O Poço da Ascensão - Crítica em Segredo dos Livros



Já aguardava por este livro há algum tempo. O primeiro livro da saga tinha-se revelado fresco, surpreendente e bem construído. Ansiava por mais.

O "Poço da Ascensão" de Brandon Sanderson é um livro que vive intensamente na interrelação de personagens, explora o seu questionamento e a experimentação de modelos sociais. A alomância e a ferruquímica, capacidades que distinguem algumas das personagens mais relevantes desta saga, estão impressionantem ente bem construídas. A sua complexa teia de ampliação de sentidos humanos e não humanos, alavancada em metais que, no caso da ferruquímica, também servem como depósitos de conhecimento e estados, amplia também ao leitor os sentidos.

A obra é extensa e está dividida em cinco partes. No início, temos de agradecer a informação detalhada em forma de mapas e notas que nos permitem regressar com facilidade a Luthadel, um anós após a queda do Senhor Soberano. Deposto o absoluto, é necessário procurar um modelo de organização que permita reaprender a continuar a viver, depois de tantos anos reprimidos por uma só vontade; que permita criar objectivos, depois de retirados os únicos que existiam e que eram os impostos. 
A metade inicial da obra, com a cidade de Luthadel sob cerco, debruça-se sobre as dificuldades que levanta um modelo mais democrático, que procura incluir todas as classes nas decisões, integrando, portanto, os Skaa. Sentimos os questionamentos e dificuldades da passagem de um modelo a outro, sem referências (sem outras cidades ou pessoas que tenham vivido um outro exemplo) a não ser as que Elend busca incessantemente nos seus livros e dentro de si. A brutalidade confronta a honestidade e é uma experiência enriquecedora perceber a complexidade de elementos que se ajustam permanentemente , de modo a tentar manter uma certa estabilidade. Estabilidade que nunca se mantém por muito tempo.

Os símbolos e as construções de poder que se vão desenvolvendo, confrontando e que acompanhamos, dão-nos uma percepção da complexidade do que envolve uma figura de poder, do que nos faz reconhecê-la como tal, das vantagens e desvantagens de um poder absoluto ou democrático. 
A transformação das personagens reflecte-se nas relações entre elas. Curiosamente, Vin, uma mulher prática, de acção, de reacção moldada pela sua dura história, aproxima-se dos estudos, enquanto Elend, o seu companheiro e rei, se aproxima da necessidade de acção e das figurações de força a ela associadas. 
Vin, protectora, insegura, procura o seu lugar e a sua identidade confrontando-se consigo mesma de diversas formas. Elend procura igualmente o seu papel, de acordo com a sua personalidade honesta de estudioso desalinhado. 
Ambas as personagens iniciam uma mudança, uma transformação que as aproxima e que as separa de várias formas. 

O desenvolvimento do estado social e político de Luthadel é acompanhado pelo questionamento introspectivo das personagens. Desenvolve-se de forma lenta e nem toda a nova informação é integrada e relacionada pelas personagens o que leva a um distender desta fase, quanto a mim excessivo. Tal contrasta com os momentos vívidos em que as personagens se juntam em diálogo e avançam na narrativa, contrapondo opiniões, confrontando personalidades e segredos. Os momentos de reflexão individual são consistentes com a evolução posterior das personagens e servem-lhes de contexto, mas não conseguem ter a frescura dos diálogos de Vin com o seu cão ou de Sazed com a sua conterrânea. Há, assim, momentos de uma certa estagnação angustiada, se bem que esta reflecte o impasse do estado social e político, titubeante e experimental, que se entranha na escrita, ao tactear esta dimensão sociopolítica.

Os momentos em que o "velho" bando se encontra são de familiaridade também para o leitor e animam o contraste entre os indivíduos escolhidos a dedo pelo sempre presente e ausente Kelsier. São habilidosos e ternos estes momentos, mesmo quando à luz de um confronto. A coesão de um grupo improvável em lutas desiguais e perniciosas traz a lume o que cada um tem de inesperadamente melhor e pior.

As lutas demonstram o domínio do autor ao estender para o limite as suas personagens, oferecendo-lhes um raciocínio e uma capacidade de reacção que integra realmente as possibilidades alomânticas. As personagens agem de acordo com estas complexas combinações de capacidades e sentimos a veracidade dos movimentos, acções e reacções a uma velocidade vertiginosa. A quantidade de detalhes oferecidos é a exacta, de modo a apercebermo-nos da miríade de informação com que lida Vin, a protagonista da maioria dos grandes confrontos, e, ao mesmo tempo, não ficarmos presos à envolvente, perdendo a possibilidade de perder o fôlego com a dinâmica intensa das lutas.

O resolver da obra aponta talvez em demasia para o livro seguinte, parecendo ter-se desenrolado a narrativa de modo a abrir-se um novo capítulo. Mas é também o final do livro que nos oferece uma das descobertas mais surpreendentes e que altera a percepção de grande parte do que tínhamos lido.

Concluindo, é um livro de contrastes. Há uma experimentalida de honesta quanto ao estado social e político, mas que resulta em demasiada hesitação e há relações de personagens que nos trazem momentos inesperados de grande fruição. Os momentos de luta e de domínio das capacidades alomânticas são impressionantes , enquanto as fases de questionamento individual das personagens são um pouco isoladas da narrativa. 
É um bom livro, que nos faz acompanhar as personagens com as quais já crescemos no primeiro e que, apesar de ainda tão jovens, desafiam o mundo e desafiam-se a si próprias.
Já anseio pelo próximo.

CAPA: Uma nota positiva para a capa ilustrada por Luís Melo que respeita o tom e ambiente da saga e a presença fluída da protagonista, Vin. Se algum comentário poderia fazer, seria o de alongar os pés e pescoço da personagem, indo ao encontro da sua agilidade e elegância. Parece-me muito boa ideia ter ilustradores com expressões que se enquadram nas obras, a dar a cara aos livros.
Publicado em 19 Março 2015

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