O Rei do Inverno - Crítica no Ler y Criticar

Que decisões estarias disposto a tomar por amor?

Apesar de já ter lido algumas sagas sobre o Rei Artur, a verdade é que nunca tinha lido Cornwell, e sendo esta, considerada por muitos, como a sua obra prima, decidi voltar à Idade das Trevas em que Artur é o nome mais brilhante.

Cornwell é, provavelmente, o autor mais famoso no seu género e dificilmente se fala de romance histórico sem evidenciar Cornwell e o seu metódico trabalho. No entanto, comecei esta leitura tentando ter as expectativas o mais baixas possíveis, e caminhei neste ritmo lento que Cornwell nos oferece. A realidade é esta: o enredo começa muito devagar, levando-nos para um cenário realista e que demonstra o enorme conhecimento de Cornwell sobre esta era, mas também a sua capacidade de "tapar" os buracos no conhecimento que temos daqueles anos.

E assim, sem nunca perder o interesse, fui levado para um enredo bastante realista, muito detalhado e com personagens que demonstram as falhas normais de um ser humano numa era em que a sobrevivência era testada a cada dia. E para mim esse é o grande trunfo do autor: a sua capacidade de dar uma história realista, que se afasta de outras mais fantásticas ou mais carismáticas, para nos oferecer um enredo que sentimos que poderia ser real.

Começando pelo mundo criado por Cornwell, nota-se um grande conhecimento sobre aqueles anos. Cornwell não se inibe ao descrever locais, mentalidades, lides diárias e necessidade fundamentais da sociedade, criando uma base estrondosa para a sua trilogia, ao ponto de tudo ser credível. Quando Cornwell começa a desenvolver a sua trama já nós temos a sensação que conhecemos realmente este mundo e tudo se torna mais fácil de assimilar. Lentamente, religião, política e mentalidades, misturam-se com os já normais temas da época (amor, vingança, honra, ganância) e esta mistura é feita sem qualquer esforço, novamente porque a base está muito bem conseguida.

Claro que no início podemos estar perante uma leitura ligeiramente penosa se gostarmos de um ritmo mais elevado, mas o extraordinário detalhe que Cornwell nos oferece é impressionante e, para mim, a leitura foi sempre muito agradável, pois sentia que estava a ganhar um conhecimento que poucos autores poderiam oferecer. Para ajudar ao início da leitura temos ainda algumas personagens que tornam a história melhor, e se nas primeiras páginas fiquei surpreendido com os detalhes, no fim da história o que se destaca são as personagens.

Dessas personagens, Artur, que não é o narrador da história, é o mais cativante, mas nem mesmo ele é desprovido de falhas e más escolhas. Aliás, este é um enredo sobre más escolhas, muitas delas feitas por amor ou vingança. A nossa História está recheada de decisões tomadas em nome do amor, quer seja pelo simples homem do povo até ao mais poderoso Rei, e muitas dessas decisões mudaram o rumo da História, e tornaram-se imortais. E, inevitavelmente, este é um livro sobre as loucuras de amor, não só de Artur, mas de outros homens, que com esse sentimento também encontraram a loucura, ou a vingança, ou a coragem. O amor molda-nos, tal como molda esta história, proporcionando momentos que apenas são aceitáveis porque aquela personagem ama alguém...

Apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, este livro lê-se muito bem por si mesmo, sem necessidade dos próximos se por acaso não quiserem continuar. Todavia, acredito que quem chegue ao fim do livro, queira ler o resto, pois Cornwell é mesmo um gigante no seu género, capaz de nos levar a mergulhar num mundo que parece palpável, e como me dizem que o melhor está para vir, terei mesmo de continuar a ler a trilogia.

Para já, e sem tocar na história para nada revelar, o que posso dizer é que este é um livro sólido e muito completo. Cornwell não se foca num aspeto, mas sim da plenitude de uma sociedade e tudo o que a faz sobreviver. Religião, política, espionagem, economia, personagens, sentimentos, tradições, tudo está presente neste enredo que tem sempre como pano de fundo, e por vezes muito dissimulado, a "invasão" Cristã na mente das pessoas. Para já, lento no início, denso em todas as páginas, mas muito bom e recomendado a quem gostar do género.

Publicado em 18 Setembro 2014

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