O Prisioneiro da Árvore - Critica no Refém das Letras

Finalmente, eis que se chega ao derradeiro volume de uma tetralogia muito especial. O Prisioneiro da Árvore termina, assim, uma saga de amor, fé e poder que relata sob uma perspectiva muito própria a mítica lenda Arturiana. Depois de três intensas partes que encaminharam a história para uma tão desejada conclusão, é com enorme entusiasmo que se inicia este último percurso pelas terras de uma Bretanha ancestral envolta em misteriosas brumas. Se a curiosidade em conhecer o destino de Avalon e de Camelot é grande, não o é menos aquela de saber o que acontecerá às suas extraordinárias personagens. Dito isto, não é com surpresa que este se afirma um final magistral, digno de uma obra de notável qualidade, embelezado até por uma agridoce imprevisibilidade.

 

A maior incerteza que se pretendia desvendar aqui e a pergunta que pairava mesmo antes de Arthur se fazer rei era, afinal, o que seria feito de Avalon num mundo que, aparentemente, a esqueceu. Surpreendentemente, a ênfase não recai sobre o destino de Avalon, mas antes sobre o que Avalon significa perante uma sociedade que vive em novos tempos e com outros ideais. Se o que se aguardava era um tratado bélico entre Pagãos e Cristãos, o engano não poderia ser maior. Acima de tudo, esta é uma obra de introspecção que coloca paralelamente o poder humano e o divino, desmistificando a influência que cada um tem sobre o outro. O conflito é inquestionavelmente real, mas quem iniciou de facto essa guerra? Terá sido a ira divina ou a ingratidão do homem? Perceber esta questão é fundamental para atingir a paz entre os homens, sobretudo a plenitude de espírito que só os mais atentos conseguem alcançar. Deste modo, poucos conhecem a verdade da vida e o que ela significa. Apenas uma alma se preenche desta fulminante epifania e só essa alma, antes incompleta, se consegue transfigurar em luz imutável.
 
 
As Brumas de Avalon segue vários caminhos durante esta leitura, tornando possíveis múltiplas hipóteses antes inverosímeis. Sente-se a magia a correr pelas páginas à medida que se desvenda cada aspecto do enredo, nunca havendo desilusão por parte do leitor. Empreendem-se muitos acontecimentos, o que se justifica não só por haver muito por concluir, mas também pela longa extensão temporal que constitui O Prisioneiro da Árvore. Esses acontecimentos determinam a corrente situação das personagens e o seu relacionamento com o ambiente envolvente. Mas mais importante que isso, a maioria desses acontecimentos alteram o relacionamento das personagens com elas próprias. A sua individualidade é mais marcante que nunca e as suas decisões revelam quem, na verdade, são e qual o seu papel na transformação que se sente no mundo.
As personagens e a sua evolução são, portanto, um aspecto fulcral do livro. A sua cronologia extensa é fortemente demarcada nas personagens e sente-se cada uma a amadurecer ao seu próprio ritmo, comprovando que o passar dos anos não só traz rugas, como conhecimento. Sem esse conhecimento, não seria possível a Morgaine alcançar uma sabedoria tal que lhe permitiu crescer exponencialmente em espírito. Embora parecesse que era impossível desenvolver mais esta personagem, Bradley atraiçoou-nos numa reviravolta impressionante, demarcando a sua genialidade em relacionar complexamente personagens e enredo. Também Gwenhwyfar se afirma na sua personalidade sólida, emancipando-se de uma forma que tem tanto de surpresa como previsibilidade. É, no entanto, em certas personagens que até aqui eram participantes do plano secundário que se constroem as maiores surpresas. Nomeadamente Morgause, Gwydion, Kevin e Lancelet são atirados no vórtice tempestuoso das disputas íntimas de interesses e desejos, acabando num lugar à altura das suas acções. Arthur, pelo contrário, preenche-se de um grande vazio e pouca relevância enquanto figura activa. É mais valorizado o seu simbolismo, a imagem do Rei Supremo que dele transparece do que propriamente a pessoa e as respectivas características que lhe são inerentes. Afinal, o que será feito do Rei Veado, quando o jovem veado crescer?
 
Apesar de se revestirem de aspectos humanos e terrenos, as personagens não se privam do culto transcendente que a autora logo no início enraizou. A fé continua a fazer mover cada um, à sua maneira, tendo um sentido muito particular neste último tomo. Porque a fé é algo intocável, porém profundamente poderoso, porque quando a fé se afronta perante o mortal, impulsiona-no na procura de algo melhor, no encalço da perfeição intangível, que por o ser, leva à loucura. O orgulho do homem cega-o, moldando-lhe a mentalidade e o pensamento, tornando-o ciente de que pode deter um poder maior que o do próprio universo. Esta ambição, quando não controlada, pode ser fatal. Conduz à hipocrisia, à traição e por fim à destruição. De facto, a crença tem um poder muito forte, na maioria dos casos oculto aos olhos. É quando se vislumbra uma centelha dessa crença e se é sensível aos seus desígnios que se cumpre o seu verdadeiro propósito. Só assim é possível iluminar a humanidade.
 
Dotada de uma narração mágica, até por vezes hipnotizante pelo balancear criteriosamente ajustado das palavras, Bradley fez desta uma história de reflexão, em que em cada capítulo são levantadas questões com as quais qualquer leitor se pode relacionar. São sentidas as vivências das suas personagens, as suas alegrias e angústias, anseios e tormentos, sendo que esta forma inteligente de dar a conhecer o âmago das personagens nos faz amá-las ou odiá-las com mais fervor. Esta particularidade intensifica-se com o aproximar do fim, onde nada mais interessa do que a condição final de cada figura que durante quatro livros nos deliciaram e encantaram.

Com O Prisioneiro da Árvore, culmina-se em todo o seu esplendor uma brilhante saga da literatura fantástica. Constituída por momentos imprevisíveis protagonizados por personagens marcantes que muito já viram da vida, As Brumas de Avalon finaliza-se após uma era erigida pela dedicação à fé e ao poder, ponteada por guerras sustentadas pelo ódio, mas também envolta no mais puro amor que tolda a sensibilidade humana. É uma obra que, na sua essência, leva o leitor mais longe na experiência da leitura envolvendo-o num mistério tão antigo quanto a própria raça humana, que faz mover massas a cada século de existência. Uma autora genial, uma história aliciante e personagens magníficas fazem de As Brumas de Avalon um irrepreensível culto literário para qualquer tipo de leitor em qualquer geração.
Publicado em 22 Agosto 2014

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