da narrativa, as suas circunstâncias, enfim, dispor os elementos do enredo em preparação do grande desfecho, enquanto o segundo volume precipita todos os acontecimentos, faz cair sobre as personagens as consequências dos seus actos e opções. O que, se pensarmos bem, é uma opção inteligente, porque livra o leitor daquela tão frequente sensação de estar a ler o mesmo e interminável livro. Wilkie Collins é desta vez a personagem principal, muito mais que um narrador das suas desventuras como atrelado subserviente de Dickens, de resto um papel do qual ele se ressente profundamente. Consequentemente, a sua inveja e desdém por Dickens é aqui muito mais vincada à medida que o próprio Wilkie embarca sozinho nas suas próprias aventuras e entra numa espiral descendente com o vício do ópio. Dir-se-ia que a sua mesquinhez e egoísmo se realçam ao ponto de o tornarem uma personagem pela qual é extremamente difícil nutrir empatia, as suas falhas de carácter tornando-se o principal pilar do modo como a história se desenvolve.  E desenvolve-se ruindo-lhe em cima, desmoronando-se sobre as suas crenças e convicções, até a própria realidade de tudo o que lemos até então ter de ser colocada em causa. Collins divide-se num Dr. Jekyll e Mr. Hyde catalizados pelas drogas e ciúme biliar pelo sucesso de Dickens, mas também pelo Wilkie Collins alterno, herdado do primeiro volume, e que para o "original" parece querer tomar-lhe conta da escrita, enfim da vida. Por trás da sua aparente amizade, Charles Dickens e Wilkie Collins encetam entre si um jogo mortífero de consequências inesperadas quando ambos decidem procurar conceber o homicídio perfeito. Para Collins trata-se de algo muito mais profundo do que o mero apelo literário, e emocionalmente instável, tomado dos seus piores sentimentos, vendo como forças terríveis se amontoam contra si, Collins só pensa numa coisa: colocar um travão a todos os seus problemas com Drood do único modo que pensa resultar, o assassinato de Charles Dickens. O seu plano, no entanto, não correrá como planeado, e para o leitor o desfecho será agradavelmente inesperado. Neste emergente duelo entre a racionalidade e a insanidade de Collins, até mesmo o leitor fica na dúvida sobre a veracidade dos factos e vemo-nos tentados a questionar o narrado por Wilkie como fruto dos seus próprios delírios e compete a cada um seleccionar o que entende como realidade, uma tarefa nem sempre fácil. Com uma narrativa serpenteante, o segundo volume de "O Mistério de Charles Dickens" despe um pouco a aura de aventura de traços sobrenaturais do primeiro volume para nos mostrar a vida e os meandros da mente de um psicopata funcional no seu esforço para esconder do mundo os seus devaneios mais macabros e os actos em que estes culminam. Como a descreve Simmons, a personagem central adquire progressivamente os traços de um transtorno dissociativo de personalidade, daí emergindo toda uma série de elementos narrativos cuja veracidade é difícil atestar, facilmente tomados por tentativas de uma mente insana de dar sentido ao seu mundo e se descartar das suas próprias decisões. E este tom narrativo fica bem ao enredo geral. É que neste romance sobre dois ícones literários da época Vitoriana, Simmons recupera habilmente algumas das temáticas da literatura de então, tornando "O Mistério de Charles Dickens", talvez não o livro que pudesse ter sido escrito durante o tempo de vida de Dickens, mas o tipo de história cuja concepção seria por então plausível, o que quanto a mim torna o livro tão mais credível. Enfim, pela pena vincada de Simmons, Wilkie Collins inicia este périplo procurando o misterioso Drood como a encarnação do mal, mas de todas as catacumbas em que o procurou, é naquelas inexploradas do seu próprio confuso interior, que acaba por o encontrar.

Publicado em 13 Novembro 2012

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