O Último dos Czares - Opinião no Jornal Público

Há um século, os Romanov eram afastados do trono do Império Russo. A família passou mais de um ano detida em vários locais, enquanto assistia ao fim de tudo aquilo que conhecia. Um novo livro lança uma luz sobre os últimos meses da última família imperial.
 


“Outro dia excelente, com alguma geada.” Esta é a entrada do czar Nicolau II no seu diário, ao fim de um dia de Outubro de 1917, quando era já um “cidadão comum”, detido com a mulher e os filhos em Tobolsk, na Sibéria. A quase três mil quilómetros de distância, em Petrogrado (actual São Petersburgo), os bolcheviques liderados por Vladimir Lenine derrubavam nesse mesmo dia o governo provisório para impor o poder dos sovietes — e enterrar de vez a Rússia imperial que os antepassados de Nicolau governaram durante três séculos.

O czar tinha sido afastado vários meses antes, durante a revolução de Fevereiro. Ele e a sua família mais próxima viviam agora numa situação muito particular. Nicolau estava em prisão domiciliária enquanto assistia de longe às profundas mudanças no país que pouco antes governava com mão-de-ferro. O historiador Robert Service concentrou-se neste período da vida de Nicolau e dos Romanov. Consultou o diário do czar, da mulher e de vários protagonistas que com ele interagiram nos últimos meses da sua vida. O resultado acaba de ser publicado em Portugal no livro O Último dos Czares (Desassossego) e o autor conversou com o PÚBLICO.

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Há poucos paralelos na História para um período como aquele que os Romanov viveram entre Fevereiro de 1917 e Julho de 1918. Quase de um dia para o outro, Nicolau II perdeu um poder quase total sobre o maior império mundial que governava há mais de 20 anos, mas manteve-se no país. “Ele tem de fazer uma viagem mental sem poder fazer uma viagem física”, diz Service ao PÚBLICO. Essa viagem é feita sobretudo através dos livros. A leitura do clássico de Leon Tolstoi, Guerra e Paz, torna-se num ritual de família — ao serão, Nicolau costumava ler partes do romance monumental sobre a invasão da Rússia pelas tropas napoleónicas à mulher e aos filhos
Durante os longos meses de cativeiro, Nicolau “lê toda a literatura russa que nunca antes tinha lido”. Service descreve o pai do czar, Alexandre III, como um “analfabeto cultural”, que decidiu privar o herdeiro ao trono do acesso a obras literárias. Nicolau “lê estes livros não apenas para passar as longas horas em que esteve preso em casa, mas também para perceber a Rússia”, diz o historiador e professor na Universidade de Oxford.
Porém uma das conclusões de Service é que Nicolau II manteve as mesmas ideias e a postura autocrática que ditaram o fim do seu reinado, mesmo durante este período. “Se for um optimista em relação à vida, irá pensar que, se um homem lê Tolstoi, Tchekhov, Turgueniev, e outros, talvez isso faça mudar algumas das ideias menos informadas que tem na cabeça. Mas isso não aconteceu”, observa.
Robert Service aponta a “falta de curiosidade intelectual” do czar como um traço determinante do rumo que o seu reinado seguiu. Diz que viveu sempre numa “bolha mental”, e que nunca chegou a conhecer a Rússia ou os russos verdadeiramente. Uma das principais convicções de Nicolau era de que o povo russo era “intrinsecamente nobre, decente e simples” e a corrupção que se poderia abater sobre esta natureza teria sempre raiz estrangeira ou seria fruto de uma conspiração sionista. O historiador duvida, por exemplo, que o monarca soubesse a razão pela qual muitos russos passaram a certa altura a apelidá-lo de Nicolau, “o sanguinário”.
À mulher do czar não basta parecer russa. Quando o século XX começa, a Europa é ainda um continente governado por famílias reais. Nicolau, por exemplo, era primo do rei Jorge V de Inglaterra, e do imperador alemão Guilherme II, e a czarina Alexandra era uma princesa alemã neta da rainha Vitória. Apesar da profusão de monarquias na Europa, o caso russo era particular. O czar era um monarca absolutista, como há muito os restantes homólogos europeus tinham deixado de ser, fruto da emergência das monarquias constitucionais.
Também na Rússia as exigências de reformas políticas eram comuns e, em 1905, Nicolau vê com os seus próprios olhos o descontentamento popular nas ruas de São Petersburgo. É eleito um Parlamento, são prometidas mudanças, mas tudo se mantém na mesma. Nicolau não quer abandonar a autocracia dos Romanov: “Aquando da subida ao trono jurei manter intacta a forma de governo recebida do meu pai”, chegou a dizer.

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A história do último czar russo nunca ficaria completa sem o papel da mulher, Alexandra. Ao contrário do padrão comum nos casamentos reais, frequentemente motivados em exclusivo por interesses políticos, da união entre o príncipe russo e a neta da rainha Vitória nasceu um amor verdadeiro. “Mantinham uma grande cumplicidade, baseada na partilha de valores e numa forte atracção sexual”, escreve Robert Service.

Tendo nascido na Alemanha, Alexandra nunca ganhou a confiança dos russos, especialmente após o início da guerra. Diziam que era uma espia ao serviço do Império Alemão, que influenciava o marido e que até o traía com o infame Rasputine. O historiador diz que, perante a desconfiança dos seus súbditos, a rainha acabou por se tornar “mais russa do que os russos”. Depois de 1905, o casal passou a falar publicamente apenas em russo e Alexandra partilhava os valores conservadores que caracterizavam o marido. O seu papel foi sobretudo o de fornecer “estabilidade emocional” a Nicolau, dando-lhe segurança para “se manter tão autocrático como podia”, diz Service. “Ironicamente, ao apoiá-lo emocionalmente, ela ajudou a mantê-lo radical”, conclui.

Quando a família recebeu ordem para abandonar Tobolsk e mudar-se para Ecaterimburgo – aquele que seria o destino fatal – Alexandra decide acompanhar o marido. A decisão não foi fácil. Para trás ficavam os filhos, incluindo o mais novo, Alexei, que era hemofílico e que foi sempre uma grande fonte de preocupação para os pais.

O fim na adega
O resto da família segue para Ecaterimburgo poucas semanas depois. A execução sumária dos Romanov não era o plano da liderança soviética, que preferia um julgamento público em Moscovo. É a complicada situação militar na Primavera de 1918, quando explode a guerra civil russa, que leva Lenine a decidir acabar de uma vez por todas com o “problema” da família real. “E foram implacáveis”, diz Service. Na madrugada de 17 de Julho, todos os membros da família foram encaminhados para a adega da casa onde estavam presos. Uma dúzia de soldados esperava-os, empunhando revólveres Nagant. Foi comunicado a Nicolau que tinha sido decidido executá-los. O ex-czar pareceu espantado e tentou fazer uma pergunta, mas já só ouviu um grito: “Fogo!”
“A adega lembrava um armazém de talho, salpicada de sangue, com ossos expostos, bem como pedaços arrancados de carne”, escreve Robert Service. O comité central em Moscovo teve muito cuidado em ocultar o seu papel na ordem dada às autoridades de Ecaterimburgo. O grande receio era o impacto que a execução a sangue frio de crianças – mas também de Alexandra, uma princesa alemã – pudesse suscitar junto da opinião pública estrangeira, numa altura em que o regime soviético mal tinha acabado de nascer.
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Mas Service não tem dúvidas de que uma decisão deste calibre nunca poderia ser tomada sem o conhecimento de Lenine, que era “um maníaco controlador”. Existe um telegrama de Moscovo que chegou a Ecaterimburgo poucas horas antes da execução, mas que utiliza uma linguagem codificada. O que ainda está por apurar, diz o historiador, é de que forma decorreu a discussão no seio do comité central. A hipótese de Service é que terá sido oral, para que não houvesse qualquer registo.
O estudo dos últimos meses de vida de Nicolau II permitiu a Robert Service tirar algumas conclusões sobre o conceito de liderança – aplicáveis até a líderes que “utilizam o Twitter”. “Acredito que se alguém estiver tanto tempo no poder como Nicolau II, é necessário uma disciplina mental muito forte para que não se torne um líder complacente”, afirma. O último czar estava no trono há já 22 anos quando se deu a abdicação – na história recente russa, apenas Estaline esteve no poder mais tempo. Se for reeleito para mais um mandato nas presidenciais do próximo ano, Vladimir Putin irá ultrapassar a longevidade de Nicolau no poder (entre 2008 e 2012, Putin foi primeiro-ministro).

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Service diz que Putin está também a viver numa “bolha mental”, tal como Nicolau. “O perigo é que ele não recebe nenhum pensamento crítico”, observa o historiador, que está neste momento a trabalhar num livro sobre a Rússia contemporânea. Tal como o czar, também Putin utilizou o nacionalismo como instrumento para continuar no poder – e esse é outro perigo. “O nacionalismo é como um cão selvagem, assim que o libertar da jaula é muito difícil voltar a prendê-lo. Tem vantagens para aumentar a popularidade de líderes, mas é algo muito difícil de controlar”, observa o professor.
Publicado em 20 Outubro 2017

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